sexta-feira, 1 de maio de 2009

A historicidade de Moisés




A autenticidade da historia de Moisés é muito discutível, mas, caso este tenha sido realmente uma personagem histórica e não um produto de ficção, teria de se enquadrar por volta do século XV AEC (1500-1400 AEC). A antiga tradição atribui-lhe a compilação das leis no Torah, que é o mesmo que o Pentateuco ou os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, mas só setecentos anos mais tarde, no século VII AEC, durante o reinado de Josias (649–609 AEC), é que estas leis foram “encontradas” (2 Cronicas 34:14). Isto pode ser uma pista de que a personagem de Moisés teria sido criada por ficção para sugerir que a lei judaica e a adoração de Yahveh seriam mais antigas do que na realidade.


Resumo de 2 Cronicas 34:14-21
Durante uns trabalhos de conservação do Templo, o sacerdote Hilquias encontrou o livro de Moisés e entregou-o a Safã, o escriba.
Safã foi ao rei Josias e leu-lhe o livro.
Quando o rei ouviu as palavras da lei, rasgou a sua roupa, e ordenou aos escribas e sacerdotes:
"Consultem o Senhor sobre este livro; pois grande é o furor do Senhor sobre nós por não terem os nossos pais feito tudo conforme este livro."


É, portanto, provável que a personagem Moisés terá sido desenvolvida durante o reinado de Josias. No mínimo, foi nesta época que lhe foi atribuída a autoria das leis do judaísmo. Josias, ao tomar conhecimento do conteúdo do livro de Moisés, é retratado como ficando fortemente decepcionado com o comportamento errado de toda a nação, desde o tempo dos seus antepassados. A própria Bíblia reconhece que, até ao tempo de Josias, ninguém conhecia a lei de Moisés!!!

Certo é que, como Moisés é o grande Profeta do Antigo Testamento, seria de esperar que em todos os livros houvesse referências a esta importante personagem. No entanto não se encontram referências nos seguintes dezanove livros: Rute, 2º Samuel, Ester, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos de Salomão, Lamentações, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu e Zacarias. O facto de existirem tantos livros no Antigo Testamento sem referências a Moisés, é tão estranho como também seria se houvesse livros no Novo Testamento que não tivessem uma única referência a Jesus Cristo.

Noutros três livros existe uma única referência um pouco desenquadrada que não fornece informação nenhuma para além do nome: Jeremias 15:1; Miquéias 6:4; Malaquias 4:4. Encontramos ainda outros três livros onde o nome de Moisés aparece duas vezes, em cada um, mas parece suspeito o nome aparecer as duas vezes em frases contíguas: 1º Samuel 12:6,8; Isaías 63:11,12; Daniel 9:11,13.

Vamos resumir a lista de livros que excluimos até agora:
  • dezanove livros sem qualquer referência a Moisés;
  • seis livros com uma ou duas referências duvidosas ou, pelo menos, insignificantes;

Dos trinta e nove livros que constituem ao Antigo Testamento, apenas treze têm referências significativas sobre Moisés:
  • quatro dos cinco livros do Pentateuco (Génesis não contém referências porque é suposto relatar acontecimentos anteriores ao nascimento de Moisés), que são os livros cuja autoria é tradicionalmente atribuida a Moisés;
  • e outros nove livros: Josué, Juízes, 1º Reis, 2º Reis, 1º Crónicas, 2º Crónicas, Esdras, Neemias e Salmos.

A existência do Antigo Testamento, tal como conhecemos hoje, deve-se, em grande parte, a um escriba chamado Esdras que, no século V AEC, no pós-exílo babilónico, compilou os livros das Crónicas, bem como o livro que tem o seu nome, Esdras. Também atribui-se-lhe o facto de ter organizado as Escrituras Sagradas judaicas, numa primeira compilação dos escritos que eram considerados sagrados. Este facto é importante, pois Esdras deve ter tido a preocupação de adaptar muitos textos à nova fé dominante dos judeus: o culto de Yahveh e o seu profeta Moisés.


PS: Agradeço ao Rui Pereira a correcção ortográfica

Moisés, o terrível




No livro de Números, encontramos mais um daqueles episódios do Antigo Testamento que atingem níveis incríveis de violência, crueldade e injustiça:

Resumo de Números, capítulo 31 
Yahveh disse a Moisés: “Vinga os filhos de Israel dos midianitas”. Moisés então reuniu soldados e confrontaram-se com o povo de Midiã. E os israelitas saquearam e queimaram as suas cidades e acampamentos, mataram todos os homens, aprisionaram as mulheres e as crianças. 
Quando levaram o saque e os prisioneiros a Moisés, este repreendeu os oficiais israelitas dizendo: 
- “Deixastes viver todas as mulheres que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor, e por isso houve praga na congregação do Senhor. Portanto matem todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres não virgens. Mas podem ficar com as meninas virgens.” 
O resto do capítulo quantifica o saque em peso do ouro, cabeças de gado e escravas virgens e descreve minuciosamente a distribuição destes bens entre os soldados, a população, os sacerdotes e... o próprio Yahveh!

Esta passagem sobre a guerra contra os midianitas, aparece na sequência de um episódio protagonizado por um profeta chamado Balaão (que tinha um burro falante!), no qual as mulheres que provocaram os israelitas são provenientes de Moabe e não de Midiã (Números capítulos 22 a 25; os midianitas, e uma mulher em particular, são referidos apenas pontualmente ao longo destes capítulos). Yahveh enganou-se e todos os midianitas (homens, mulheres e crianças) pagaram bem caro pelas acções das mulheres moabitas!

Mas o mais grave são as atrocidades patentes em Números capítulo 31, perpetradas pelo “povo escolhido de Deus” às ordens do seu profeta Moisés:
  • extermínio de toda uma população masculina no decurso de uma guerra (nada de prisioneiros!);
  • matança de mulheres e meninos pertencentes ao inimigo já depois de resolvido o conflito;
  • escravização das meninas virgens (tornadas propriedade), as únicas sobreviventes do lado do inimigo;
Por outro lado, este nível de violência de Moisés contra os midianitas não é conciliável com o relato sobre Midiã ter sido a terra para onde Moisés foi quando fugiu do Egipto e ser a terra de origem da sua mulher, sogro e cunhado (Êxodo 2:15-21; Números 10:29). Isso significaria que estes familiares de Moisés teriam também morrido no confronto, juntamente com toda a população midianita. Pois esta cruel matança não parece ter feito extinguir a raça dos midianitas, porque podemos ler que, posteriormente, os midianitas voltaram a ser numerosos e poderosos (Juízes 6:1-5).

Esta passagem é, também, totalmente oposta a outra que afirma que Moisés era o mais manso de todos os que haviam sobre a Terra!
Números 12:3 Ora, Moisés era homem mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.

Balaão, o mágico frustrado
A história de Balaão, em Números, é importante para melhor perceber este encadeamento de textos relacionados com a figura de Moisés.

