domingo, 30 de setembro de 2012

Os judeus do primeiro século





Os judeus do primeiro século

Algumas seitas, grupos ou partidos de judeus são referidos no Novo Testamento ou por cronistas do primeiro século:
-          os saduceus eram os mais ortodoxos, exigindo o cumprimento rigoroso da Lei Escrita (tudo o que estava escrito na Torah, por exemplo, o olho-por-olho, dente-por-dente...) e não criam em inovações como a imortalidade da alma ou a ressurreição; os saduceus eram defensores da classe sacerdotal hereditária, ou seja, defendiam que o cargo de sumo-sacerdote passasse de pai para filho e que o sumo-sacerdote acumulasse o poder administrativo como no tempo dos Asmoneus;

-          os fariseus faziam uma interpretação da Lei Escrita moderada por uma Tradição Oral (mais tarde essa tradição oral foi registada no Talmude); criam na ressurreição e grande parte da sua filosofia deu origem à cultura rabínica; o seu sistema de crenças era de tal modo semelhante aos propagados por Jesus nos evangelhos, que as frequentes discussões entre este e os fariseus parecem absurdas;

-          os zelotes formavam um partido político que pretendia guerra aberta contra a ocupação romana ou contra qualquer forma de governo que considerassem subserviente dos romanos; em 66 EC fomentaram a Grande Revolta Judaica; segundo Flávio Josefo este grupo foi originado por Judas da Galiléia, que promoveu uma significativa revolta contra os romanos em 6 EC;

-          os essénios, que se centravam em comunidades fechadas em que os membros abdicavam das suas propriedades privadas, entregando-as ao grupo; as suas crenças incluíam a imortalidade da alma.


Idioma

O idioma mais popular entre os judeus da Palestina do primeiro século era, desde a invasão assíria do século VIII AEC, o aramaico. Os autores dos evangelhos do Novo Testamento fizeram a transliteração em grego de palavras e pequenas frases supostamente articuladas por Jesus em aramaico.



domingo, 23 de setembro de 2012

Evangelhos: a história segundo Flávio Josefo (cont.)




A história segundo Flávio Josefo (cont)

Tal como foi mencionado num artigo anterior (ver aqui), as alegadas referências de Josefo sobre Jesus não têm muita substância nem credibilidade.

No entanto, Josefo menciona, numa passagem, um outro Jesus num episódio ocorrido no ano 62 (“quatro anos antes da guerra”). Esta personagem tem muitas semelhanças com o Jesus dos evangelhos mas, neste tempo, o Jesus dos evangelhos já deveria estar morto por quase 30 anos... se é que existiu. Vejamos a passagem:
A Guerra dos Judeus, VI, 5, 3 
Mas um outro portento foi ainda mais assustador. Quatro anos antes da guerra, quando a cidade desfrutava de grande paz e prosperidade, um tal Jesus, filho de Ananias, um rude camponês, veio à festa na qual todos os Judeus costumam erguer tabernáculos a Deus. Entrando no Templo, pôs-se subitamente a gritar, «Uma voz do oriente, uma voz do ocidente, uma voz dos quatro ventos. Uma voz contra Jerusalém e o santuário, uma voz contra o noivo e a noiva, uma voz contra todo o povo». Depois, percorreu todas as ruelas, dia e noite, com este grito nos lábios. Alguns dos principais cidadãos, furiosos com estas palavras de mau agoiro, prenderam-no e castigaram-no duramente. Mas ele, sem uma única palavra em sua defesa ou para os ouvidos dos que lhe batiam, continuou com os seus gritos. Os magistrados, convictos de que o homem se encontrava sob um impulso sobrenatural – o que era verdade -, levaram-no ao governador romano. Apesar de flagelado até aos ossos, não implorou misericórdia nem derramou uma lágrima, gemendo entre cada chicotada, «Ai de Jerusalém!». Sempre que Albino, o governador, lhe perguntou quem era, donde vinha e porque dava aqueles gritos, ele nunca lhe respondeu, reiterando incessantemente as suas lamentações pela cidade, até que Albino o declarou louco e o deixou ir embora. ...

