sexta-feira, 1 de maio de 2009

A historicidade de Moisés




A autenticidade da historia de Moisés é muito discutível, mas, caso este tenha sido realmente uma personagem histórica e não um produto de ficção, teria de se enquadrar por volta do século XV AEC (1500-1400 AEC). A antiga tradição atribui-lhe a compilação das leis no Torah, que é o mesmo que o Pentateuco ou os primeiros cinco livros do Antigo Testamento, mas só setecentos anos mais tarde, no século VII AEC, durante o reinado de Josias (649–609 AEC), é que estas leis foram “encontradas” (2 Cronicas 34:14). Isto pode ser uma pista de que a personagem de Moisés teria sido criada por ficção para sugerir que a lei judaica e a adoração de Yahveh seriam mais antigas do que na realidade.


Resumo de 2 Cronicas 34:14-21
Durante uns trabalhos de conservação do Templo, o sacerdote Hilquias encontrou o livro de Moisés e entregou-o a Safã, o escriba.
Safã foi ao rei Josias e leu-lhe o livro.
Quando o rei ouviu as palavras da lei, rasgou a sua roupa, e ordenou aos escribas e sacerdotes:
"Consultem o Senhor sobre este livro; pois grande é o furor do Senhor sobre nós por não terem os nossos pais feito tudo conforme este livro."


É, portanto, provável que a personagem Moisés terá sido desenvolvida durante o reinado de Josias. No mínimo, foi nesta época que lhe foi atribuída a autoria das leis do judaísmo. Josias, ao tomar conhecimento do conteúdo do livro de Moisés, é retratado como ficando fortemente decepcionado com o comportamento errado de toda a nação, desde o tempo dos seus antepassados. A própria Bíblia reconhece que, até ao tempo de Josias, ninguém conhecia a lei de Moisés!!!

Certo é que, como Moisés é o grande Profeta do Antigo Testamento, seria de esperar que em todos os livros houvesse referências a esta importante personagem. No entanto não se encontram referências nos seguintes dezanove livros: Rute, 2º Samuel, Ester, Jó, Provérbios, Eclesiastes, Cânticos de Salomão, Lamentações, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu e Zacarias. O facto de existirem tantos livros no Antigo Testamento sem referências a Moisés, é tão estranho como também seria se houvesse livros no Novo Testamento que não tivessem uma única referência a Jesus Cristo.

Noutros três livros existe uma única referência um pouco desenquadrada que não fornece informação nenhuma para além do nome: Jeremias 15:1; Miquéias 6:4; Malaquias 4:4. Encontramos ainda outros três livros onde o nome de Moisés aparece duas vezes, em cada um, mas parece suspeito o nome aparecer as duas vezes em frases contíguas: 1º Samuel 12:6,8; Isaías 63:11,12; Daniel 9:11,13.

Vamos resumir a lista de livros que excluimos até agora:
  • dezanove livros sem qualquer referência a Moisés;
  • seis livros com uma ou duas referências duvidosas ou, pelo menos, insignificantes;

Dos trinta e nove livros que constituem ao Antigo Testamento, apenas treze têm referências significativas sobre Moisés:
  • quatro dos cinco livros do Pentateuco (Génesis não contém referências porque é suposto relatar acontecimentos anteriores ao nascimento de Moisés), que são os livros cuja autoria é tradicionalmente atribuida a Moisés;
  • e outros nove livros: Josué, Juízes, 1º Reis, 2º Reis, 1º Crónicas, 2º Crónicas, Esdras, Neemias e Salmos.

A existência do Antigo Testamento, tal como conhecemos hoje, deve-se, em grande parte, a um escriba chamado Esdras que, no século V AEC, no pós-exílo babilónico, compilou os livros das Crónicas, bem como o livro que tem o seu nome, Esdras. Também atribui-se-lhe o facto de ter organizado as Escrituras Sagradas judaicas, numa primeira compilação dos escritos que eram considerados sagrados. Este facto é importante, pois Esdras deve ter tido a preocupação de adaptar muitos textos à nova fé dominante dos judeus: o culto de Yahveh e o seu profeta Moisés.