Resumo de Números, capítulos 22 a 25 
Os moabitas tremiam de medo dos israelitas, porque estes tinham tido recentes vitórias militares e estavam acampados nas planícies de Moabe. 
Balaque, rei de Moabe, enviou emissários para solicitar os serviços de magia de Balaão filho de Beor, em Petor, na Mesopotâmia. 
Os emissários levavam dinheiro para pagar os honorários que fossem exigidos por Balaão. À chegada, os emissários transmitiram-lhe a seguinte mensagem do rei: “Um povo vindo do Egipto está a dominar toda a redondeza. Vem connosco e amaldiçoa este povo, porque tudo o que abençoas fica abençoado e tudo o que amaldiçoas fica amaldiçoado.” 
Balaão respondeu: "Fiquem aqui esta noite, que eu vou falar com Yahveh sobre este assunto". 
Entretanto, Deus veio ter com Balaão e perguntou-lhe: "Quem são estes homens que estão contigo?" (este Deus ainda não era omnisciente!…). 
Balaão respondeu que estes eram enviados de Balaque, rei de Moabe, e explicou o propósito da visita deles. 
Deus disse-lhe: "Não vás com eles. Não amaldiçoes este povo, pois é abençoado" 
Na manhã seguinte, Balaão disse aos emissários do rei de Moabe: "Voltem para a vossa terra, porque Yahveh não me deixa ir convosco". 
E assim retornaram os emissários a Moabe, a Balaque. Depois de ouvi-los, o rei enviou novos emissários, príncipes de Moabe, para insistir com Balaão e prometer-lhe grandes somas de dinheiro. 
Balaão foi novamente falar com Deus, que lhe respondeu: “Se é isso que querem então vai com eles, mas fala-lhes somente o que eu te disser”. 
Balaão preparou a sua jumenta e foi com os homens para Moabe. Apesar de ter autorizado Balaão, Deus irou-se com o comportamento deste e colocou um anjo a bloquear-lhe o caminho. Só a jumenta é que viu o anjo e parou. Balaão, não compreendendo o comportamento do animal, por três vezes espancou a jumenta até que esta lhe disse: “Que te fiz? Porque me espancaste?”. Depois de uma discussão com a burra, Balaão finalmente viu o anjo e este ordenou-lhe que prosseguisse o caminho até Moabe. 
Quando Balaão chegou a Moabe, avisou Balaque que apenas ia fazer aquilo que Deus lhe ordenou. O rei levou-o para um local de onde se podia avistar os israelitas. Balaão ofereceu sacrifícios em sete altares e, para consternação do rei Balaque, proferiu bençãos para os israelitas em vez de maldições. 
Balaque, ainda chocado, pediu para Balaão ir com ele para outro local de onde se podia avistar apenas uma parte dos povo israelita e, de lá, proferir as maldições contra estes. Balaão voltou a oferecer sacrifícios e a proferir bençãos para os israelitas. 
Numa terceira e última tentativa, Balaque levou Balaão para o cume de Peor, mas o resultado foi exactamente o mesmo que nas duas primeiras vezes. De todas as vezes Balaão justificou-se a Balaque com as seguinte palavras “Não te disse que ia fazer apenas aquilo que Yahveh me ordenou?” 
A partir desse momento Balaque e Balaão separaram-se (acaba aqui a história de Balaão…).

(…começa o capítulo 25)

Os filhos de Israel começaram a ter relações com as filhas de Moabe e, por isso, ligaram-se ao culto de Baal de Peor. Yahveh encolerizou-se e disse a Moisés: “Enforca e deixa virados para o sol todos os líderes israelitas, para que a minha ira deixe Israel”. Moisés, por seu turno, retransmitiu a ordem de Yahveh aos juízes: “Devem ser mortos todos os que se juntaram ao culto de Baal de Peor”.

Entretanto um certo homem trouxe uma mulher midianita para a sua tenda. Finéias, neto de Arão, seguiu-os e trespassou-os no ventre com a sua lança.
No fim de contas morreram 24.000.


Nesta passagem de Balaão, que não era israelita mas um mago mesopotâmico, podemos fazer as seguintes leituras:
  • Balaão, apesar de não ser israelita, fala directamente com Yahveh, mostrando sempre uma irrepreensível obediência (uma característica que raramente se encontra nos profetas israelitas);
  • a história do envolvimento dos israelitas com as moabitas não está relacionada com os episódios de Balaão (a não ser pelo facto de ambas narrações serem contíguas no livro de Números);

Apesar disto, Moisés culpa Balaão de ter aconselhado as mulheres moabitas a envolverem-se com os israelitas e a introduzirem o culto de Baal em Peor.


Dentro da mesma linha de interpretação, Balaão é descrito no Novo Testamento como um malvado que queria prejudicar os israelitas (2 Pedro 2:15; Judas 11; Apocalipse 2:14).

O episódio onde Moisés declara guerra contra Midiã e decreta a extinção dos midianitas, quando o caso que suscitou este episódio estava relacionado com as mulheres de Moabe, pode ter a seguinte explicação: o grande Rei David é descrito, no livro de Rute, como descendente de uma mulher moabita (!).

É muito provável que, na sua forma original, o relato que descrevia este episódio centrasse a acção contra Moabe e não contra Midiã. Mas deve ter existido um período em que houve necessidade de “branquear” as relações entre Israel e Moabe, refazendo-se relatos onde estivesse patente o ódio recíproco.


quinta-feira, 16 de abril de 2009

Torah - Sábado, Páscoa, Nazireus







O Sábado, ou Sabbath


Os israelitas tinham de respeitar o Sábado (heb. Sabbath) como um dia de descanso semanal reservado apenas para a devoção religiosa. Isso significava que não podiam fazer qualquer espécie de trabalho. O livro de Números relata que um certo homem foi visto a apanhar lenha num Sábado e que a sua punição foi a morte por apedrejamento (Números 15:32-36). Era, portanto, um assunto muito sério.

Esta questão do Sábado seria frequentemente levantada nos relatos sobre Jesus, ou seja, nos evangelhos.


A Páscoa

A Páscoa deveria ser celebrada no primeiro mês do ano, o mês de Nisã (nome babilónico), aos catorze dias, para celebrar o êxodo do Egipto. 
Levítico 23:5-6 No mês primeiro, aos catorze do mês, à tardinha, é a páscoa do Senhor. E aos quinze dias desse mês é a festa dos pães ázimos do Senhor; sete dias comereis pães ázimos.

O ano começava na primeira lua-nova após o equinócio da Primavera e todos os meses dos israelitas começavam com a lua nova. Uma vez que os hebreus não tinham uma grande tradição em astronomia, pensa-se que o início da Primavera era determinado pelo despontar da cevada nos campos. O começo de um novo mês era determinado por observação da Lua em busca do mais ténue sinal de um crescente.

Como a Páscoa era celebrada no dia catorze, era sempre num dia de lua-cheia. No final deste dia os israelitas tinham de comer borrego assado acompanhado de pães ázimos (não fermentados). A seguir à Páscoa seguia-se a Festividade dos Pães Ázimos que durava uma semana.

Muito mais tarde, o cristianismo substituiu estas festividades pela comemoração da morte e ressurreição de Cristo.


Nazireado

Uma consagração religiosa, designada por nazireado, poderia ser feita por alguém como dedicação exclusiva ao culto religioso. Segundo a Lei, só os membros da tribo de Levi é que podiam ser sacerdotes e fazer serviço religioso. Mas um judeu, que não fosse levita, podia fazer um voto de “nazireu” em que se dedicava por inteiro a actividades religiosas durante um certo intervalo de tempo. Podemos consultar os detalhes desse voto no capítulo 6 de Números:
Números 6:1-7 ... Quando alguém, seja homem, seja mulher, fizer voto especial de nazireu, a fim de se separar para o Senhor, abster-se-á de vinho e de bebida forte; ... Por todos os dias do seu voto de nazireado, navalha não passará sobre a sua cabeça; ... Por todos os dias da sua separação para o Senhor, não se aproximará de cadáver algum. ... Por todos os dias do seu nazireado será santo ao Senhor.


Durante o tempo deste voto, o nazireu (heb. notzri) tinha as seguintes restrições:
-          não podia beber vinho, outras bebidas alcoólicas, ou qualquer produto que envolvesse uvas;
-          não podia cortar o cabelo;
-          não podia entrar em contacto com qualquer cadáver.