A Guerras dos Judeus, escrita cerca de 74 EC, é a história dos Judeus desde o tempo da revolta dos Macabeus, em 165 AEC, até à destruição de Jerusalém em 70 EC. Vamos relembrar as datas dos acontecimentos durante e após a Guerra dos Judeus:

Data
Acontecimentos
66 EC
Início da Grande Revolta dos Judeus contra os romanos. Josefo é comandante militar na Galiléia. Vespasiano é comissionado por Nero para conter a revolta.
67 EC
Josefo rende-se a Vespasiano, na Galiléia, em Jotapata.
69 EC
O império romano ameaça desmoronar-se: três imperadores num ano.
70 EC
Tito derrota os judeus em Jerusalém. O Templo é destruido. Vespasiano torna-se imperador de Roma.
73 EC
A última bolsa de resistência judaica é derrotada em Masada.
75 EC
Josefo escreve Guerras dos Judeus.
94 EC
Josefo escreve Antiguidades Judaicas.


Quem eram as personalidades políticas deste tempo e local:

Data
Judeia (Jerusalém)
Galileia
60 EC
Festus, prefeito (60 - 62 EC) 
Agrippa II, rei (52 - 93 EC)
62
Albinus, prefeito (62 - 64 EC)
64
Florus, prefeito (64 - 66 EC)
66
Grande Revolta (66 - 73 EC)
68
70


Vamos agora comparar o Jesus dos evangelhos com o Jesus, filho de Ananias, desta passagem de Josefo:


Jesus dos evangelhos
Jesus, filho de Ananias
Enquadramento
Prefeitura de Pilatus (26 a 36 EC)
Prefeitura de Albinus (62 a 64 EC)
Nome
Jesus
Jesus
Gritou no Templo
Sim
Sim
Profetizou a destruição de Jerusalém
Sim
Sim
Foi detido
Sim
Sim
Foi açoitado
Sim
Sim
Foi julgado pela autoridade romana
Sim
Sim
Foi condenado pela autoridade romana
Não
Não



Conclusão: não podem ser coincidências as semelhanças entre as duas personagens: Jesus dos evangelhos e Jesus, filho de Ananias. É possível que a personagem Jesus, filho de Ananias, tenha tido influência na construção da personagem de Jesus dos evangelhos.


domingo, 16 de setembro de 2012

Evangelhos Canónicos: a história segundo Flávio Josefo





A história segundo Flávio Josefo

Muitos dos acontecimentos desta época e região estão apenas registados nas obras de Flávio Josefo, nomeadamente as obras Guerras dos Judeus, com sete volumes, e Antiguidades Judaicas, com vinte volumes.

Flávio Josefo, originalmente Yussef ben Matatias, nasceu em Jerusalém por volta de 37 EC e era de uma família da aristocracia sacerdotal. Aos 19 anos tornou-se um notável fariseu e aos 30 participou na Grande Revolta Judaica de 66 a 67 EC, como líder militar na Galileia. Quando a vitória dos romanos se tornou evidente, Josefo preferiu ser capturado pelas tropas romanas, do que participar num pacto suicida entre os seus companheiros de guerra. De prisioneiro rapidamente passou a protegido do general (depois imperador) romano Flávio Vespasiano e do filho Flávio Tito e, devido a isso, adoptou o nome destes. Pouco depois da queda de Jerusalém, seguiu Tito até Roma e lá recebeu a cidadania romana, uma pensão, assim como o livre acesso à corte de Tito e de Domiciano.

Josefo via esta revolta dos judeus mais como uma guerra fraticida do que de libertação nacional. Descreveu muitos confrontos entre facções rivais de judeus e parece que estes matavam mais compatriotas do que romanos. Obteve os favores da família Flaviana, porque predisse que o rei do mundo inteiro, aquele que as profecias antigas diziam que viria de Israel, seria o próprio Vespasiano que, realmente, tornou-se imperador quando chegou a Roma vindo... da Judeia! Vespasiano seria um Messias até para os próprios judeus, porque trouxe-lhes ordem e salvou-os da auto-aniquilação. Assim, Josefo imitou Isaías que, no seu tempo, também profetizou que um estrangeiro, Ciro da Pérsia, seria o Messias, rei do mundo.

A Guerras dos Judeus, escrita cerca de 74 EC, é a história dos Judeus desde o tempo da revolta dos Macabeus, em 165 AEC, até à destruição de Jerusalém em 70 EC. Mais tarde, cerca de 94 EC, Josefo escreveu Antiguidades Judaicas que seria uma espécie de complemento da primeira obra, cobrindo a história dos judeus desde o tempo da Criação até ao começo da guerra. Josefo também escreveu uma obra autobiográfica onde defendia a sua posição colaboracionista em relação ao poder romano.

