sábado, 15 de dezembro de 2012

João - Outras Curiosidades








Bodas de Caná

Que podemos dizer sobre a famosa festa de casamento onde Jesus transforma água em vinho?
João 2:1-11 Três dias depois, houve um casamento em Caná da Galiléia, e estava ali a mãe de Jesus; e foi também convidado Jesus com seus discípulos para o casamento. E, tendo acabado o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Eles não têm vinho. Respondeu-lhes Jesus: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora. Disse então sua mãe aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser. Ora, estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam duas ou três metretas. Ordenou-lhe Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. Então lhes disse: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E eles o fizeram. Quando o mestre-sala provou a água tornada em vinho, não sabendo donde era, se bem que o sabiam os serventes que tinham tirado a água, chamou o mestre-sala ao noivo e lhe disse: Todo homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho. Assim deu Jesus início aos seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele.

Muitas questões se poderiam colocar acerca deste episódio:
-          Porque é que Maria fica preocupada com a falta de vinho? Segundo o mestre-sala, os convidados já tinham “bebido bem”!
-          Porque é que Jesus responde à sua mãe com palavras tão ríspidas (“que tenho eu contigo, mulher”)?
-          Porque é que Maria tinha poder para dar ordens aos servos da festa? Faria parte da organização do evento?
-          Quem viu Jesus a transformar a água em vinho? O texto sugere que apenas os servos poderiam assegurar que as talhas tinham água. Foi Maria que os obrigou a dizerem isso?
-          Quem tomou conhecimento do prodígio de Jesus? Todos os convidados da boda ou apenas os discípulos que vieram com Jesus ao casamento?



Judeus

No Evangelho Segundo João é impressionante a quantidade de vezes que é utilizada a palavra “judeu” para designar intervenientes na narrativa. Muitas personagens anónimas são referidas com a designação genérica de “judeu”. Podemos encontrar em João mais de sessenta referências com a palavra “judeu”.

João 1:19-20 E este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para que lhe perguntassem: Quem és tu? Ele, pois, confessou e não negou; sim, confessou: Eu não sou o Cristo. 
João 2:6 Ora, estavam ali postas seis talhas de pedra, para as purificações dos judeus, e em cada uma cabiam duas ou três medidas. 
João 2:13 Estando próxima a páscoa dos judeus, Jesus subiu a Jerusalém.
João 5:10 Pelo que disseram os judeus ao que fora curado: Hoje é sábado, e não te é lícito carregar o leito. 
João 5:14-18 .... Retirou-se, então, o homem, e contou aos judeus que era Jesus quem o curara. Por isso os judeus perseguiram a Jesus, porque fazia estas coisas no sábado. Mas Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, ...
...

No contexto dos evangelhos este abuso da designação “judeu” torna-se um absurdo. Ainda mais absurdo de torna quando algumas das passagens ocorrem na Judeia, a pátria dos judeus! (seria a mesma coisa que escrever-se a biografia do rei Dom Carlos com frases do género “... certo dia, estando o rei Dom Carlos em Sintra, disse-lhe um português...”  ou “... ia o rei Dom Carlos de viagem para Lisboa quando alguns portugueses aproximaram-se para disparar sobre ele...”).

Em muitas destas passagens, os judeus são difamados e apresentados como pessoas detestáveis:
João 7:1 Depois disto andava Jesus pela Galiléia; pois não queria andar pela Judeia, porque os judeus procuravam matá-lo. 
João 7:11-13 Ora, os judeus o procuravam na festa, e perguntavam: Onde está ele? ... Todavia ninguém falava dele abertamente, por medo dos judeus. 
João 8:48-52 Responderam-lhe os judeus: Não dizemos com razão que és samaritano, e que tens demônio? ... Disseram-lhe os judeus: Agora sabemos que tens demônios. ... 
João 9:22 Isso disseram seus pais, porque temiam os judeus, porquanto já tinham estes combinado que se alguém confessasse ser Jesus o Cristo, fosse expulso da sinagoga.
João 10:31 Os judeus pegaram então outra vez em pedras para o apedrejar.

Para reforçar este afastamento do judaísmo, em algumas passagens de João, Jesus faz questão de se demarcar da raça dos judeus quando fala sobre os antepassados destes:
João 6:49 Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. 
João 6:58 Este é o pão que desceu do céu; não é como o caso de vossos pais, que comeram o maná e morreram; quem comer este pão viverá para sempre.