No Antigo Testamento, os dois únicos exemplos de nazireus foram Sansão (Juízes 13:5) e Samuel (1 Samuel 1:9-11), ambos dedicados, logo à nascença, por toda a vida. No Novo Testamento, a descrição relativa ao nascimento de João Baptista em Lucas 1:11-15 mostra uma semelhança com os exemplos do Antigo Testamento
Juízes 13:2-5 Havia um homem de Zorá, da tribo de Dã, cujo nome era Manoá; e sua mulher, sendo estéril, não lhe dera filhos. Mas o anjo do Senhor apareceu à mulher e lhe disse: Eis que és estéril, e nunca deste à luz; porém conceberás, e terás um filho. Agora pois, toma cuidado, e não bebas vinho nem bebida forte, e não comas coisa alguma impura; porque tu conceberás e terás um filho, sobre cuja cabeça não passará navalha, porquanto o menino será nazireu de Deus desde o ventre de sua mãe; ... 
1 Samuel 1:9-11 Então Ana se levantou, depois que comeram e beberam em Siló; e Eli, sacerdote, estava sentado, numa cadeira, junto a um pilar do templo do Senhor. Ela, pois, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou muito, e fez um voto, dizendo: ó Senhor dos exércitos! se deveras atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, mas lhe deres um filho varão, ao Senhor o darei por todos os dias da sua vida, e pela sua cabeça não passará navalha
Lucas 1:12-15 E Zacarias, vendo-o, ficou turbado, e o temor o assaltou. Mas o anjo lhe disse: Não temais, Zacarias; porque a tua oração foi ouvida, e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João; e terás alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento; porque ele será grande diante do Senhor; não beberá vinho, nem bebida forte; e será cheio do Espírito Santo já desde o ventre de sua mãe;

Estas três personagens nasceram, por milagre, de mães estéreis e foi-lhes feito um voto relativo a não se lhes cortar o cabelo ou de nunca beberem álcool.

Mais à frente vamos ver como a palavra nazireu pode ter sido confundida com a palavra nazareno relativamente a Jesus o Nazareno (heb. Yeshu ha-Notzri).

Torah - dieta, defecação, circuncisão, sacrifícios, punições



A dieta

Algumas leis que Deus deu a Moisés referiam-se ao que os hebreus poderiam comer e aquilo que lhes estava proibido (Levítico 11):
-          podiam comer animais com casco partido e que fossem ruminantes;
-          podiam comer peixe, mas nunca animais marinhos sem escamas (por exemplo, não podiam comer bivalves, camarão, polvo ou caranguejo);
-          não podiam comer camelo, porco, coelho, etc.

No meio destas leis, podemos encontrar erros grosseiros de classificação de animais:
-          o morcego aparece incluido numa lista de aves que não poderiam ser consumidas (Deuteronómio 14:11-18), mas o morcego é um mamífero e não uma ave;
-          a lebre aparece excluída da ementa porque, embora ruminante (sic), não tem um casco partido (Levítico 11:6), mas a lebre não é um animal ruminante;
-          é descrita uma lista de insectos, que seriam permitidos à mesa, como tendo quatro patas (Levítico 11:21-23), mas os insectos têm seis patas.


A defecação

O livro de Deuteronómio, entre as regras de comportamento a observar em acampamento militar, até explica como é que se deve defecar com asseio e de modo a não se correr o risco de Deus tropeçar nas fezes de alguém. 
Deuteronómio 23:13-14 Entre os teus utensílios terás uma pá; e quando te assentares lá fora, então com ela cavarás e, virando-te, cobrirás o teu excremento; porquanto o Senhor teu Deus anda no meio do teu arraial, para te livrar, e para te entregar a ti os teus inimigos; pelo que o teu arraial será santo, para que ele não veja coisa impura em ti, e de ti se aparte.

A circuncisão

Uma das mais distintivas características dos judeus ao longo dos milhares de anos da sua história é o hábito da circuncisão, que consiste na remoção do prepúcio, o pedaço de pele que cobre a extremidade do pénis. O prepúcio, por algum misterioso motivo, era considerado repugnante.

O Antigo Testamento atribui o início deste hábito a Abraão, por ordem expressa de Deus, como sinal de uma relação especial (acordo, aliança ou pacto) com os hebreus. No entanto, encontram-se vestígios desta prática em muitas outras culturas, nomeadamente no antigo Egipto.

As instruções que Deus deu a Abraão sobre a circuncisão são repetidas por Moisés aos israelitas em Levítico 12:2-3. O acto deveria ser efectuado em todos os meninos no seu oitavo dia de vida.
Actualmente os judeus e muçulmanos ainda utilizam esta prática como iniciatória quer para recém-nascidos quer para recém-convertidos.


Outras regras fúteis

Em Levítico, o número de regras a seguir é tão vasto que seria impossível a alguém conseguir cumprir todas as leis. Por exemplo, num só versículo de Levítico, existem três proibições fúteis:
Levítico 19:19 Obedeçam às minhas leis.
Não cruzem diferentes espécies de animais.
Não plantem duas espécies de sementes na sua lavoura.
Não usem roupas feitas com dois tipos de tecido.

Talvez fosse este o objectivo de quem elaborou estas leis: ter os seguidores em constante pressão para cumprir um código difícil, de modo a que os sacerdotes mais facilmente pudessem exigir oferendas de sacrifício...


Oferendas de sacrifício

Tal como em muitas outras culturas, os sacrifícios animais faziam parte da religião dos hebreus. A Lei estipulava muitas circunstâncias em que era devido um sacrifício animal como, por exemplo, no nascimento de um filho, em ocasiões festivas, para o perdão dos pecados, etc.

Segundo o Levítico, o principal livro da Lei, todas estas obrigações serviam para criar “um cheiro repousante para Yahveh”, apesar de algumas passagens no Antigo Testamento referirem que Deus não se agradava destes sacrifícios (Salmos 40:6; 51:16; Jeremias 7:21-22). Entretanto, a carne oferecida acabava por significar um banquete de carne assada para os sacerdotes.



A punição do prevaricador

Muitas leis absurdas e cómicas encontram-se nas páginas do Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento). O mais engraçado é descobrir o que é que Yahveh tinha reservado para aqueles que não respeitassem estas leis (Deuteronómio 28:15-63):
-          Yahveh o atacará com tuberculose, febre, inflamação, com a espada e com o bolor (v. 22);
-          irá ter furúnculos, hemorróidas, sarna e comichão (v. 27);
-          ficará louco e cego e será defraudado (v. 28 e 29);
-          quando estiver noivo de uma mulher, outro homem a possuirá (v. 30);
-          irá comer os próprios filhos (v. 53);
-          Yahveh deleitar-se-á enquanto lhe aplica estes tormentos (v. 63)

Yahveh tinha preparado um verdadeiro inferno em vida para aqueles que não seguissem correctamente as ordens inscritas na Lei! Esta perspectiva de punição em vida, mostra que os hebreus não tinham nenhuma noção ou esperança de vida após a morte. Quer fosse para a punição quer fosse para a recompensa, Deus actuava durante a vida da pessoa.

Torah - o sexo e o casamento





A lei que ficou registada no Torah (e, posteriormente, na Bíblia cristã) tem detalhes que hoje se consideram completamente injustos e cruéis. Por exemplo, não existe uma clara distinção entre adultério e violação e, em qualquer caso, a mulher não tem praticamente direito à justiça, sendo tratada como propriedade do marido, noivo ou pai. Vejamos um conjunto de leis encontradas em Deuteronómio 22:23-29:
-          se um homem, na cidade, se deitasse com uma virgem prometida a outro homem, ambos deveriam ser apedrejados: ele porque humilhou a mulher do seu próximo; ela porque não gritou (na cidade quando se grita todos ouvem...);
-          caso o episódio ocorresse no campo, deveria matar-se apenas o homem, porque presumivelmente ela terá gritado (mas ninguém a ouviu, porque estava no campo!...);
-          caso se tratasse de uma virgem descomprometida, o homem que fosse apanhado deitado com ela deveria pagar cinquenta moedas de prata ao pai dela e era obrigado a casar-se com a rapariga (mesmo que se tenha tratado de violação!...) e nunca mais poderia divorciar-se dela (a pobre rapariga, para além de ter sido violada, ficava condenada a viver para sempre com o seu violador);

E o que fazer de uma mulher que casasse sem ser virgem?
Deuteronómio 22:13-21 Se um homem tomar uma mulher por esposa, e, tendo coabitado com ela, vier a desprezá-la, e lhe atribuir coisas escandalosas, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Tomei esta mulher e, quando me cheguei a ela, não achei nela os sinais da virgindade; então o pai e a mãe da moça tomarão os sinais da virgindade da moça, e os levarão aos anciãos da cidade, à porta;
...
Se, porém, esta acusação for confirmada, não se achando na moça os sinais da virgindade, levarão a moça à porta da casa de seu pai, e os homens da sua cidade a apedrejarão até que morra; 


Existe também uma curiosa lei que previa o caso de um homem suspeitar de infidelidade por parte da sua mulher (Números 5:11-28): o homem deveria levar a mulher ao sacerdote e este deveria fazer uma mistura de água e pó do chão, fazer a mulher beber esta mistura e dizer-lhe:
-          “se foste infiel ao teu marido, que esta água amarga te faça inchar o ventre e que te descaiam os teus órgãos genitais; caso contrário poderás continuar a ter filhos”;

Ainda dentro do contexto das leis que regiam o casamento, estava prevista a possibilidade de divórcio, mas este só poderia acontecer por iniciativa do homem (Deuteronómio 24:1-4). A mulher nunca poderia requerer o divórcio.