Vejamos um resumo dos acontecimentos históricos, acompanhados pelas possíveis datas:

Data
Acontecimentos
40 AEC
Herodes (o Grande), com o apoio de Marco António e do senado romano, torna-se Rei dos Judeus, dominando sobre um território de dimensões semelhantes ao reino Asmoneu.
27 AEC
César Augusto torna-se imperador romano.
4 AEC
Morte de Herodes o Grande (Josefo menciona uma eclipse lunar), o reino é dividido em três partes.
Herodes Antipas fica governador (tetrarca) da Galiléia e Peréia.
Herodes Arquelau torna-se Rei dos Judeus (etnarca), com os territórios da Judeia e Samaria.
Herodes Filipe é governador da Ituréia.
6 EC
Herodes Arquelau é expulso e a Judeia torna-se provincia romana, governada pela Síria.
Quirinius, governador da Síria, organiza um recenseamento para a colecta de impostos.
Judas Galileu (ou Gaulanita) promove uma revolta contra os romanos.
14 EC
Morte de César Augusto. Tibério torna-se imperador.
26 EC
Pilatos torna-se governador da Judeia. No meio das descrições de Josefo sobre Pilatos aparece o famoso “Testimonium Flavianum”.
29 EC
(15º ano de Tibério. O capítulo 3 de Lucas refere que Jesus tinha 30 anos por volta desta data. Foi provavelmente a partir deste relato que foi criado o calendário que actualmente utilizamos.)
36 EC
Herodes Antipas divorcia-se de Fasaelis, filha do rei nabateu Aretas IV Filopatris, e casa-se com Herodias, sua sobrinha e ex-cunhada.
João Baptista censura publicamente Antipas e é preso.
Provavel data da morte de João Baptista.
Pilatos termina o seu mandato como procurador (ou prefeito) da Judeia.
37 EC
Aretas IV entra em guerra contra Herodes Antipas, por disputas territoriais, e derrota-o.
Os romanos vêm em auxílio de Herodes e derrotam Aretas.
Morte de Tibério. Calígula torna-se imperador.
Nasce Flávio Josefo.
39 EC
Calígula depõe Herodes Antipas e coloca o seu amigo Agripa I (neto de Herodes o Grande e irmão de Herodias), como rei da Judeia e Galiléia (até morrer, em 44 EC).
56 EC
Herodes Agripa II, torna-se rei da Judeia (até 95 EC). Exerce o poder com o auxílio de prefeitos romanos.
66 EC
Início da Grande Revolta dos Judeus contra os romanos. Josefo é comandante militar na Galiléia. Vespasiano é comissionado por Nero para conter a revolta.
67 EC
Josefo rende-se a Vespasiano, na Galiléia, em Jotapata.
68 EC
Em Roma, Nero é condenado à morte e opta pelo suicídio.
69 EC
O império romano ameaça desmoronar-se: três imperadores governam e são assassinados (Galba, Oto e Vitélio). Vespasiano torna-se imperador em Roma.
70 EC
Tito derrota os judeus em Jerusalém. O Templo é destruido. 
73 EC
A última bolsa de resistência judaica é derrotada em Masada.
75 EC
Josefo escreve Guerras dos Judeus.
94 EC
Josefo escreve Antiguidades Judaicas.


O "Testimonium Flavianum"

Josefo escreveu até alguns detalhes sobre o mandato de Poncio Pilatos como governador da Judeia, mas a única menção específica sobre Jesus Cristo é a seguinte:

Antiguidades Judaicas, XVIII, 3, 3
Por volta deste tempo [da revolta dos judeus contra Pilatos devido ao financiamento de um aqueduto com dinheiro do Templo], existiu Jesus, um homem sábio, se é lícito chamá-lo de homem, pois ele fez coisas maravilhosas, um professor de homens que recebiam a verdade com prazer. Ele fez discípulos tanto entre os judeus como entre os gentios. Ele era o Cristo. E quando Pilatos, seguindo a sugestão dos líderes entre nós, condenou-o a ser crucificado, os que o amaram não o esqueceram; porque ele lhes apareceu vivo de novo no terceiro dia, tal como haviam predito os divinos profetas estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não se extinguiu até hoje.

