domingo, 29 de março de 2009

José, Principe do Egipto




Entre as histórias interessantes de Génesis está a saga de José, filho de Israel e irmão de Judá, que foi para o Egipto como escravo e acabou como príncipe do Egipto, com poderes imediatamente abaixo do Faraó.

A sua saga, um grande marco na epopeia dos hebreus, começa quando os seus dez irmãos (Benjamim, o mais novo ainda não tinha nascido) apercebem-se que ele é o preferido de Jacob e, por inveja, vendem-no a mercadores de escravos.
Resumo de Génesis 37 a 45 (excepto capítulo 38)
José era o filho mais novo e preferido de Jacob. O seu pai gostava tanto dele que lhe ofereceu um casaco muito vistoso ao ponto de despertar o ciúme dos seus 10 irmãos. Para piorar a inveja dos irmãos, José contou que tinha sonhos onde estes se curvavam diante dele. 
Certo dia, quando os irmãos de José pastoreavam as ovelhas, Jacob pediu a José que fosse ter com eles. Quando os irmãos de José o viram chegar, alguns deles queriam matá-o, mas Rubem, o mais velho, impediu-os. Depois de pensarem o que fazer com ele, Judá propôs venderem José por 20 moedas de prata a mercadores de escravos. 
Antes de irem para casa, mataram um cabrito e mergulharam o casaco de José no sangue para fazer crer a Jacob que José tinha sido morto por um animal selvagem. 
José, por seu lado, foi vendido a Potifar, oficial da corte do Faraó do Egipto. Depois de algum tempo, Potifar, satisfeito com o trabalho de José, promove-o a responsável-geral de toda a casa. 
Sendo José um jovem atraente, a mulher de Potifar assediava-o constantemente mas José rejeitava sempre as provocações dela. Um dia, a frustada mulher de Potifar agarrou-o pela roupa, para o obrigar a praticar sexo com ela, mas José fugiu e deixou-lhe a roupa na mão dela. Imediatamente ela começou a gritar, invocando que ele a queria violar. José foi, por isso, encarcerado na prisão. (Podemos encontrar um paralelo deste episódio no épico babilónico de Gilgamesh, onde a deusa Ishtar assedia sexualmente Gilgamesh e, irada com a rejeição, envia o Touro Celestial para tentar matá-lo.) 
Enquanto na prisão, José tornou-se conhecido pelo seu dom de ler sonhos e foi chamado pelo próprio Faraó para interpretar os seus sonhos. Com esta sua estranha habilidade, José conseguiu prevenir uma catástrofe económica no Egipto, aconselhando providências face a uma grande seca que se aproximava. 
Esta acção catapultou José, aos trinta anos de idade, para o segundo mais alto cargo do Egipto, como primeiro-ministro do Faraó. 
Durante o período de carência, todos os povos vizinhos foram pedir comida aos Egípcios, incluido os irmãos de José. Estes, que antes o tinham traído, acabaram por se curvar diante dele. 
Depois de fazer as pazes com os irmãos, acabou por convidar toda a família para ir viver com ele no Egipto. Todo o povo de Israel (e Israel era o próprio pai de José) foi viver para o Egipto. 
José, entretanto, tornou-se pai de dois filhos, Manassés e Efraim (nomes das duas tribos que viriam a tornar-se rivais da tribo de Judá).


É possível que esta lenda tenha surgido, em parte, pela necessidade de explicar como é que os israelitas foram parar ao Egipto (abrir caminho para a lenda de Moisés) e, por outro lado, dar prestígio às tribos de Manassés e Efraim em desfavor da tribo de Judá. Esta possibilidade assenta em dois pontos desta história:
-          Judá vende José como escravo por 20 moedas de prata; isto ilustra a traição da tribo de Judá (os judeus) contra as tribos de Manassés e Efraim.
-         José é retratado como o herói misericordioso que acaba por acolher todas as tribos de Israel.

Depois da morte de José, quando já reinava um novo Faraó, os israelitas são escravizados e, séculos depois, são resgatados por Moisés... mas esta parte já faz parte do livro de Êxodo.