A Lei, ou Torah, plagiadas de Hammurabi





A Lei judaica, que supostamente foi revelada por Yahveh a Moisés, é muito provavelmente baseada no código de Hammurabi. Hammurabi era um rei babilónico do século XVIII AEC (1800 a 1700 AEC). Uma pedra com leis numeradas de 1 a 282 (embora muitas delas ilegíveis) foi encontrada em 1901 e encontra-se em exibição no museu do Louvre em Paris. Encontramos muitas leis semelhantes à Lei de Moisés. Temos, portanto, que assumir que Moisés plagiou leis babilónicas ao entregá-las aos israelitas como se tratassem de leis divinas.

A retaliação, o olho-por-olho

Uma das leis mais conhecidas do Torah é a pena de talião, conhecida pela expressão “olho-por-olho, dente-por-dente”:
Êxodo 21:22-25 Se alguns homens brigarem, e um ferir uma mulher grávida, e for causa de que aborte, não resultando, porém, outro dano, este certamente será multado, conforme o que lhe impuser o marido da mulher, e pagará segundo o arbítrio dos juízes; mas se resultar dano, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, golpe por golpe.

Qualquer ofensa ou dano físico deveria ser retaliado na mesma medida (mas, curiosamente, a vida de um feto não é equiparada à de um ser humano). 
Esta lei é semelhante a leis que existiam no código de Hammurabi.


Os Dez Mandamentos ou Decálogo

O texto de Êxodo 20:2-17 apresenta uma lista daquelas que seriam consideradas as principais leis, que ficariam famosas pelo nome de “Dez Mandamentos” ou “Decálogo” (gr. Dekalogous):

Mandamento
1
ter um único Deus
2
não ter ídolos
3
não invocar o nome de Deus futilmente
4
guardar o sábado
5
honrar pai e mãe
6
não assassinar
7
não praticar adultério
8
não furtar
9
não testemunhar falsidades
10
não cobiçar

Aqui é óbvia a assimetria entre o valor moral e legislativo de cada um dos mandamentos. Num extremo existe o mandamento “não assassinar” que é uma das leis fundamentais de qualquer sistema legal civilizado e no outro extremo existe o mandamento “não cobiçar” do qual nem se consegue imaginar uma aplicação prática num código civil ou criminal.

Os VERDADEIROS Dez Mandamentos

É habitual retratar-se Moises a descer o monte com os famosos 10 mandamentos gravados em duas tábuas.
No entanto, estes mandamentos foram apenas falados nos discursos de Deus, e nunca foram escritos nas duas tábuas de pedra!

Êxodo, capítulos 20 a 31
Moisés sobe à montanha e Deus discursa longamente. 
Deus começa por indicar os famosos 10 mandamentos mas, no mesmo discurso, continua com algumas outras regras de ética e com instruções detalhadas sobre:
 - o tipo de oferendas que Deus deseja receber, 
 - como construir o templo, 
 - como ele quer que a sua cortina feita, 
 - como deve ser feito o avental (éfode) do sumo-sacerdote, 
 - etc, etc...
Só na última frase de Êxodo 31 é que está escrito que Deus deu a Moisés duas tábuas de pedra escritas pelo seu dedo, MAS NÃO HÁ INDICAÇÃO SOBRE O QUE LÁ ESTAVA ESCRITO, e ordena que ele desça da montanha, rapidamente, porque o povo estava a fazer uma coisa terrível!...
Êxodo, capítulos 32 e 33
Quando Moisés desce do monte, com umas tábuas de pedra, encontra o povo a adorar um bezerro de ouro. Moisés DESTRÓI AS TÁBUAS NUM ACESSO DE RAIVA e é eventualmente forçado a subir de novo até à montanha a fim de escrever novas tábuas.
Êxodo 34
Deus pede a Moisés para fazer novas tábuas de pedra para que ele próprio pudesse escrever nelas.
Em Êxodo 34 estão os ÚNICOS 10 MANDAMENTOS que restaram escritos em tábuas de pedra (os outros 10 mandamentos foram destruidos):

Mandamento
1
não pactuarás com os amorreus, os cananeus, os heteus, os perizeus, os heveus ou os jebuseus.
2
não adorarás a nenhum outro deus;
3
não farás para ti deuses de fundição
4
guardarás a festa dos pães ázimos: sete dias comerás pães ázimos, no mês de abibe
5
todo o primogénito é de Deus - e não aparecerás diante de Deus com as mãos vazias
6
seis dias trabalharás, mas ao sétimo dia descansarás
7
guardarás a festa das semanas, que é a festa das primícias da ceifa do trigo, e a festa da colheita no fim do ano
8
não sacrificarás o sangue do meu sacrifício com pão levedado, nem o sacrifício da festa da páscoa ficará da noite para a manhã
9
os primeiras frutos da terra trarás à casa do Senhor teu Deus.
10
não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.


Êxodo 34:27,28
Disse mais o Senhor a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme o teor destas palavras tenho feito pacto contigo e com Israel. E Moisés esteve ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem bebeu água, e escreveu nas tábuas as palavras do pacto, os dez mandamentos.

Conclusão:
Estas tábuas, que foram guardadas dentro da Arca da Aliança e dentro do Templo e reverenciadas pelos judeus durante séculos, não continham os famosos 10 Mandamentos do capítulo 20 mas os mandamentos do capítulo 34 de Êxodo.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

A Arca da Aliança e as hemorróidas




Yahveh exigiu de Moisés a construção de um artefacto que viria a ser chamado de Arca da Aliança (ou do Pacto) que seria o objecto que representaria a presença de Deus. O objecto é descrito como um baú luxuosamente adornado com ouro e arte (Êxodo 25:10-22).

No tempo de Moisés ainda não havia um templo para o culto religioso mas, possuindo o mesmo efeito, havia uma tenda onde era guardada esta Arca da Aliança. Esta seria tão sagrada que uma pessoa morreria só de olhar directamente para ela, por isso tinha de estar no lugar mais reservado desta tenda, o local chamado “Santíssimo”.

As histórias dos poderes da Arca não são muito convincentes, porque foi roubada pelos filisteus, os quais tomaram posse dela durante uns tempos (1 Samuel 5:1–6:12). Como punição, entre outras coisas, os filisteus tiveram uma epidemia de hemorróidas (uma alimentação pobre em fibras faria o mesmo...).

O Antigo Testamento não fala do destino final deste objecto que, por ser tão sagrado, deveria ter uma duração eterna. Sempre se especulou onde poderia encontrar-se este objecto. Um filme engraçado com um argumento à volta deste tema é Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida, realizado por Steven Spielberg.


Os querubins na Arca da Aliança

O texto de Êxodo refere que a Arca era adornada com imagens de querubins. Os querubins seriam uns seres alados que habitavam o mundo dos Deuses.
Resumo da descrição da Arca da aliança segundo Êxodo 25:10-22 
Construida em madeira de acácia com um metro e dez centímetros de comprimento, setenta centímetros de largura e setenta centímetros de altura. Revestida a ouro por dentro e por fora, com remates no seu perímetro. Quatro argolas de ouro nos seus quatro pés. Duas varas de madeira de acácia atravessavam as argolas laterais da arca, para poder ser carregada. Dentro da arca estariam as tábuas da aliança. 
Coberta com uma tampa de ouro com um metro e dez centímetros de comprimento por setenta centímetros de largura, com dois querubins de ouro nas extremidades da tampa, formando uma só peça. Os querubins, de frente um para o outro, com o rosto voltado para baixo, teriam as suas asas estendidas para cima, cobrindo com elas a tampa. 