Esta passagem das Antiguidades Judaicas, que é designada por “Testimonium Flavianum”, é uma das provas apresentadas pelos defensores da existência de um Jesus Cristo histórico. No entanto, existem muitos factos que contrariam esta posição, nomeadamente:

-          segundo os evangelhos, Jesus era famoso e muito popular na Galiléia; por outro lado, Josefo viveu na Galiléia num tempo muito próximo da época em que supostamente Jesus teria lá vivido mas “escreveu” apenas umas poucas linhas acerca de Jesus; para contrastar descreveu demoradamente Judas da Galiléia (ou o Gaulanita), um homem que promoveu uma rebelião em 6 EC (Guerras II.8.1; 17.8 e Antiguidades XVIII.1.1-6);
-          o “Testimonium Flavianum” menciona Jesus em termos bastante elogiosos, reconhecendo que ele era o Cristo; no entanto, não há nada que indique que Josefo se tenha tornado cristão ou, de alguma forma, seguidor de Jesus;
-          se Josefo considerasse que este Jesus, alegadamente executado por Pilatos, era o Cristo e tinha ressuscitado, certamente teria investigado mais e teria feito uma descrição mais detalhada sobre Jesus;
-          “... e a tribo dos cristãos não se extinguiu até hoje” – quanto tempo é que já tinha durado essa “tribo” na perspectiva de Josefo?
-          esta passagem foi referida por Eusébio, um dos fundadores da Igreja Católica, no seu livro História da Igreja (século IV), mas outro apologista cristão do século III, Orígenes, que também fez uso da literatura de Josefo nunca cita esta passagem;


Por estas razões, o “Testimonium Flavianum” parece mais uma inserção do que uma passagem genuina e original do autor. É igualmente possível que esta passagem tenha surgido por corrupção de uma passagem existente de modo a dar algum suporte à existência de um Jesus Cristo histórico.


Sobre João Baptista

Para contrastar, Josefo menciona João Baptista com mais detalhe e de um modo que se pode considerar genuíno, na seguinte passagem:

Antiguidades Judaicas, XVIII, 5, 2
Para alguns judeus a destruição do exército de Herodes pareceu intervenção divina, certamente uma punição pelo tratamento dado a João, o chamado Batista. Porque Herodes condenara-o à morte, mesmo ele tendo sido um homem bom e tendo exortado os judeus a levar uma vida correcta, praticar a justiça para com o próximo e a viver piamente diante de Deus, e fazendo por se batizar; porque a lavagem seria aceitável para ele, se o fizessem não para o perdão de pecados mas apenas para a purificação do corpo; pressupondo uma alma previamente purificada por uma conduta de rectidão. Quando outros também se juntaram à multidão em torno dele, pelo facto de que eles eram agitados ao máximo pelos seus sermões, Herodes ficou alarmado. Eloquência com tão grande efeito sobre os homens poderia levar a alguma forma de sedição. Porque dava a impressão de que eles eram liderados por João em tudo que faziam. Herodes decidiu então que seria melhor agir antes, executando João, do que arrepender-se mais tarde. Por esta suspeita de Herodes, João foi trazido acorrentado a Machaerus, a fortaleza de que falamos antes, e lá executado. Porém o veredicto dos Judeus era de que a destruição que atingiu o exército de Herodes foi um castigo, um sinal de desagrado de Deus.

Herodes Ântipas divorciou-se da filha de Aretas, rei árabe, para casar com Herodias, provocando a guerra com o país vizinho. Por outro lado aprisionou e executou João Baptista por recear que este se tornasse um forte adversário. Josefo diz que alguns judeus achavam que a derrota militar infligida a Herodes por Aretas tinha sido um castigo divino por aquele ter executado João Baptista.