Judá - a contracepção e a prostituição




Judá, o quarto filho de Israel, deu origem à tribo mais notória dos israelitas: os judeus. A sua história no livro de Génesis tem também detalhes curiosos, no capítulo 38.

Resumo de Génesis 38 
Judá teve três filhos: Er, Onã e Selá. 
Er, o filho mais velho de Judá, casou-se com uma mulher chamada Tamar, mas morreu (castigado por Deus porque era mau!) sem lhe deixar filhos. 
Judá, então, solicitou ao segundo filho, Onã, para se casar com Tamar de modo a dar-lhe filhos e que ela permanecesse na família. Onã ficou com Tamar, mas não quis dar-lhe filhos, por isso, cada vez que tinha relações com Tamar, derramava o seu sémen no solo (praticava aquilo a que hoje chamamos de coito interrompido; a palavra “onanismo” vem do nome de Onã mas, na linguagem de hoje, está mais relacionada com masturbação do que com coito interrompido). Deus castigou-o por tal “pecado”, matando-o. 
Judá ficou com apenas um filho, Selá, que ainda era muito novo para se casar, por isso ordenou que Tamar voltasse para a terra dela. 
Tamar, novamente sem família e sem herdeiros, resolveu disfarçar-se de prostituta, colocando-se no caminho de Judá, que seguia numa viagem. Judá não reconheceu Tamar e, como achou que esta era uma prostituta bem apetecível, fez negócio com ela: um cabrito em troca dos serviços sexuais. Mas, como Judá não dispunha de um cabrito para lhe dar imediatamente, Tamar exigiu-lhe como garantia o anel, entre outros objectos que Judá tinha. 
Passado algum tempo, Judá tentou, em vão, encontrar a prostituta desconhecida para lhe dar o cabrito e reaver o anel e os outros objectos. Meses mais tarde, corria a notícia que Tamar tornara-se prostituta e que estava grávida, por isso Judá mandou prendê-la para ser queimada. Mas Tamar defendeu-se dizendo que tinha ficado grávida pelo proprietário de um certo anel e outros objectos que mostrou e, por isso, Judá foi obrigado a reconhecer-lhe o direito de pertencer à família. 
Tamar, deu à luz os gémeos Peres e Zerá, sendo Peres considerado aquele que deu continuidade à família de Judá (sendo, portanto, antepassado do rei David e, segundo os evangelhos, de Jesus). 

Esta burlesca novela, do capítulo 38 de Génesis, foi estranhamente inserida no meio da saga de José, o irmão de Judá, que é contada nos capítulos 37 até ao 45, sendo interrompida por esta história de Judá e da sua nora Tamar. 

A explicação pode ser a seguinte: a tribo de Judá sempre rivalizou com as outras tribos israelitas, principalmente com as tribos de Manassés e Efraim, que têm origem lendária nos dois filhos de José. A história de José pode ter sido redigida por um escriba pertencente a uma destas tribos inimigas de Judá e que tenha inserido esta história para depreciar os judeus, indicando que estes tiveram origem numa relação entre sogro e nora, considerada abjecta na lei israelita e punível com a morte (Levítico 18:15; 20:12):

Levítico 18:15 Não descobrirás a nudez de tua nora; ela é mulher de teu filho; não descobrirás a sua nudez.
Levítico 20:12 Se um homem se deitar com a sua nora, ambos certamente serão mortos; cometeram uma depravação; o seu sangue será sobre eles.


Para concluir, fica por explicar, nesta história, porque é que o filho legítimo mais novo de Judá, Selá, não ficou como herdeiro e continuador da linhagem...


