quarta-feira, 13 de junho de 2012

Evangelhos Canónicos: datas, estilos e doutrina




Prováveis datas e locais de escrita

Os evangelhos não apareceram todos ao mesmo tempo. Tal como a autoria, a data e local de escrita permanecem um mistério. No entanto, pensa-se que foram escritos a partir de 70 EC, pela seguinte ordem:
-          Marcos – cerca de 70-90 EC, possivelmente em Roma;
-          Mateus – cerca de 80-100 EC, possivelmente em Antioquia (na Síria);
-          Lucas – cerca de 90-100 EC, possivelmente em Filipos (na Macedónia, a cidade dos Filipenses);
-          João – cerca de 100-130 EC, possivelmente em Éfeso (na actual Turquia);

Estas datas são aceites hoje em dia, porque o mais certo é os evangelhos só terem sido escritos (ou colocados a circular) depois de o apóstolo Paulo, o grande impulsionador do culto do cristianismo, ter morrido. Portanto, os evangelhos foram escritos depois das cartas de Paulo, as quais formam uma parte substancial não só do Novo Testamento como também da doutrina cristã.

Comprovadamente, e até os mais crentes admitem, estes textos tiveram adições posteriores, daí que estas datas refiram-se às versões iniciais de cada evangelho.

Quanto ao Evangelho Segundo João, é possível que tenha havido uma versão inicial por volta de 70 EC, possivelmente baseada em Marcos, completamente irreconhecível por comparação à versão que conhecemos hoje, tal foi a quantidade de adições e rearranjos a que foi submetido até cerca do ano 130 EC, quando surgiu a versão mais semelhante à actual. Talvez tenha, ao longo dos tempos, sofrido remoção de conteúdos que pudessem entrar em contradição com os evangelhos mais antigos. A versão que conhecemos tem algumas influências de Lucas.

Quando os evangelhos começaram a circular juntos, deve ter havido muitas tentativas de harmonização por parte dos copistas e escribas, quer deliberadamente quer por erro de cópia ou por excesso de zelo religioso. A tentação de compatibilizar passagens contraditórias seria enorme. Essas tentativas de harmonização só eram detectadas quando havia um manuscrito mais antigo como prova da fraude ou do erro.


Diferenças de estilo

Apesar das fontes comuns, notam-se estilos de escrita totalmente diferenciados:
-          “Marcos” escreve numa linguagem muito narrativa, que se pode considerar “de rua”, muito apropriada para apresentações dramáticas em público; Jesus é retratado em termos muito humanos e os apóstolos são retratados como fracos ou mesquinhos;
-          “Mateus” introduz muitos paralelos com o Antigo Testamento, e, elevando o conceito sobre Jesus e os Apóstolos, censura ou embeleza descrições pouco apropriadas encontradas em “Marcos”;
-          “Lucas” utiliza um estilo literário erudito, como o encontrado em biografias de grandes personagens históricas; também censura descrições pouco apropriadas encontradas em Marcos; e apresenta uma perspectiva de traços femininos;
-          “João” escreve um tratado teológico; onde Jesus aparece constantemente a meditar e a descrever-se na primeira pessoa (“Eu sou...”).


Diferenças de doutrina

As doutrinas apresentadas diferem em cada evangelho:
-          Marcos apresenta Jesus como um homem comum que se tornou muito especial – o Messias ou o Cristo – tendo-se tornado tal no momento do seu baptismo; Jesus veio para salvar aqueles que perceberem a sua mensagem enigmática (como se fosse um jogo de mistério...);
-          Mateus apresenta Jesus como um ser de características divinas, distinto dos humanos logo no nascimento, que é relatado como um evento miraculoso; Jesus veio para salvar os judeus;
-          Lucas apresenta Jesus como um ser de características divinas, distinguido por um nascimento miraculoso; Jesus salva não só os judeus como todos os outros (gentios);
-          João apresenta Jesus como o Deus Filho, com pré-existência espiritual, tendo o seu espírito encarnado (em criança, no momento de um não mencionado nascimento, ou já num homem adulto); Jesus salva aqueles que acreditam nele.

Colocando as doutrinas pela ordem cronológica da elaboração de cada escrito, assistimos a uma evolução do conceito de Jesus: de homem passa a ser divino e depois passa a ser um Deus.

Apesar de ter havido um esforço, no século IV, por parte do imperador romano Constantino, de uniformizar a doutrina, tornando-a universal (gr. katholikós), as doutrinas cristãs actuais resultam de diferentes misturas das doutrinas dos quatro evangelhos, conforme o doseamento de doutrina retirado de cada um. Por isso, não é de estranhar que actualmente existam tantas religiões cristãs que se rivalizam.

Evangelhos Canónicos: Os sinópticos




Evangelhos Sinópticos: Marcos, Mateus e Lucas

Podemos agrupar os primeiros três evangelhos canónicos (do Novo Testamento) e fazer uma análise comparativa, porque estes tratam dos mesmos temas. Quando referidos em conjunto, estes três evangelhos são designados por “evangelhos sinópticos”.