Nesta descrição não há nada de extraordinário ou de fantasioso e, por isso, podemos nos assegurar que João Baptista terá sido uma personagem histórica com uma descrição similar àquela que nos é dada pelos evangelhos. No entanto a descrição de Josefo sobre João Baptista e sobre a relação de inimizade com Herodes Antipas coincide apenas superficialmente com aquela encontrada nos evangelhos.
Josefo diz:
-          João baptizava, não para o perdão de pecados, mas para a purificação do corpo;
-          Herodes mandou encarcerar e executar João Baptista porque receava que João Baptista fosse um líder agitador que pudesse fazer-lhe frente;

Os evangelhos dizem:
-          João baptizava para o perdão dos pecados (Marcos 1:4);
-          Herodes mandou encarcerar João Baptista porque não gostou que este criticasse o seu casamento com Herodias e ordenou a sua execução por sugestão da sua nova esposa (Marcos 6:21-28);

Não obstante estas diferenças subtis, podemos dizer que o relato de Josefo sobre João Baptista é genuino e coincide com o dos evangelhos. Já o “Testimonium Flavianum” coincide com os evangelhos mas não parece ter nada de genuíno.

Sobre Tiago, alegado irmão de Cristo

Uma segunda passagem de Josefo, habitualmente utilizada em defesa da existência física de Jesus, refere sem grandes detalhes “o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago”:

Antiguidades Judaicas, XX, 9, 1
Cesar [Nero?], tendo ouvido sobre a morte de Festus, enviou Albinus à Judeia, como procurador. Mas o rei [ Agripa II ] privou José do sumo sacerdócio, e outorgou a sucessão desta dignidade ao filho de Ananus [ou Ananias], que também se chamava Ananus. ... Mas este Ananus mais jovem, que, como já dissemos, assumiu o sumo sacerdócio, era um homem temperamental e muito insolente; ele era também da seita dos Saduceus, que são muito rígidos ao julgar ofensores, mais do que todos os outros judeus, como já tinhamos dito anteriormente; quando, portanto, Ananus supôs que tinha agora uma boa oportunidade – Festus estava morto, e Albinus estava viajando – assim ele reuniu o sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros; e quando ele formalizou uma acusação contra eles como infractores da lei; ele os entregou para serem apedrejados; .... Albinus... escreveu iradamente a Ananus, e o ameaçou dizendo que ele seria punido pelo que havia feito; por causa disso, o rei Agripa tirou o sumo sacerdócio dele, quando ele o tinha exercido por apenas três meses, e fez Jesus, filho de Damneus, sumo sacerdote.

Josefo descreve um episódio ocorrido por volta de 62 EC, em que alegadamente figura Tiago irmão de Jesus Cristo.

Esta passagem dá apenas importância à demissão de Ananias do cargo de sumo-sacerdote por ter executado um grupo de homens sem ter recorrido à autoridade romana. De Josefo ficamos a saber muito sobre Festus, Albinus e Ananias mas sobre este Tiago, irmão de um tal Jesus chamado Cristo, ficamos a saber apenas que foi acusado de infracções e que foi apedrejado junto com outros homens.

Como Josefo não descreveu inequivocamente este Tiago, nem os outros homens que foram apedrejados, estes poderiam ser quaisquer uns. Este Tiago não era necessariamente o irmão de Jesus Nazareno referido em Marcos 6:3.

A expressão “o que era chamado Cristo” é, certamente, uma inserção porque se Josefo a tivesse utilizado teria desenvolvido sobre o facto de chamarem “Cristo” a este irmão de Tiago. E o nome Jesus era muito comum. O mais provável é que este Tiago seria irmão de Jesus, filho de Damneus, que acabou por ser escolhido para sumo-sacerdote assim que este grave incidente foi resolvido pelo governador Albinus e pelo rei Agripa.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Evangelhos Canónicos: enquadramento histórico




Enquadramento histórico

Apesar de figurarem no início de qualquer edição do Novo Testamento, os evangelhos não foram as primeiras obras escritas. O mais aceitável é que tenham sido escritos depois das cartas de Paulo, apesar de os eventos relatados nos evangelhos (aprox. 7 AEC a 36 EC) serem supostamente anteriores aos eventos relatados nas cartas de Paulo (aprox. 40 EC a 60 EC).

Os evangelhos invocam poucos acontecimentos e personagens considerados como históricos.
Vejamos quais:

-          Mateus diz que Jesus nasceu durante o reinado de Herodes (o Grande, pai de Arquelau, de Herodes Antipas e de Filipe), rei da Judeia, ou seja, Jesus teria nascido antes de 4 AEC (data da morte de Herodes o Grande);

-          Mateus também diz que Herodes, quando ordenou o massacre das crianças de Belém, estimou que Jesus teria perto de dois anos; por estes dados Jesus teria nascido antes de 6 AEC (para que fosse possível ter dois anos de idade antes da morte de Herodes);

-          Lucas diz que Maria ficou grávida durante o tempo de Herodes, ou seja, antes de 4 AEC, mas também diz que Jesus nasceu no tempo do recenseamento “mundial” decretado por César Augusto, quando Quirinius era governador da Síria, isto é, a partir de 6 EC; para além de a data de nascimento não confirmar o relatado em Mateus, teríamos que crer que Maria esteve grávida durante 10 anos!