sexta-feira, 27 de março de 2009

A descendência de Jacob




Israel (nome de Jacob, após vencer uma luta com El) teve filhos de Leia, de Raquel e também de duas servas de suas mulheres. Os filhos de Israel eram, pela ordem de nascimento, Rubem, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulão, Dã, Naftali, Gade, Aser, José e Benjamim. Estes foram os patriarcas das tribos de Israel, mas os mais significativos eram:
-          Judá – origem lendária da tribo dos judeus, a qual se tornou a mais poderosa de Israel; esta tribo daria origem ao reino de Judá;
-       Levi – deu origem à tribo dos sacerdotes; esta tribo não possuiria território próprio, mas os sacerdotes levitas dominariam nas cidades, principalmente em Jerusalém;
-     José – depois de umas peripécias causadas pela rivalidade e oposição dos seus irmãos, acabou por ir para o Egipto abrindo a porta deste país aos israelitas; deu origem às tribos de Manassés e Efraim (nomes dos seus dois filhos) eternas rivais da tribo de Judá; estas duas tribos eram as principais que deram origem ao reino de Israel.


O filho Rubem e o tráfico de drogas

Rubem era o primogénito de Jacob e da sua primeira mulher, Leia. Esteve involuntáriamente envolvido num episódio de tráfico de sexo e drogas:
Génesis 30:14-16 Ora, saiu Rúben nos dias da ceifa do trigo e achou mandrágoras no campo, e as trouxe a Leia, sua mãe. Então disse Raquel a Leia: Dá-me, peço, das mandrágoras de teu filho. Ao que lhe respondeu Leia: É já pouco que me hajas tirado meu marido? queres tirar também as mandrágoras de meu filho? Prosseguiu Raquel: Por isso ele se deitará contigo esta noite pelas mandrágoras de teu filho. Quando, pois, Jacó veio à tarde do campo, saiu-lhe Leia ao encontro e disse: Hás de estar comigo, porque certamente te aluguei pelas mandrágoras de meu filho. E com ela deitou-se Jacó aquela noite.


O que se passou foi o seguinte: Raquel, irmã de Leia e mulher preferida de Jacob, soube que Rubem tinha encontrado mandrágoras (uma planta com propriedades alucinogénicas) no campo e fez negócio com a mãe deste: algumas mandrágoras em troca de uma noite de sexo com Jacob!


A filha Diná e a perfídia dos seus irmãos

O livro de Génesis só menciona uma filha de Jacob, cujo o nome era Diná, que protagonizou uma tragédia de contornos cruéis.

Resumo de Génesis 34
Diná tinha amigas e amigos cananeus e acabou por ir parar à cama de um jovem chamado Siquém. O rapaz acabou por se afeiçoar por Diná e, por isso, pediu ao seu pai, Hamor, um príncipe cananeu, para ir negociar o casamento com a família de Diná. 
Portanto, Hamor foi falar com Jacob para lhe pedir a filha para Siquém e lhe dizer que, em contrapartida, lhe abria as portas da sua cidade e que lá poderia fazer negócios e que os filhos de Jacob poderiam casar-se com mulheres do país. 
Entretanto, Jacob e os filhos souberam que Diná tinha sido “desonrada” por Siquém mas este disse-lhes: “peçam o preço e o dote que quiserem, mas deixem-me casar com ela”. Os filhos de Jacob responderam: “não podemos dar a nossa irmã a um homem que tem prepúcio, mas se se circuncidarem a vós e a todos os homens do país, assim já podemos fazer aliança; caso contrário vamos embora e levamos Diná connosco”. 
Hamor e Siquém aceitaram as condições, por isso foram até aos portões da cidade anunciar aos homens do país as condições da aliança com Israel, assegurando ao povo que se tratava de uma aliança justa, porque o clã de Israel era formado por homens pacíficos. 
Então Hamor, Siquém e todos os homens do seu povo foram circuncidados. Após três dias, quando os homens ainda sentiam as dores da circuncisão, Simeão e Levi, dois dos filhos de Jacob, foram à cidade armados de espadas e mataram todos os homens da cidade, incluindo Hamor e Siquém, em vingança pela desonra de Diná. Para além disso pilharam a cidade e levaram as mulheres como escravas. 
Face a este cenário, Jacob, desolado com o comportamento de Simeão e Levi, disse-lhes: “por vossa causa a nossa família vai ser perseguida pelos cananeus e os seus aliados”. Eles responderam-lhe simplesmente: “podíamos permitir que tratassem a nossa irmã como uma prostituta?”.