Na arte ocidental, os querubins são representados como tendo uma forma humana alada, da mesma forma com que se representam anjos.

No entanto, na cultura assíria os querubins eram representados como quadrúpedes alados com rosto humano e com alguns pares de cornos (quanto maior o número de cornos maior o nível hierárquico no mundo dos Deuses).



Moisés, os mandamentos e a idolatria



As tabuinhas e o bezerro de ouro

Moisés subiu ao monte Sinai para receber instruções de Yahveh e lá ficou durante quarenta dias e noites (Êxodo, capítulos 24 a 31). Entretanto, o povo quando se viu sem a liderança de Moisés insistiu com Arão, o irmão de Moisés, para que fizesse um ídolo de ouro de modo a terem um deus para adorar. Arão pediu ao povo para recolher brincos e outros adornos de ouro de modo a poder fabricar um ídolo com a forma de um bezerro. Quando o bezerro de ouro ficou pronto fizeram uma grande festa gritando “Eis aqui, ó Israel, o teu deus, que te tirou da terra do Egipto” (Êxodo 32:1-4).

Em cima do monte, o encolerizado Yahveh informou Moisés do que se estava passar e acrescentou que iria imediatamente exterminar os israelitas. Depois de Moisés explicar-lhe o embaraço que seria se os egípcios viessem a saber que Yahveh tinha ido ao Egipto resgatar os israelitas para depois os matar no meio do deserto, Deus “arrependeu-se do mal que dissera que havia de fazer ao seu povo” (Êxodo 32:14)!

Parece que Deus falou sem reflectir e depois arrependeu-se rapidamente.

Quando Moisés retornou do monte atirou, furiosamente, para o chão as tábuas que Deus tinha escrito com o seu próprio dedo, destruindo-as! A seguir mandou chacinar todos os que tinham fomentado aquela idolatria, excepto, claro está, o seu irmão Arão.

Iremos analisar, mais adiante, um episódio que decorreu com o rei Jeroboão I de Israel (1 Reis 12:27-30) que contém detalhes absolutamente semelhantes a esta história.


Os verdadeiros 10 MANDAMENTOS

Os famosos 10 Mandamentos resultam de uma leitura errada do livro Êxodo.
VEJAMOS:
É habitual retratar-se Moises a descer o monte com os famosos 10 mandamentos gravados em duas tábuas.
No entanto, os 10 Mandamentos foram apenas falados nos discursos de Deus, e nunca foram escritos em tábuas de pedra!

Êxodo, capítulos 20 a 31
Moisés sobe à montanha e Deus discursa longamente...
Deus começa por indicar os famosos 10 mandamentos mas, no mesmo discurso, continua com instruções ridículas:
- sobre o tipo de oferendas que Deus deseja receber,
- como Deus quer a sua cortina do templo,
- como deve ser feito o avental (éfode) do sumo-sacerdote,
- etc, etc...

Êxodo, capítulos 31:
Só na última frase de Êxodo 31 é que está escrito que Deus deu a Moisés duas tábuas de pedra escritas pelo seu dedo, MAS NÃO HÁ INDICAÇÃO SOBRE O QUE LÁ ESTAVA ESCRITO, e ordena que ele desça da montanha, rapidamente, porque o povo hebreu estava a fazer uma coisa terrível!...

Êxodo, capítulos 32 e 33:
Quando Moisés desce do monte, com umas tábuas de pedra, encontra os hebreus a adorar um bezerro de ouro. MOISÉS DESTRÓI AS TÁBUAS num acesso de raiva e é forçado a subir de novo até à montanha para escrever novas tábuas.

Êxodo, capítulo 34:
Este segundo par de tábuas contém o único conjunto de leis que foram gravados em pedra pelo dedo de Deus, e que são chamados de "10 Mandamentos" na Bíblia.
Reparem, AS PRIMEIRAS TABUAS FORAM DESTRUIDAS por Moisés.
O novo conjunto de tábuas foi o conjunto que ficou guardado dentro da Arca da Aliança e dentro do Templo e adorado pelos judeus durante séculos...
Neste capítulo 34 estão os ÚNICOS 10 MANDAMENTOS e a única coisa alguma vez escrita pela mão de Deus! 

OS VERDADEIROS 10 MANDAMENTOS ditados por Deus:
 1. Derrotar os amorreus, os cananeus, os heteus, etc, etc!!!
 2. Não adorarás a nenhum outro deus;
 3. Não farás para ti deuses de fundição.
 4. A festa dos pães ázimos guardarás;
 5. Tudo o que abre a madre (primogénitos) é meu
 6. Seis dias trabalharás, mas ao sétimo dia descansarás;
 7. Guardarás a festa das semanas;
 8. Não sacrificarás o sangue do meu sacrifício com pão levedado, nem o sacrifício da festa da páscoa ficará da noite para a manhã.
 9. Os primeiras frutos da terra trarás à casa do Senhor teu Deus.
10. Não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.

Final do Êxodo 34:
Disse mais o Senhor a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme o teor destas palavras tenho feito pacto contigo e com Israel. E Moisés esteve ali com o Senhor quarenta dias e quarenta noites; não comeu pão, nem bebeu água, e escreveu nas tábuas as palavras do pacto, os dez mandamentos.
Portanto: nada de comer cabrito cozido em leite de cabra!

A serpente de cobre

O incidente do bezerro de ouro, protagonizado pelo irmão de Moisés, foi considerado idolatria apenas por não ter sido autorizado por Yahveh. Deus, noutra ocasião, ordenou a Moisés para criar um ídolo em forma de serpente:
Números 21:6-9 Então o Senhor mandou entre o povo serpentes ardentes, que picaram o povo; e morreu muita gente em Israel. Por isso o povo veio a Moisés, e disse: Havemos pecado porquanto temos falado contra o Senhor e contra ti; ora ao Senhor que tire de nós estas serpentes. Então Moisés orou pelo povo. E disse o Senhor a Moisés: Faze-te uma serpente ardente, e pöe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que, tendo sido picado, olhar para ela. E Moisés fez uma serpente de metal, e pó-la sobre uma haste; e sucedia que, picando alguma serpente a alguém, quando esse olhava para a serpente de metal, vivia.

Este ídolo servia de antídoto contra o veneno das serpentes que o próprio Yahveh enviou para morder os israelitas. Seria uma forma de idolatria autorizada por Deus.

Séculos depois, esta serpente ainda existia como ídolo dos israelitas. O rei Ezequias (cerca de 715 a 687 AEC) não achou boa ideia continuar com esta idolatria e destruiu este artefacto:
2 Reis 18:4 Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou
abaixo os bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que Moisés fizera;
porquanto até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso, e lhe
chamaram Neustã.
Resumindo a sequência de eventos:
- primeiro, Moisés, por ordem de Yahveh, reprimiu violentamente uma manifestação de idolatria promovida pelo seu irmão, Arão;
- depois, Moisés, novamente por ordem de Yahveh, construiu um ídolo de cobre em forma de serpente para que o povo israelita sobrevivesse a um mal infligido por este mesmo Deus;
- durante séculos, convencidos de estarem a obedecer a Deus, os israelitas continuaram a idolatrar a serpente;
- finalmente, o rei Ezequias destruiu a serpente de cobre, porque achava que a idolatria não era uma boa prática!


Moisés, o Libertador





A revelação de Yahveh

Um dos pontos mais importantes na história de Moisés é aquele que marca o início da adoração de Yahveh por parte dos hebreus. Este Deus encontrou-se com Moisés num arbusto em permanente ignição, e revelou-lhe o seu nome: “EU SOU” (heb. Yahveh, Êxodo 3:14). Uma contradição que ocorre nesta revelação é que Deus explicou a Moisés que os antepassados já o conheciam pelo nome de El Shaddai (Deus Poderoso, em heb.) mas não pelo nome de Yahveh (Êxodo 6:3) o que contradiz o que estava escrito em Génesis, onde podemos ler que Abraão, muitos séculos antes, deu nome a uma terra em honra a Yahveh: “... chamou Abraão àquele lugar Jeová-Jiré” (Génesis 22:14).