-          Lucas diz que Jesus iniciou a sua actividade pública cerca do 15º ano da regência de Tibério, ou seja, em 29 EC; e também diz que Jesus teria trinta anos nessa altura; por este registo, teríamos a data de 1 ou 2 AEC para o nascimento de Jesus; foi esta a passagem que esteve provavelmente na origem do calendário que hoje utilizamos;

-          Marcos relata que João Baptista foi executado por criticar publicamente o casamento de Herodes (Antipas) com Herodias, a mulher do seu irmão; o historiador Flávio Josefo relaciona o incidente com uma guerra contra o reino árabe vizinho, na sequência do divórcio entre Antipas e a filha do rei Aretas da Nabateia (um reino antigo cujo território pertence à actual Jordânia), e que se pode datar por volta de 36 EC;

-          Mateus menciona que Jesus foi levado a Caifás, que foi sumo-sacerdote em Jerusalém entre 18 e 36 EC;

-          os quatro evangelhos mencionam que Poncius Pilatus ordenou a execução de Jesus, ou seja, Jesus foi morto algures entre 26 EC e 36 EC.

Como não podemos obter no Novo Testamento dados históricos concretos, temos de recorrer aos historiadores dessa época. No caso da história dos judeus da época, temos as fontes de Flávio Josefo, com as suas obras Guerras dos Judeus e Antiguidades Judaicas, entre outras.


Imperadores romanos

Apenas dois imperadores romanos são referidos nos evangelhos, nomeadamente no Evangelho de Lucas:
-          César Augusto – nascido em 63 AEC com o nome Gaius Julius Caesar Octavianus, foi o imperador de Roma durante mais de 40 anos, desde 27 AEC até à sua morte em 14 EC, recebendo o título Augustus; o seu grande feito foi o acabar com muitos anos de guerras civis entre os romanos, com a vitória sobre Marco António (em Accio, 31 AEC), e a consolidação de um Império sobre a República de Roma; o Evangelho Segundo Lucas diz que Augusto promoveu um “recenseamento mundial”;

-          Tibério – nascido com o nome Tiberius Claudius Nero, foi imperador desde 14 EC até 37 EC, tendo sucedido ao seu padrasto César Augusto; Tibério era o imperador no principal período abrangido pelos evangelhos;

A lista completa de imperadores romanos do período abrangido pelo Novo Testamento é a seguinte:

Datas
Imperador
27 AEC a 14 EC
Augusto (Octaviano)
14 a 37 EC
Tibério
37 a 41 EC
Calígula (Gaio)
41 a 54 EC
54 a 68 EC
Nero
68 a 69 EC
Galba, Oto, Vitélio
69 a 79 EC
79 a 81 EC
81 a 96 EC
Domiciano


A família Herodes

Nos evangelhos e noutros livros do Novo Testamento encontram-se referências a vários membros da dinastia de Herodes o Grande. O nome Herodes é utilizado como nome de família para identificar diversos descendentes de Herodes o Grande, embora estes tivessem os seus nomes próprios.

Herodes o Grande, pertencia a uma família de idumeus (da Idumeia, região a sul da Judeia) que mantinha boas relações com Roma. O seu pai, Antipatro, foi nomeado procurador da Judeia em 47 AEC mas morreu quatro anos mais tarde. Depois de alguma conturbação na região, Marco António, que na altura era um dos homens mais poderosos da República de Roma (no triunvirato Octaviano-António-Lépido, António ficou com o Egipto e o Oriente), deu a Herodes o título de Rei da Judeia em 40 AEC. Herodes conseguiu manter-se rei, mesmo quando Marco António foi derrotado por Octaviano (Augusto), e até mesmo alargar o seu reinado a uma grande parte da Palestina, mas sempre com a condição de prestar tributo a Roma. O seu reinado foi marcado por grandes obras de construção, incluindo importantes melhorias no Templo de Jerusalém.