Com este episódio Simeão e Levi ficaram afastados de qualquer favor do seu pai. O filho mais velho, Rubem, ficaria também afastado por se ter deitado com uma das mulheres do seu pai (Génesis 35:22). Com os três filhos mais velhos de Jacob afastados da herança, o favoritismo iria caír sobre o quarto filho, Judá.


Jacob, também chamado Israel




Jacob, neto de Abraão, acabou por ter uma vida bastante agitada, pois teve doze filhos e uma filha de quatro mulheres diferentes. É considerado o patriarca das doze tribos de Israel.

Os casamentos

Jacob apaixonou-se por Raquel, filha de seu tio Labão, e logo combinou um preço para se poder casar com ela: sete anos de trabalho gratuito para o seu tio. Após os sete anos de trabalho, Jacob foi reclamar a mão de Raquel mas, na noite do seu casamento, o sogro enganou-o e deu-lhe Leia, a irmã feia de Raquel. Jacob devia estar com uma tal bebedeira que só notou a troca na manhã a seguir às núpcias (Génesis 29:9-25)!

Labão justificou-se com o argumento de que tinha primeiro de casar a filha mais velha, pois Leia era a mais velha, e logo combinou com Jacob mais sete anos de serviço gratuito para este poder finalmente casar-se com Raquel. Passado todo este tempo, Jacob dirigiu-se a Labão porque queria começar a ser pago com bens pelos seus serviços e então combinou que ficaria com todos os animais que tivessem o pêlo salpicado ou malhado. Jacob acabou por ter sucesso nesta proposta porque, recorrendo a uma eficaz (mas hoje desconhecida) técnica de engenharia genética, conseguia que os animais mais saudáveis fossem aqueles que tinham o pêlo salpicado ou malhado (Génesis 30:37-43).

A rixa com Deus

O ponto alto na vida de Jacob foi uma peleja com El, que lhe apareceu em forma de homem. Jacob resistiu-lhe durante toda a noite, mas Deus acabou por ganhar aplicando-lhe um golpe na dobra da perna (praticante de wrestling?...). Como ficou impressionado com a resistência de Jacob, Deus rebaptizou-o com o nome de Israel (heb. Yishra-El, “Deus luta”, Génesis 32:24-30).

Normalmente, este episódio é retratado como se esta rixa tivesse ocorrido entre Jacob e um anjo, porque na Bíblia existe uma série de afirmações sobre a absoluta invisibilidade de Deus. Mas no final deste episódio, Jacob confirma uma das maiores contradições da Bíblia, sobre se Deus pode ser visto ou não:
Génesis 32:30 Pelo que Jacó chamou ao lugar Peniel, dizendo: Porque tenho visto Deus face a face, e a minha vida foi preservada.


Podemos, de facto, ler noutras passagens da Bíblia que Deus não pode ser visto por ninguém:
Éxodo 33:20 E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum pode ver a minha face e viver. 
João 1:18 Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer. 
1 Timóteo 6:16 aquele que possui, ele só, a imortalidade, e habita em luz inacessível; a quem nenhum dos homens tem visto nem pode ver; ...

sábado, 14 de março de 2009

A descendência de Abraão




Segundo a lenda bíblica, Abraão tinha dois irmãos: Naor e Aram. Note-se que Aram é também o nome antigo da Síria. Provavelmente, Aram seria considerado o patriarca dos povos sírios, tal como Abraão é considerado patriarca dos hebreus e dos árabes.

Abraão e Sara tiveram um filho, Isaque, quando tinham cem e noventa anos de idade respectivamente.

Quando Isaque já era crescido, o Deus El desafiou Abraão a oferecer este seu filho em sacrifício. Abraão imediatamente dispôs-se a obedecer, sendo depois impedido quando estava quase no acto de esfaquear o seu próprio filho. Satisfeito com a obediência fanática de Abraão, o Deus El confirmou a promessa de lhe dar toda aquela terra de Canaã (Génesis 22).