Um episódio desconcertante durante este período de revelação, é que Yahveh tentou matar Moisés (tentou... mas não conseguiu!), aparentemente porque este não tinha circuncidado o seu filho no tempo devido. Se não fosse a rápida intervenção de Zípora, a mulher de Moisés, que apressou-se a circuncidar o filho com uma pedra afiada, Moisés teria tido uma história bem mais curta (Êxodo 4:24-26)...

O nome Yahveh

No que se refere a este nome de Deus, Yahveh, os escribas e copistas judeus consideraram-no tão sagrado que não deveriam ousar escrever o nome. Em vez de Yahveh, escreviam Adonai (Senhor). Isto levou a  frases confusas, tal como o seguinte e muito popular salmo:
Salmos 110:1 Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés.
 
A frase deveria, portanto, ter sido traduzida assim: “Disse Yahveh ao meu Senhor...”.

Em português, é comum utilizar-se as designações Jeová ou Javé, mas vamos continuar a utilizar a designação Yahveh, que é das que mais se aproximam da transliteração do tetragrammaton, a grafia hebraica (aqui em caracteres modernos) deste nome divino. Estas quatro letras em hebraico, lidas da direita para a esquerda, são as seguintes: yod-he-vau-he.




A libertação dos hebreus

Na sua revelação, Yahveh desafiou Moisés a ir ao Egipto resgatar os hebreus escravizados. Moisés partiu para o Egipto com plenos poderes de Yahveh para demonstrar ao Faraó, com o propósito de convencê-lo a libertar os escravos hebreus (Êxodo 4:16; 7:1; Yahveh promove Moisés dando-lhe o título de “Deus”). As primeiras demonstrações não impressionam muito o Faraó que até consegue mostrar a Moisés que os seus mágicos conseguem igualar aquelas habilidades. Só após mais dez demonstrações, as famosas dez pragas do Egipto, é que o Faraó consentiu em libertar o povo (Êxodo, capítulos 7 a 12).

A última praga consistiu na matança do primogénito (o filho mais velho) de cada casa e daqui origina-se a tradição da Páscoa dos judeus. Nesta praga, Yahveh só pouparia os primogénitos de quem tivesse a porta de casa pintada com o sangue de um cordeiro que, previamente, teriam comido ao jantar. Na suas instruções, Yahveh detalhou pormenorizadamente como é que o cordeiro devia ser preparado e cozinhado e qual o acompanhamento: pães não fermentados. Esta é a origem tradicional da festa dos Pães Não Fermentados (ou pães ázimos), que se celebrava durante a semana a seguir ao dia de Páscoa.

Os hebreus, então, foram libertos do Egipto e atravessaram o Mar Vermelho (a referência a este mar, em hebraico, confunde-se com “mar de juncos”) para poderem estabelecer-se na terra de Canaã. Mas... ficaram muitos anos a viver em acampamentos sem terra para assentarem!

Toda esta história, pode ter sido compilada a partir de lendas de modo a criar uma história maravilhosa – o épico dos hebreus. Como hipótese, para a reconstrução da sua história verdadeira, podemos supor que os hebreus seriam um conjunto de povos (doze tribos, ou mais) que viviam em tendas, desde os tempos antigos, em redor do rio Jordão. Durante uma parte da sua história primitiva sofreram influências dos egípcios, quando estes alargaram o seu domínio até Canaã. Uma das consequências das expansões territoriais dos egípcios foi, logicamente, a submissão dos hebreus. Mas, com o enfraquecimento do Império Egípcio, os hebreus obtiveram a sua independência em dois reinos: Israel e Judá.

A investigação histórica mostra que o território de Canaã, foi quase ininterruptamente administrado pelo Egipto entre os séculos XV e XII AEC (desde a 18ª até à 20ª dinastia do Império). Por outro lado, a cronologia tradicional coloca os episódios da vida de Moisés dentro deste período histórico. Assim, o episódio sobre a fuga dos hebreus do Egipto para Canaã (uma província do Império Egípcio) mostra-se deveras absurdo.


Moisés - o plágio de Sargão da Acádia



O nascimento

A história do nascimento de Moisés tem detalhes semelhantes aos encontrados para Sargão da Acádia. Vejamos o que se encontrou escrito sobre Sargão:
Inscrição encontrada em Ninive (Biblioteca de Assurbanipal)
Sargão, o poderoso rei, rei da Acádia, eu sou. [...] Minha mãe, a alta sacerdotisa, concebeu-me, e deu-me à luz em segredo. Ela colocou-me em um cesto de juncos, e selou a tampa com betume. Ela colocou-me no rio que não me submergiu. O rio levou-me a Akki, o tirador de água. Akki, o tirador de água, ergueu-me ao mergulhar seu balde. Akki, o tirador de água, tomou-me como seu filho e criou-me. Akki, o tirador de água, colocou-me como seu jardineiro. Enquanto eu era um jardineiro, Istar concedeu-me seu amor. E durante quatro e (...) anos eu exerci a realeza. [...]

Resumidamente e segundo o livro do Êxodo, a vida de Moisés inicia-se no ambiente de escravatura a que os hebreus estavam submetidos no Egipto. Antes do seu nascimento, o Faraó, assustado com o crescimento populacional dos escravos hebreus, decretou, como medida de controlo demográfico, a morte de todos os recem-nascidos. A mãe de Moisés, para poupar o filho ao infanticídio, esconde-o numa cesta e coloca-a no rio. Essa cesta é encontrada pela filha do Faraó que adopta Moisés como seu filho. Muito mais tarde, em adulto, Moisés fica revoltado com a forma como os hebreus são tratados e, depois de matar um capataz egípcio, fugiu para longe, para uma terra chamada Midiã.

Referência sobre Sargão: http://www.ancient.eu/Sargon_of_Akkad/

domingo, 5 de abril de 2009

Século XIII AEC - Canaã - Ugarit - O Épico de Baal






A antiga cidade de Ugarit (Ras-Shamra) foi escavada a partir de 1928, tendo, então, dado a conhecer toda uma literatura e cultura dos séculos XIII e XII AEC.

As escavações descobriram um palácio real de 90 quartos distribuído ao longo de oito pátios fechados, muitas moradias privadas, duas bibliotecas que continham textos diplomáticos, legais, económicos, administrativos, académicos, literários e religiosos. No topo da colina da cidade foram encontrados dois templos principais: um dedicado a Baal, o "rei", filho de El, e um a Dagon, o deus da fertilidade e do trigo.

Foram encontrados diversos depósitos de tabuletas de argila em escrita cuneiforme, constituindo uma biblioteca do palácio, uma outra biblioteca de um templo e duas bibliotecas privadas; todas datando da última fase de Ugarit, cerca de 1200 AEC.

A obra de literatura mais importante descoberta em Ugarit é o Ciclo de Baal, que descreve a base da religião e do culto do Baal canaanita.

O épico de Baal é, possivelmente, um mito agrário, fundamento de um ritual de fertilidade. Baal é a personificação da chuva, da qual a terra necessita para produzir fruto; Mot é o grão, inchado pela água; quando os aguaceiros passaram, Baal morre, deu sua substância ao grão que amadurece. Mas no momento em que o trono de Baal permanece vazio, no rigor do verão, Anat e a deusa solar recolhem piedosamente os restos do deus, preparam a reconstituição das nuvens.


