domingo, 28 de outubro de 2012

Mateus - Doutrina I




Os alimentos impuros

Os judeus incluem, desde os seus primórdios, regras de alimentação na sua religiosidade, distinguindo alimentos puros de alimentos impuros. Também as regras de higiene fazem parte da religião.

Em Mateus, cujo autor deveria pertencer à facção judaica conservadora dos primeiros cristãos, Jesus tem relutância em mudar aquilo que havia na lei religiosa judaica. “Mateus” coloca na boca de Jesus as seguintes palavras:
Mateus 5:17-19 Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus.

Segundo este autor, o crente, para além de se tornar seguidor do Cristo, também tinha de seguir as regras religiosas judaicas. Para reforçar esta ideia, em Mateus, Jesus tem uma mensagem apenas para os judeus, “as ovelhas perdidas da casa de Israel”.

Mateus 10:5-6 A estes doze enviou Jesus, e ordenou-lhes, dizendo: Não ireis aos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; 
Mateus 15:24 Respondeu-lhes ele: Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.

No entanto, quando os fariseus criticaram os discípulos de Jesus por não lavarem as mãos antes de comer, Jesus respondeu:

Marcos
Mateus
Marcos 7:18-19 Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e é lançado fora? Assim declarou puros todos os alimentos.

Mateus 15:17-20 Não compreendeis que tudo o que entra pela boca desce pelo ventre, e é lançado fora? Mas o que sai da boca procede do coração; e é isso o que contamina o homem. Porque do coração procedem os maus pensamentos, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem; mas o comer sem lavar as mãos, isso não o contamina.


Em Marcos lemos que Jesus “declarou puros todos os alimentos”. Em Mateus, a mesma passagem refere-se apenas ao acto de lavar as mãos antes de comer. Porque será que “Mateus” resolveu omitir a frase onde Jesus declara “puros todos os alimentos”?

Já vimos muitas provas de que “Mateus” escreveu para uma audiência judaica. E para os judeus era inadmissível quebrar as leis religiosas da alimentação. Ainda hoje, no século XXI, os judeus (pelo menos os ortodoxos) respeitam as regras dietéticas, rejeitando a carne de porco e outros alimentos proibidos pela religião.

Os apologistas da Igreja argumentam que os judeus tinham as regras cerimoniais e as leis religiosas, e que a alimentação faria parte das regras cerimoniais as quais não estavam abrangidas pelo texto de Mateus 5:17-19. É importante referir que os judeus, desde há cerca de dois mil anos, abandonaram as práticas religiosas de sacrifícios animais, mas ainda hoje respeitam a lei dietética. Isto mostra o quão importante esta lei é e era para a sua religião.

Pode ser que a frase “Assim declarou puros todos os alimentos”, em Marcos, tenha sido uma adição muito posterior pois não ficou reflectida na versão de Mateus. Por outro lado, caso Marcos tivesse essa frase na versão inicial, obviamente que “Mateus” a iria censurar, omitindo-a na sua versão, porque violava a sua doutrina.

Mas a questão que hoje se coloca para os crentes é que a declaração de Jesus, sobre os alimentos, em Marcos torna ainda mais absurdo um episódio relatado em Actos, que decorreu já depois da morte de Jesus, em que Pedro se vê confrontado com a questão da alimentação e “o Senhor”, numa visão, convida-o a comer alimentos considerados abomináveis para os judeus (Actos 10:9-16; detalhado na secção “Pedro e o lençol gigante”).

Se, em vida, Jesus já havia declarado que todos os alimentos são puros não necessitava de aparecer a Pedro para lhe repetir o mesmo.


Baptismo de quem e em nome de quem?

No final do livro Mateus, no capítulo 28, o ressuscitado Jesus encarrega os discípulos a fazer novos crentes e a baptizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Mateus 28:19 Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; 

“Mateus” entra em contradição consigo mesmo, ao referir “todas as nações”, pois tinha escrito que Jesus e os apóstolos tinham uma missão só para os judeus (Mateus 10:5-6; Mateus 15:24).

E no livro Actos dos Apóstolos, que supostamente relata os acontecimentos dos trinta anos que se seguiram à ressurreição, vemos que os novos crentes eram baptizados apenas em nome de Jesus. 
Actos 2:38 Pedro então lhes respondeu: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo. 
Actos 8:16 Porque sobre nenhum deles havia ele descido ainda; mas somente tinham sido batizados em nome do Senhor Jesus. 
Actos 10:48 Mandou, pois, que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Então lhe rogaram que ficasse com eles por alguns dias. 
Actos 19:5 Quando ouviram isso, foram batizados em nome do Senhor Jesus.

Conclusão: estamos perante mais uma óbvia adição que entra em contradição com o que estava escrito previamente. Esta frase poderá ter sido inserida pelos adeptos do trinitarismo, a doutrina que afirma que a divindade está distribuída por três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

O capítulo 28 de Mateus, que trata dos episódios pós-ressurreição, à semelhança de parte do capítulo 16 de Marcos, parece ter sido uma adição posterior.


Reino dos Céus ou de Deus?

Uma das características que se pode observar em Mateus é o uso da expressão “Reino dos Céus” em 31 versículos, quando no resto dos evangelhos e Novo Testamento é usada a expressão “Reino de Deus”. A excepção são quatro versículos (Mateus 12:28; 19:24; 21:31; 21:43) em que Mateus é consistente com o resto das escrituras, utilizando a expressão mais habitual “Reino de Deus”.

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