Isaque casou-se com a sua prima Rebeca e tiveram dois filhos gémeos: Esaú e Jacob. Esau era o irmão másculo, dedicando-se à caça, enquanto Jacob era o “menino da mamã”, preferindo uma vida mais calma.

Esaú era o preferido do pai e, como também foi o primeiro a nascer, foi constituido como herdeiro. Mas Jacob, com a ajuda da mãe, enganou o seu irmão e o seu pai e conseguiu obter a herança.

Esaú afastou-se e passou a ser conhecido por Edom, o patriarca ou antepassado dos edomitas.

Muito mais tarde, no tempo dos romanos, os edomitas são designados idumeus, e foi da região da Iduméia que se originou a família dos Herodes que dominaram a Palestina por várias gerações e que são mencionados no Novo Testamento.


Lot e a turba de homossexuais



A história de Lot, sobrinho de Abraão, contém uns bons momentos de humor, se descontarmos as partes chocantes (Génesis 19).

Lot tornara-se um homem rico e estava a viver na cidade de Sodoma, uma cidade que estava condenada por Deus devido à grande quantidade de homossexuais que lá viviam. Ora, os dois anjos que, juntamente com Yahveh, visitaram Abraão dirigiram-se a Sodoma e foram recebidos por Lot. Rapidamente a casa de Lot ficou cercada por uma turba (a cidade inteira!) de homossexuais famintos de sexo, exigindo que Lot lhes trouxesse os anjos para fora. Em troca, para poupar os anjos ao apetite sexual dos seus vizinhos, Lot ofereceu as duas filhas virgens mas esse gesto de “generosidade” só fez enfurecer os sodomitas. Os anjos conseguem resolver a situação cegando todos os que se encontravam a sitiar a casa de Lot.

Depois de alguma hesitação e após insistência dos anjos, Lot foge com a mulher e as filhas para longe, enquanto Deus fazia descer fogo e enxofre do céu para aniquilar a cidade. A mulher de Lot acabou por ficar para trás lamentando tudo o que tinha deixado em Sodoma, e ficou transformada numa “coluna de sal”.

O mais chocante no desfecho desta história é que Lot foi viver para uma caverna com as duas filhas e estas acabam por engravidar do próprio pai. Tudo premeditado pelas filhas, que embriagaram o pai antes de executarem o acto (é um caso inédito em que duas filhas violam o pai!...). Parece que esta parte da história de Lot serviria para explicar a origem dos amonitas e moabitas, pois os filhos gerados incestuosamente pelas filhas de Lot chamavam-se Amon e Moabe. De facto, grande parte das histórias do Génesis têm o objectivo de descreverem a origem dos povos da região. E, como os amonitas e moabitas foram inimigos dos israelitas durante séculos, esta lenda, escrita por estes últimos, dá-lhes uma origem muito indigna.

terça-feira, 10 de março de 2009

A visita do triplo Yahveh





Depois de uma primeira revelação de Yahveh (Génesis, capítulo 12), e outra revelação de El-Shaddai (Deus Poderoso, Génesis, capítulo 17), Abraão recebe Yahveh na sua tenda (Génesis, capítulo 18; esta alternância entre os nomes divinos, El-Shaddai e Yahveh, é reveladora de uma fusão de histórias provenientes de tradições distintas).

O relato de Génesis mostra que Abraão e Sara já eram de idade avançada (eram nonagenários!) quando foram visitados por Yahveh, que lhes apareceu sob a forma de três homens (a descrição desta cena parece indicar que um dos homens seria Deus e outros dois seriam anjos guarda-costas), a anunciar que iriam finalmente ter um filho. Sara, que certamente tinha senso de humor, perguntou se “ainda iria ter prazer, sendo o marido já tão velho” (Génesis 18:12).

Estes homens eram notavelmente limitados. Depois de comerem carne de vitela oferecida por Abraão, perguntaram a este onde se encontrava Sara. Ora, Sara estava na tenda a uma distância tão curta que lhe permitia ouvir toda a conversa (Génesis 18:9-15)!