El, o Rei dos Deuses 
O Deus El é o Rei e o Pai de muitos Deuses. É um deus barbudo e de cabelos brancos que vive no Monte Lel. Gosta de se fartar em bebidas, e fica bêbado facilmente nos seus banquetes. É obcecado pela justiça mas, por outro lado, os assuntos divinos cansam-no.
 El, quando jovem, atravessou o mar até chegar a um local onde encontrou Asherah, a Senhora do Mar, e uma amiga desta, Rohmaya. Assou um pássaro e pediu-lhes se queriam tornar-se suas esposas ou filhas. Encantadas, preferem ser suas esposas. Fruto do relacionamento com estas duas deusas nascem Shachar e Shalim (“Alvorada” e “Crepúsculo”). El e a sua família construíram um santuário no deserto, e lá ficaram por oito anos.
 Muitas vezes Asherah transformava-se em novilha e El, transformava-se em touro para se juntar a ela. Tiveram um filho que era adorado na forma de bezerro de ouro. El e Asherah tiveram setenta filhos, todos Deuses graciosos.
 El, agora, aparece envergando um elmo com pontas de touro e tem uma longa barba e cabelos brancos. Mora na Nascente dos Dois Rios, sobre a Montanha Lel (“Noite”). El está cansado e pensa na sua sucessão.
 Dagon é o irmão de El. Entre os seus filhos contam-se o poderoso Baal e a virgem Anat, ambos protectores do ciclo da vida e da fertilidade.

Yam é nomeado Rei 
O filho herdeiro de El era Yam-Nahar (“Mar-Rio”), mas não era filho de Asherah. El nomeou Yam para ser Rei dos Deuses. 
Baal quer ser Rei 
O poderoso Baal, filho de Dagon, queria ser Rei dos Deuses. Confrontou-se com o príncipe Yam-Nahar, filho do Altíssimo El. Não conseguiu o que pretendia porque El, por amor ao seu filho, decidiu a favor de Yam. 
A tirania de Yam 
O príncipe Yam, Deus do Mar e Juiz Rio (Nahar), iria, então, tornar-se Rei dos Deuses. Decidiu que lhe seria construído um majestoso trono. Governou com punho de ferro e obrigou os Deuses a prestarem-lhe pesado tributo. Baal recusou-se a pagar tributo.
 Os Deuses eram obrigados a trabalhar pesadamente até que foram pedir à sua mãe, Asherah, Senhora do Mar, para que intercedesse por eles. Reclamavam que Yam era muito irresponsável para ser Rei. 
Asherah intercede pelos seus filhos 
Asherah pediu a Yam que libertasse os seus filhos do seu jugo, mas Yam recusou. Ofereceu-lhe favores, mas Yam não cedeu. Por fim ofereceu-se a si própria, o seu corpo, ao Deus do Mar, proposta que Yam aceitou. 
Assembleia dos Deuses 
Asherah retornou à corte de El, na Nascente dos Dois Rios, e reuniu o Concílio dos Deuses para apresentar o seu plano para apaziguar Yam. Baal, furioso e revoltado com este plano, disse que não consentiria em tal aviltamento da Grande Deusa do Mar.
 Yam, ao conhecer a opinião de Baal sobre o assunto, enviou dois emissários à corte do Touro El, seu pai, para exigir a prisão de Baal e dos seus apoiantes, com a ordem adicional de confiscar o seu ouro, porque Baal ainda não tinha pago o tributo. Disse:
 - Vão, rapazes! Não fiquem sentados! Vão depressa à Assembleia dos Deuses no meio da Montanha da Noite. Não caiam aos pés de El nem se curvem perante a Assembleia e declarem a minha mensagem.
 Com a aproximação dos emissários de Yam à Montanha da Noite, os Deuses ficam apavorados, e, submetem-se, deitando a cabeça sobre os joelhos. Baal repreende-lhes a cobardia:
 - Porquê baixam a cabeça, ó Deuses, perante os tronos de El e Asherah, os vossos verdadeiros Amos? Eu próprio responderei aos mensageiros do Juiz Nahar!"
 Os emissários saúdam El, mas não se prostram nem se ajoelham, e anunciam as intenções de Yam:
 - Estas são as palavras de Yam, Nosso Senhor, Nosso Amo, o Juiz Rio: «Entreguem aquele que protegem. Entreguem Baal, o filho de Dagon, e os seus partidários para que eu possa receber o seu ouro».
  O Touro El declara-se pronto para lhes entregar Baal:
 - Baal é o teu escravo, ó Yam! O filho de Dagon é o teu prisioneiro. E levar-te-á o tributo, o teu presente, como os outros Deuses.
 Baal, furioso, tenta matar os emissários e só não consegue porque é impedido por Anat e Astarte, que lhe seguram as mãos. Elas dizem-lhe: “Como podes destruir os mensageiros de Yam? Os emissários do Juiz Rio apenas trouxeram as palavras de seu Senhor e Amo!”. Baal, enfurecido, manda-os de volta para Yam com a mensagem de que não se vergará e que irá destruir o tirano. 
A derrota de Yam 
Kothar, o Hábil (u-Khasis), vaticina que Baal vai vencer, tomar o seu Reino e obter Soberania Eterna. Kothar fabrica duas armas mágicas para Baal: as mocas “Yagrush” e “Aymur” (“Expulsa” e “Afasta”) que, nas mãos de Baal, voam como águias. Com elas, Baal desfere vários golpes e finalmente esmaga a cabeça do seu inimigo.
 Astarte repreende Baal: “Vergonha, ó Baal, Cavaleiro das Nuvens, por teres morto o príncipe Yam, o Juiz Rio, pois ele era nosso prisioneiro.” E lá foi Baal envergonhado, mas, já que o príncipe estava morto, que o deixassem reinar!
 Mas os Deuses não morrem para sempre, e muito menos o príncipe dos Deuses. Astarte deu a sugestão para Baal deixar uma cicatriz em Yam para que se lembrasse daquele dia, o que foi feito.
 Baal também enfrentou Leviatan, a serpente tortuosa, a besta de sete cabeças. A batalha provocou agitação e tempestades horríveis no mar, ao longo do inverno; e seguida de uma calmaria na primavera, e muita chuva no verão, até o seu término. 
O Massacre dos Guerreiros 
A irmã de Baal, a virgem guerreira Anat, combate e massacra os guerreiros, apoiantes de Yam, mergulhando os joelhos no sangue e empilhando as cabeças.

Terminado o morticínio, Anat recebe uma mensagem de Baal ordenando-lhe que volte a trabalhos mais pacíficos (a virgem guerreira é, também, deusa da vida e da fertilidade). Esta admira-se: não foi ela quem exterminou todos os inimigos do irmão!? Não, não abateu o Príncipe do Mar, o dragão Tanin nem Leviatan, lembrou-lhe Baal.