O Evangelho Segundo Mateus relata que Herodes ordenou a matança de todas as crianças de Belém que tivessem até dois anos de idade (episódio conhecido por “Massacre dos Inocentes”, Mateus 2:16-18). Este incidente não foi relatado por Flávio Josefo, apesar de este historiador descrever muitos outros episódios sobre a paranóica violência de Herodes contra possíveis pretendentes ao trono judaico, inclusive contra os seus próprios filhos.

Em 4 AEC, Herodes morreu e deixou o reino a três filhos, resultando na divisão do país em três estados. Esses filhos eram:

-          Arquelau ficou como etnarca da Judeia, Idumeia e Samaria; devido à sua crueldade e incompetência como regente, acabou por ser expulso pelos próprios romanos em 6 EC, sendo substituído por governadores ou procuradores nomeados directamente por Roma; em Mateus é referido que José e Maria evitaram regressar à Judeia (depois de um exílio no Egipto) porque tinham medo de Arquelau;

-          (Herodes) Antipas ficou como tetrarca (que significa “governante de uma quarta parte”) da Galiléia e mais alguns territórios da margem oriental do rio Jordão (Peréia); os evangelhos relacionam Antipas com a morte de João Baptista; apenas em Lucas é referida uma participação de Antipas no julgamento de Jesus;

-          Filipe ficou como tetrarca dos territórios da margem oriental do Mar da Galiléia (Ituréia, Gaulanitis ou montes Golã, e Traconitis); em Mateus e Marcos é referido que Herodias era casada com Filipe antes de se casar com Antipas, mas Flávio Josefo diz que Herodias era mulher de um outro filho de Herodes o Grande, chamado simplesmente Herodes e que vivia em Roma, e acrescenta que Salomé, filha de Herodias, é que casou com Filipe, o tetrarca.



Para além destes ainda há mais dois elementos da dinastia de Herodes no Novo Testamento: Agripa I e Agripa II, respectivamente neto e bisneto de Herodes o Grande, mas não são mencionados nos evangelhos. São apenas mencionados no livro Actos dos Apóstolos.


Procuradores e governadores romanos

A partir de 6 EC, a Judeia, englobando a Idumeia e a Samaria, passou a ser governada por procuradores ou governadores romanos:

-          Quirinius, um senador romano, foi governador da Síria de 6 a 9 EC; o seu mandato como procurador de Roma teria sido extensível à Judeia, durante algum tempo. Ao tomar posse organizou um censo para facilitar a colecta de impostos, o que veio a atiçar muitas revoltas populares;

-          Poncius Pilatus foi governador da Judeia de 26 a 36 EC e parece que para alguns assuntos respondia ao legado da Síria (e ao respectivo procurador) em vez de directamente a Roma, o que leva a uma disputa histórica sobre se ele teria um mandato como procurador de Roma ou apenas como prefeito;

Datas
Judeia
Galileia

4 AEC

Arquelau, etnarca (4 AEC - 6 EC), filho de Herodes o Grande


Herodes Antipas, tetrarca (4 AEC - 39 EC), filho de Herodes o Grande

2

2 EC

4

6
Coponius, prefeito (6 - 9 EC)

8

10
Ambivulus, prefeito (9 - 12 EC)

12

14
Rufus, prefeito (12 - 15 EC)

16
Valerius Gratus, prefeito (15 - 26 EC)

18

20

22

24

26
Poncius Pilatus, prefeito (26 - 36 EC)

28

30

32

34

36
Marcellus, prefeito? (37 - 41 EC)
38
40
Agrippa I, rei ( 39-44 EC), neto de Herodes o Grande

42

44
Cuspius Fadus, prefeito (44 - 46? EC) 

46
Tiberius Alexandre, prefeito (46? - 48 EC), sobrinho de Filo de Alexandria
48
Cumanus, prefeito (48 - 52 EC)
50

52
Antonius Felix, prefeito (52-60 EC)


Agrippa II, rei/tetrarca (52 - 93 EC), bisneto de Herodes o Grande


54

56

58

60

62
Festus, prefeito (60 - 62 EC) 

64
Albinus, prefeito (62 - 64 EC)

66
Florus, prefeito (64 - 66 EC)

68
Grande Revolta (66 - 73 EC)

70

72



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