Comparando os três textos de Mateus, Marcos e Lucas, podemos elaborar um diagrama (figura acima) para demonstrar o peso dos conteúdos repetidos em cada evangelho.

Este diagrama revela como os conteúdos se repetem entre os evangelhos sinópticos. Como é que sucedeu esta repetição de conteúdos?

Supõe-se que Marcos é uma compilação de tradições orais ou pequenos escritos acerca de uma personagem com o nome Jesus. Para além de uma forte influência do Antigo Testamento não se sabe especificamente que outras fontes é que o autor terá utilizado, mas podemos formular as seguintes hipóteses:
-          algumas cartas de Paulo (40 a 60 EC), sobre o Cristo, filho de Deus, um ser celestial que foi crucificado e ressuscitado ao terceiro dia; existem passagens em comum com as cartas de Paulo e os conteúdos mostram que é mais provável Marcos ter como fonte estas do que o contrário;
-          a história de Jesus ben Pandera, possivelmente uma tradição oral do Sepher Toldoth Yeshu, sobre um pretenso Messias que foi condenado a ser apedrejado num dia de páscoa durante o reinado de Salomé Alexandra (76 a 67 AEC);


Hipótese da Dupla Fonte para Mateus e Lucas

Quanto a Mateus e Lucas, domina actualmente a hipótese da “Dupla Fonte” que sustenta que foram utilizadas as duas seguintes fontes:
-          Marcos – ou uma versão primitiva do Evangelho Segundo Marcos; considerada a fonte da estrutura narrativa, comum aos sinópticos, da vida pública de Jesus;
-          Q – uma outra fonte, designada por Evangelho Perdido Q (do alemão “Quelle” - “fonte”), cujo conteúdo seriam os textos que se encontram simultaneamente em Mateus e Lucas (cerca de 200 versículos) mas que não se encontram em Marcos. Trata-se de um texto hipotético, pois jamais foi encontrado um manuscrito com este conteúdo, o qual pode ter sido uma colecção de pensamentos e dizeres de Jesus, com pouca ou nenhuma estrutura narrativa. Também é designado por Evangelho dos Dizeres Q.




Nesta hipótese a primeira premissa é que Marcos forneceu a estrutura narrativa para a composição de Mateus e Lucas, porque:
-          Mateus, Marcos e Lucas têm semelhança na sequência narrativa e concordam por vezes ao nível da composição de frases;
-          em algumas passagens Mateus concorda com Marcos, mas não com Lucas;
-          em algumas passagens Lucas concorda com Marcos, mas não com Mateus;
-          Mateus e Lucas quase nunca concordam em composição e sequência, embora concordem em conteúdo, exceptuando material encontrado também em Marcos.

A segunda premissa é que os autores, “Mateus” e “Lucas”, criaram os seus trabalhos independentemente, isto é, “Mateus” não conhecia o trabalho de “Lucas” e vice-versa.

Finalmente, como também há semelhança em material comum a Mateus e Lucas, e que não existe em Marcos, a terceira premissa é que teria de haver uma segunda fonte comum: chamemos-lhe pelo nome de Evangelho Perdido Q.

Referência web: Fonte Q (wikipedia).

Para além de material proveniente da “Dupla Fonte”, tanto Mateus como Lucas apresentam também material exclusivo. Material exclusivo, neste caso, não quer dizer material original. Por exemplo, o Antigo Testamento é extensivamente utilizado em Mateus, constituindo também uma importante fonte.



Hipótese Marcos - Mateus - Lucas

Outra hipótese  muito mais simples – é a que infere que Mateus inspirou-se em Marcos e Lucas inspirou-se em Mateus:
-          Marcos – foi redigido para defender que o cristianismo não era um simples ramo do judaísmo e, portanto, poderia ser seguido por não judeus (num texto particularmente orientado para romanos); os seguidores do cristianismo não necessitariam de seguir normas judaicas; Jesus ilustra uma certa ruptura com o judaísmo.
-          Mateus – o autor, que provavelmente pertenceria a uma comunidade judaica, pegou no texto de Marcos e alterou o sentido para mostrar que, afinal, o cristianismo era uma continuação do judaísmo; quem quisesse ser cristão teria de ser judeu ou converter-se ao judaísmo; Jesus é uma personagem que só faz sentido no universo judaico.
-          Lucas – este autor pegou no texto de Mateus criando uma nova versão para novamente defender que o cristianismo seria uma doutrina para não judeus (orientado para gregos); Jesus teria cortado com o judaísmo, principalmente nas regras demasiado penalizadoras para as mulheres.

A "Grande Omissão de Lucas" pode ser analisada quer sob a hispótese de Lucas ter sido baseado em Marcos+Q, quer sob a hipótese de Lucas ter sido baseado em Mateus.

Hipótese da Tripla Fonte

Finalmente, uma outra hipótese será aquela que infere que os três evangelhos sinópticos tiveram uma mesma fonte comum. Esta teoria é menos interessante porque a hipotética fonte comum seria muito semelhante ao Evangelho de Marcos.



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