O Palácio de Baal 
Baal foi finalmente declarado Rei dos Deuses, e era também Senhor da Montanha de Saphon e Deus dos Relâmpagos. No entanto, ele ainda morava no palácio de El e Asherah, e queria construir seu próprio na sua montanha. Mas só El poderia dar permissão para a construção de um palácio.
 A seguir, Baal pede à sua irmã que interceda em seu favor. Esta diz a El: "O poderoso Baal é nosso rei, nosso juiz, não há ninguém acima dele, e, contudo, não tem casa como os demais deuses, não tem corte como os filhos de Asherah". El recusa o pedido.
 Dirigiu-se a Kothar-u-Khasis e disse: “Todos os deuses têm uma morada e eu não. Vai, implora a Asherah”.
 Kothar acende as fornalhas e começa a fabricar presentes de ouro e prata para Asherah: uma coroa, um trono, sapatos, uma mesa, uma taça... Asherah não parece muito impressionada: chega a afirmar, em tom de brincadeira, que Baal deveria ser seu escravo no Palácio de El.
 A seguir chega Anat. Asherah diz:
 - Porque vens suplicar a Asherah, Senhora do Mar? Já divertiste a Criadora dos Deuses? Já entreteste o Touro El, o Criador dos Deuses?
 - Nós suplicamos a Asherah. Vamos entreter-te ó Criadora. Os Deuses, teus filhos, comerão e beberão.
 Asherah vira-se para o seu servo, Qadish-u-Amrar, e diz:
 - Põe a sela num burro, põe um arnês de prata e arreios de ouro.
 Qadish-u-Amrar obedece e coloca a sua Senhora no burro. E à sua frente vai Anat. Entram na mansão de El. Asherah prostra-se aos seus pés. Diz El, sorridente:
 - Porque veio a Senhora Asherah dos Mares? Tens fome? Come um pedaço! Tens sede? Bebe! Come ou bebe! Bebo o vinho num copo de ouro e come o pão da mesa. Ou será a afeição por El que te move?
Asherah responde:
 - Tuas palavras são sábias ó El! És sábio até à eternidade! O nosso Rei é Baal. Ambas bebemos por ele. Olha, Baal não tem casa como os Deuses!
El replica:
 - Sou eu porventura teu lacaio? Sou algum trolha para construir algo? Se uma tua serva fizer os tijolos, será feita uma casa para Baal, sim, como as dos Deuses.
 - Tu és grande, ó El! Verdadeiramente sábio. Tua barba branca instruiu-te muito bem! - Asherah entrega um presente a El e continua - Olha, aqui tens peitorais de ouro para a tua armadura! Agora Baal trará a chuva, pois Baal é que sabe as estações e dará a sua voz pelas nuvens. Ele trará relâmpagos para a terra. Deixemo-lo escolher: uma casa de madeira de cedro ou de tijolos. Deixemos que as montanhas lhe dêem prata, as encostas o melhor ouro, as minas lhe dêem pedras preciosas, para que faça uma casa de ouro, prata e lapis-lazuli.
 A Virgem Anat regozija-se e salta para o céu e visita o Senhor das Montanhas Saphon:
 - Trago-te notícias: vai ser construída uma casa para ti e para teus irmãos. Uma casa de ouro, prata e lapis-lazuli.
 Baal fica muito feliz e invoca Kothar-u-Khasis. Quando este chega, senta-o à sua direita e sacrifica um boi. Quando ambos já comeram e beberam, Baal diz-lhe:
- Rápido, vamos construir uma casa.
 Mas Kothar fez-lhe saber as suas condições:
 - Entende-me, ó Baal, Cavaleiro das Nuvens, eu certamente colocarei uma janela, uma abertura no teu palácio.
 - Nem pensar! Yam poderia entrar e raptar as minhas meninas: Pidray, menina da Luz, e Tallay, menina da Chuva – vocifera Baal.
 - Pronto, mas vais mudar de opinião – sossegou Kothar.
 Ao fim de sete dias, Kothar, apresenta a Baal um esplêndido palácio com cedro, tijolos de ouro e prata. Lá dentro colocou sumptuosas mobílias.
 Baal regozija-se e manda preparar um grande festim com bois e carneiros. Chamou os seus irmãos e os setenta filhos de Asherah. Estes comeram e beberam até fartar.
Anat, no fim da festa, ainda encontrou mais dois possíveis inimigos, vagueando pelas proximidades, e matou-os.
 Finalmente Baal, o poderoso Hadad, tomou posse de noventa cidades na terra. Baal entrou em casa como Senhor do Mundo e ordenou a Kothar:
 - Que se instale uma abertura no palácio e que as nuvens abram-se com a chuva pela abertura.
 Kothar-u-Khasis ri-se:
 - Não te disse, ó Baal, que irias mudar de opinião?
 Foi feita a abertura no palácio mas esta tinha de ser protegida com chuva e relâmpagos, por isso, Baal abriu as nuvens com chuva e fez também ouvir-se a sua Santa Voz nos céus sob a forma de trovões. 
As batalhas contra Mot 
Imediatamente os inimigos de Baal invadiram as florestas e as franjas das montanhas. Baal pergunta:
 - Inimigos de Hadad, porque invadem?
 Mot, Deus da Morte, comanda as tropas e diz:
 - Eu e só eu comandarei sobre Deuses e homens.
 Baal, triste, retorna a casa e reúne-se com os seus rapazes:
 - Olhem, Gupan e Ugar, filhos de Galmat, mensageiros nobres e distintos! Vão até às montanhas Tergez e Shermeg e levantem-nas com as vossas mãos e cheguem até às entranhas da terra. Lá encontrarão a cidade de Mirya onde ficam o trono de Mot e os seus guardas. Não se aproximem de Mot pois ele vos devoraria como a um cordeiro, mas prestem-lhe respeito e declarem-lhe que Baal não lhe pagará tributo nunca. Assim vocês serão contados entre aqueles que desceram às entranhas da terra.
 Os rapazes assim entregaram a mensagem a Mot. Mot ficou furioso e disse:
 - Vou devorar Baal porque ele destruiu a serpente Leviatan!
 Mot intima Baal a descer para a sua goela, ávido para o devorar. Ele estende os seus lábios até os céus, e a sua língua até às estrelas.
 Baal deixa de oferecer resistência e declara-se escravo de Mot:
 - Baal vai ser entregue a ti e a fertilidade da terra morrerá com ele.
 O Deus da Morte, felicíssimo, diz:
 - Vou pôr-te na sepultura dos Deuses da terra e tu: leva as tuas nuvens, o teu vento, as tuas tempestades, a tua chuva; leva os teus sete rapazes e os teus oito porcos; leva Pidray, menina da Luz, e Tallay, menina da Chuva. Dirige-te à montanha Kenkeny, levanta-a e vai até às entranhas da terra para que todos saibam que morreste.
 Baal aceita o seu destino. Toma uma última refeição e vai até Deber onde encontra-se com uma novilha e tem relações com ela setenta e sete vezes sim, oitenta e oito vezes, e ela concebe um filho: Math, o gémeo... O poderoso Baal vestiu-o com o seu robe [ ... ]... 
Anunciam a El a morte de Baal, "O Príncipe da Terra", e o pai dos deuses veste luto; Anat chora e fere-se a ela própria, na cara e no peito, com punhaladas. Entretanto Asherah procura fazer com que Astarte ocupe o trono de Baal, mas não tem êxito. Anat parte em busca do irmão, acompanhada da deusa solar Shapash, que conhece todos os recantos do universo; encontram Mot: "ela o ceifa, o joeira, o gradeia, dispersa suas carnes pelos campos e as aves as devoram". El, graças a um sonho premonitório, sabe que Baal vai ressuscitar; vê, antecipadamente, "os céus gotejarem óleo, os regatos correrem como mar'. Ordena a Anat e a Shapash que encontrem Baal; as deusas levam o deus morto para as alturas dos montes Saphon onde ele recomeçará o seu reinado glorioso.

Ele teve batalhas terríveis com Mot, e inclusive foi morto (alguns dizem que foi um clone seu, e não Baal de verdade), ficando sete anos no mundo dos mortos.
 Quando El ouviu que Baal havia morrido, ele desceu de seu trono. Ajudou correctamente a julgar a proposta de Astarte assumir o lugar de Baal. Sete anos depois, ele sonhou que Baal estava vivo, em algum lugar, e retornava, para uma vez mais fazer sua justiça.
 Depois da morte de Baal, ela procurou por ele, e achando seu corpo, o carregou até o Monte Saphon, onde o queimou, e fez uma oferenda ao deus-morto. Após sete anos de procura, ela encontrou Mot, e o espancou até não poder mais.

BAAL E MOT
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Mot — Deus da Morte 
Aproveitou-se do fim da batalha entre Baal e Yam, em que El não estava satisfeito por Baal não ter agradecido pelo apoio à sua vitória, para assim convencer Baal a ser engolido por ele - sendo assim morto, para que pudesse chegar ao mundo dos mortos, somente para visitá-lo. Ficou surpreso, mas feliz, quando soube que Baal aceitou visitar seu reino, e então engoliu Baal - ou o clone do mesmo. Era tudo uma armadilha para matá-lo, traindo a confiança de Baal.
 Por sete anos, Baal foi considerado morto. Até que Mot foi encontrado por Anath, e foi espancado. Baal, então preso no mundo dos mortos, pode retornar e vencer todos aliados de Mot. Após sete anos, foi a vez de Mot retornar, e derrotar boa parte dos irmãos de Baal. Ambos travaram uma batalha intensa, que somente foi separada por Camoesh, alegando esta que Baal devia um favor à El, e que então poderia pagá-lo encerrando o combate.


Referências: 
http://en.wikipedia.org/wiki/Baal_Cycle 
http://web.archive.org/web/20080115123739/http://www.geocities.com/SoHo/Lofts/2938/mythobaal.htm 

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