Yahveh queria aproveitar esta visita para também anunciar a Abraão que iria destruir Sodoma, mas estava hesitante porque sabia que Abraão tinha um sobrinho, Lot, a viver lá. Finalmente, Yahveh desvenda o seu propósito mas Abraão instou-lhe que poupasse a família do seu sobrinho (Génesis 18:16-33).

Os dois anjos que acompanhavam Yahveh foram visitar Lot.

Abraão e a sua “irmã”





Entretanto, logo após a revelação de Yahveh, Abraão foi ver a terra que lhe fora prometida. Acontece que uma terrível fome assolava aquele território e, por isso, Abraão e Sara tiveram que ir morar para o Egipto.


Abraão e o Faraó
Enquanto viajavam para o Egipto, Abraão pediu a Sara para fingir que era apenas irmã dele, argumentando que o poderiam matar para lhe ficarem com a mulher, visto que Sara era uma bela mulher. Assim combinado, quando chegaram ao Egipto, o Faraó desejou ficar com Sara e passou a tratar muito bem Abraão, como a um cunhado, dando-lhe muitas riquezas na forma de gado, camelos e escravos. Mas, desagradado com esta troca, Deus começou a lançar maldições (pragas) contra o Faraó e este apercebeu-se que tinha sido enganado por Abraão. O Faraó ordenou então que Abraão e Sara saíssem do Egipto, embora pudessem levar todas as riquezas que lhes tinha oferecido. Foi assim, com esta artimanha, que Abraão se tornou muito rico (Génesis 12:10-20).

Abraão e o rei de Gaza
Noutra passagem, Abraão repete o mesmo truque com um rei da região de Gaza, Abimeleque. O rei fica com Sara e, então, Deus fala directamente com este rei dizendo-lhe “olha que estás mesmo para morrer, pois essa mulher tem marido”, mas o rei conseguiu convencer Deus que não tinha nenhuma culpa do sucedido, pois tinha sido enganado por Abraão. Abimeleque foi, então, pedir justificações a Abraão, o qual respondeu “ela é realmente minha irmã, para além de ser minha esposa”! (Abraão ou era muito mentiroso ou era muito incestuoso...) E Abimeleque acabou por presentear Abraão com muitas riquezas antes de lhe restituir Sara. Foi assim que Abraão conseguiu aumentar a sua riqueza (Génesis 20:1-14).
Este rei de Gaza, Abimeleque, devia ter um problema grave de visão, porque Sara já tinha mais de noventa anos, conforme é dito numa passagem anterior (Génesis 17:17), e já não seria a donzela descrita no capítulo 12 de Génesis.

Isaque e o rei de Gaza
A segunda história é praticamente uma repetição da primeira, que se passou com o Faraó. E uma terceira história que decorre muito mais tarde entre Isaque, filho de Abraão, e o rei Abimeleque é muito semelhante a esta (Genesis 26:1-11). Isto indica que os autores do Antigo Testamento não tinham muita imaginação para criarem histórias originais! E, posteriormente, os autores do Novo Testamento herdaram muito desta falta de originalidade.


A promessa de Yahveh a Abraão





De acordo com o relato de Génesis, Abraão teve uma chamada divina e largou a sua terra natal, Ur, para ir se instalar na terra de Canaã, na região que actualmente se chama Palestina. Yahveh prometeu-lhe dar toda aquela terra aos seus descendentes (Génesis 12:1-3).

Só que havia um pequeno problema: Abraão não tinha herdeiros porque Sara, a sua mulher, era estéril (e na Bíblia não há homens estéreis; só às mulheres é que é atribuído este estado...). Para resolver este problema, Abraão fez um filho com a criada egípcia de Sara, Agar, ao qual foi dado o nome Ismael. Muitos anos depois, quando Abraão e Sara eram um casal de idosos, é que milagrosamente tiveram o seu herdeiro legítimo, Isaque.

Ismael é considerado o patriarca de todos os árabes e Isaque é o antepassado dos judeus. Como o Antigo Testamento é literatura judaica, Ismael é retratado com traços menos favoráveis (Génesis 16:12) enquanto Isaque protagoniza como filho preferido e herdeiro. Pelo contrário, na tradição árabe, Ismael é que é o legítimo herdeiro, pois é o primogénito e é referido que Abraão casou-se com Agar.