PS: Agradeço ao Rui Pereira a correcção ortográfica

Moisés, o terrível




No livro de Números, encontramos mais um daqueles episódios do Antigo Testamento que atingem níveis incríveis de violência, crueldade e injustiça:

Resumo de Números, capítulo 31 
Yahveh disse a Moisés: “Vinga os filhos de Israel dos midianitas”. Moisés então reuniu soldados e confrontaram-se com o povo de Midiã. E os israelitas saquearam e queimaram as suas cidades e acampamentos, mataram todos os homens, aprisionaram as mulheres e as crianças. 
Quando levaram o saque e os prisioneiros a Moisés, este repreendeu os oficiais israelitas dizendo: 
- “Deixastes viver todas as mulheres que, por conselho de Balaão, fizeram que os filhos de Israel pecassem contra o Senhor, e por isso houve praga na congregação do Senhor. Portanto matem todos os meninos entre as crianças, e todas as mulheres não virgens. Mas podem ficar com as meninas virgens.” 
O resto do capítulo quantifica o saque em peso do ouro, cabeças de gado e escravas virgens e descreve minuciosamente a distribuição destes bens entre os soldados, a população, os sacerdotes e... o próprio Yahveh!

Esta passagem sobre a guerra contra os midianitas, aparece na sequência de um episódio protagonizado por um profeta chamado Balaão (que tinha um burro falante!), no qual as mulheres que provocaram os israelitas são provenientes de Moabe e não de Midiã (Números capítulos 22 a 25; os midianitas, e uma mulher em particular, são referidos apenas pontualmente ao longo destes capítulos). Yahveh enganou-se e todos os midianitas (homens, mulheres e crianças) pagaram bem caro pelas acções das mulheres moabitas!

Mas o mais grave são as atrocidades patentes em Números capítulo 31, perpetradas pelo “povo escolhido de Deus” às ordens do seu profeta Moisés:
  • extermínio de toda uma população masculina no decurso de uma guerra (nada de prisioneiros!);
  • matança de mulheres e meninos pertencentes ao inimigo já depois de resolvido o conflito;
  • escravização das meninas virgens (tornadas propriedade), as únicas sobreviventes do lado do inimigo;
Por outro lado, este nível de violência de Moisés contra os midianitas não é conciliável com o relato sobre Midiã ter sido a terra para onde Moisés foi quando fugiu do Egipto e ser a terra de origem da sua mulher, sogro e cunhado (Êxodo 2:15-21; Números 10:29). Isso significaria que estes familiares de Moisés teriam também morrido no confronto, juntamente com toda a população midianita. Pois esta cruel matança não parece ter feito extinguir a raça dos midianitas, porque podemos ler que, posteriormente, os midianitas voltaram a ser numerosos e poderosos (Juízes 6:1-5).

Esta passagem é, também, totalmente oposta a outra que afirma que Moisés era o mais manso de todos os que haviam sobre a Terra!
Números 12:3 Ora, Moisés era homem mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra.

Balaão, o mágico frustrado
A história de Balaão, em Números, é importante para melhor perceber este encadeamento de textos relacionados com a figura de Moisés.