É necessário referir que, na antiga tradição bíblica, só havia um herdeiro na família que era, em regra, o primogénito. Isto evitava a divisão do património do clã mas, por outro lado, não raramente dava origem a lutas violentas entre irmãos, pois os que não herdavam ficavam sujeitos aos caprichos do herdeiro.

Mais tarde, Deus (El-Shaddai, Deus Poderoso, Génesis 17:1-14) fez novamente a promessa a Abraão de dar toda aquela terra aos seus descendentes. Mas a partir dali, para se lembrarem desta promessa divina, Abraão e todos os seus herdeiros tinham de ser circuncidados, isto é, tinham de se separar do pedaço de pele que cobre a extremidade do seu pénis. Daqui nasceu o ritual de circuncisão, a realizar obrigatoriamente em todos rapazes, no seu oitavo dia de vida. Parece que Deus não gostava de prepúcios (esqueceu-se que foi ele mesmo que inventou o prepúcio, quando fez o homem... e até que não foi uma má invenção, revelando-se muito útil quando está frio...).

Mas Yahveh não inventou a circuncisão - simplesmente plagiou um costume antigo dos egípcios!...

Abraão




Abraão, considerado o partriarca de todos os povos do médio oriente, era de Ur da Caldeia, conforme relatado no livro de Génesis. A região onde Ur se localiza foi conhecida ao longo dos tempos como Mesopotâmia, Suméria, Acádia, Caldeia, Babilónia, etc. Hoje é conhecida como Iraque.

Segundo as cronologias tradicionais, diz-se que Abraão viveu há quatro mil anos (2000 AEC), mas não se sabe quanto da história de Abraão é ficção pois, contrariamente à opinião de alguns grupos religiosos, os relatos de Génesis têm contornos óbvios de lenda e não de documento histórico.

O Antigo Testamento, em alguns dos seus livros, fornece a linhagem desde o primeiro homem até Abraão. Considerando como referência a data de criação/nascimento de Adão pode-se construir uma cronologia a partir da narrativa de Génesis, porque para cada personagem é indicada a idade do pai no momento do nascimento. Na seguinte tabela assume-se um ano zero para o “nascimento” de Adão e segue-se a cronologia de Génesis até chegar a Abraão. Este sistema de datação é originário da tradição judaica e é chamado Anno Mundi.


Personagem
Datas (Anno Mundi)
Longevidade
Descrição
Adão
0-930
930
Primeiro homem criado por Elohim (heb. El, Deus no plural Elohim Deuses).
... Sete, Enos, Cainã, Malalel, Jarede, Enoque, Matusalém, Lameque ... todos mortos antes do dilúvio...
Noé
1056-2006
950
O protagonista do dilúvio.
Sem
1556-2156
600
É deste filho de Noé que vem a designação “semita”, a qual deveria aplicar-se a qualquer pessoa com origem étnica no Médio Oriente, mas é quase sempre utilizada como sinónimo de “judeu”.
Arpaxade
1658-2096
438

Salá
1693-2126
433
Éber
1723-2191
468
É deste antepassado de Abraão que vem o nome colectivo dos Hebreus, nome aplicado ao povo judeu da antiguidade.
Pelegue
1757-1996
239

Reu
1787-2026
239
Serugue
1819-2049
230
Naor
1849-1997
148
Tera
1878-2083
205
Abraão
1948-2123
175
O patriarca dos povos do Médio Oriente.
Ismael e Isaque


Ismael é o patriarca dos árabes e Isaque é o patriarca dos judeus.


Ora, a cronologia de Génesis mostra que, quando Abraão nasceu, todos os seus antepassados até Noé (inclusive) ainda estavam vivos (dez gerações!). E os antepassados remotos Sem, Selá e Éber sobreviveram-lhe, isto é, morreram depois dele (passo a redundância)!...

É decepcionante que o Génesis não mostre nenhum contacto entre Abraão e os muitos antepassados vivos, à excepção do seu pai, Tera.

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