Resumo de Números, capítulos 22 a 25 
Os moabitas tremiam de medo dos israelitas, porque estes tinham tido recentes vitórias militares e estavam acampados nas planícies de Moabe. 
Balaque, rei de Moabe, enviou emissários para solicitar os serviços de magia de Balaão filho de Beor, em Petor, na Mesopotâmia. 
Os emissários levavam dinheiro para pagar os honorários que fossem exigidos por Balaão. À chegada, os emissários transmitiram-lhe a seguinte mensagem do rei: “Um povo vindo do Egipto está a dominar toda a redondeza. Vem connosco e amaldiçoa este povo, porque tudo o que abençoas fica abençoado e tudo o que amaldiçoas fica amaldiçoado.” 
Balaão respondeu: "Fiquem aqui esta noite, que eu vou falar com Yahveh sobre este assunto". 
Entretanto, Deus veio ter com Balaão e perguntou-lhe: "Quem são estes homens que estão contigo?" (este Deus ainda não era omnisciente!…). 
Balaão respondeu que estes eram enviados de Balaque, rei de Moabe, e explicou o propósito da visita deles. 
Deus disse-lhe: "Não vás com eles. Não amaldiçoes este povo, pois é abençoado" 
Na manhã seguinte, Balaão disse aos emissários do rei de Moabe: "Voltem para a vossa terra, porque Yahveh não me deixa ir convosco". 
E assim retornaram os emissários a Moabe, a Balaque. Depois de ouvi-los, o rei enviou novos emissários, príncipes de Moabe, para insistir com Balaão e prometer-lhe grandes somas de dinheiro. 
Balaão foi novamente falar com Deus, que lhe respondeu: “Se é isso que querem então vai com eles, mas fala-lhes somente o que eu te disser”. 
Balaão preparou a sua jumenta e foi com os homens para Moabe. Apesar de ter autorizado Balaão, Deus irou-se com o comportamento deste e colocou um anjo a bloquear-lhe o caminho. Só a jumenta é que viu o anjo e parou. Balaão, não compreendendo o comportamento do animal, por três vezes espancou a jumenta até que esta lhe disse: “Que te fiz? Porque me espancaste?”. Depois de uma discussão com a burra, Balaão finalmente viu o anjo e este ordenou-lhe que prosseguisse o caminho até Moabe. 
Quando Balaão chegou a Moabe, avisou Balaque que apenas ia fazer aquilo que Deus lhe ordenou. O rei levou-o para um local de onde se podia avistar os israelitas. Balaão ofereceu sacrifícios em sete altares e, para consternação do rei Balaque, proferiu bençãos para os israelitas em vez de maldições. 
Balaque, ainda chocado, pediu para Balaão ir com ele para outro local de onde se podia avistar apenas uma parte dos povo israelita e, de lá, proferir as maldições contra estes. Balaão voltou a oferecer sacrifícios e a proferir bençãos para os israelitas. 
Numa terceira e última tentativa, Balaque levou Balaão para o cume de Peor, mas o resultado foi exactamente o mesmo que nas duas primeiras vezes. De todas as vezes Balaão justificou-se a Balaque com as seguinte palavras “Não te disse que ia fazer apenas aquilo que Yahveh me ordenou?” 
A partir desse momento Balaque e Balaão separaram-se (acaba aqui a história de Balaão…).

(…começa o capítulo 25)

Os filhos de Israel começaram a ter relações com as filhas de Moabe e, por isso, ligaram-se ao culto de Baal de Peor. Yahveh encolerizou-se e disse a Moisés: “Enforca e deixa virados para o sol todos os líderes israelitas, para que a minha ira deixe Israel”. Moisés, por seu turno, retransmitiu a ordem de Yahveh aos juízes: “Devem ser mortos todos os que se juntaram ao culto de Baal de Peor”.

Entretanto um certo homem trouxe uma mulher midianita para a sua tenda. Finéias, neto de Arão, seguiu-os e trespassou-os no ventre com a sua lança.
No fim de contas morreram 24.000.


Nesta passagem de Balaão, que não era israelita mas um mago mesopotâmico, podemos fazer as seguintes leituras:
  • Balaão, apesar de não ser israelita, fala directamente com Yahveh, mostrando sempre uma irrepreensível obediência (uma característica que raramente se encontra nos profetas israelitas);
  • a história do envolvimento dos israelitas com as moabitas não está relacionada com os episódios de Balaão (a não ser pelo facto de ambas narrações serem contíguas no livro de Números);

Apesar disto, Moisés culpa Balaão de ter aconselhado as mulheres moabitas a envolverem-se com os israelitas e a introduzirem o culto de Baal em Peor.


Dentro da mesma linha de interpretação, Balaão é descrito no Novo Testamento como um malvado que queria prejudicar os israelitas (2 Pedro 2:15; Judas 11; Apocalipse 2:14).

O episódio onde Moisés declara guerra contra Midiã e decreta a extinção dos midianitas, quando o caso que suscitou este episódio estava relacionado com as mulheres de Moabe, pode ter a seguinte explicação: o grande Rei David é descrito, no livro de Rute, como descendente de uma mulher moabita (!).

É muito provável que, na sua forma original, o relato que descrevia este episódio centrasse a acção contra Moabe e não contra Midiã. Mas deve ter existido um período em que houve necessidade de “branquear” as relações entre Israel e Moabe, refazendo-se relatos onde estivesse patente o ódio recíproco.


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