Como Jesus diz “vossos antepassados” (ou “vossos pais”), não se inclui nessa linhagem. Isto contraria as genealogias de Mateus e Lucas onde se declara que Jesus era descendente do rei David, o que implicaria Jesus ser judeu.



Discípulo amado

O autor de João menciona ao longo do texto um “discípulo que Jesus amava”, como sendo uma personagem especial.

João 13:23-25 Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava. A esse, pois, fez Simão Pedro sinal, e lhe pediu: Pergunta-lhe de quem é que fala. Aquele discípulo, recostando-se assim ao peito de Jesus, perguntou-lhe: Senhor, quem é? 
João 19:26-27 Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem ele amava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Então disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa. 
João 20:1-2 No primeiro dia da semana Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra fora removida do sepulcro. Correu, pois, e foi ter com Simão Pedro, e o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram. 
João 21:7 Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: Senhor. Quando, pois, Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava despido, e lançou-se ao mar; 
João 21:20-22 E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, ... Ora, vendo Pedro a este, perguntou a Jesus: Senhor, e deste que será? Respondeu-lhe Jesus: Se eu quiser que ele fique até que eu venha, que tens tu com isso? Segue-me tu. ...

Que podemos saber acerca deste “discípulo amado”:
-          durante a última ceia, esteve deitado sobre o peito de Jesus;
-          esteve a falar com Jesus junto à cruz e foi viver com a mãe de Jesus depois de ele morrer;
-          recebeu, de Maria Madalena, a notícia que o corpo de Jesus tinha desaparecido do sepulcro;
-          estava com Pedro num barco, quando o ressuscitado Jesus apareceu-lhes (incidentalmente Pedro estava despido e vestiu-se para nadar!... mas... é só um pormenor...);
-          Pedro pergunta a Jesus qual o futuro deste “discípulo amado”.

Só no desfecho do livro é que o autor identifica-se como sendo este “discípulo amado”.

João 21:24 Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro.

Mas este discípulo permanece sempre misteriosamente anónimo. Para descobrirmos de quem se trata poderemos usar o raciocínio lógico e começar por analisar o seguinte texto:

João 19:25-27 Estavam em pé, junto à cruz de Jesus, sua mãe, e a irmã de sua mãe, e Maria, mulher de Clôpas, e Maria Madalena. Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem ele amava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Então disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa.

Ora, lendo a primeira frase, verificamos que, perto da cruz, estavam:
-          a mãe de Jesus;
-          uma tia de Jesus;
-          a Maria, mulher de Clopas;
-          a Maria Madalena.

Mas, na frase imediatamente a seguir temos Jesus a conversar com a sua mãe e com o “discípulo amado”. Por exclusão de partes, o “discípulo amado” teria de ser uma das seguintes mulheres:
-          a tia de Jesus;
-          ou a Maria, mulher de Clopas;
-          ou a Maria Madalena.

Mas, agora, para limitar o nossa lista de candidatas a “discípulo amado”, vamos eliminar mais uma pessoa da lista (quem será?... será a Maria?...). Vejamos o seguinte texto:

João 20:1-2 No primeiro dia da semana Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra fora removida do sepulcro. Correu, pois, e foi ter com Simão Pedro, e o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram.

Os fãs do Código Da Vinci de Dan Brown vão ficar desapontados, mas somos obrigados a eliminar Maria Madalena da lista dos candidados a “discípulo amado”, porque existe uma passagem onde Maria Madalena contracena com o “discípulo amado” (João 20:1-2). Teremos, então, uma final com as seguintes concorrentes:
-          a tia de Jesus;
-          ou a Maria, mulher de Clopas.

Eliminemos, agora, a tia de Jesus, porque não é mencionada em mais nenhum relato, e ficamos com a grande vencedora deste concurso:
-          Maria, mulher de Clopas.

Isto sim, faz sentido! Uma mulher casada teria de manter o anonimato. Não poderia divulgar o seu nome num livro onde declara ter-se deitado no peito de outro homem (mesmo que tenha sido o peito de um deus) e que tinha estado num barco com um homem despido!

Infelizmente, como o livro de João tem muito pouca consistência, não podemos tirar um real proveito do exercício de lógica que acabámos de realizar.



Nós não somos filhos daquelas ...

Durante uma longa discussão com judeus, estes respondem a Jesus que não são filhos de prostitutas.

João 8:39-41 Responderam-lhe: Nosso pai é Abraão. Disse-lhes Jesus: Se sois filhos de Abraão, fazei as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me, a mim que vos falei a verdade que de Deus ouvi; isso Abraão não fez. Vós fazeis as obras de vosso pai. Replicaram-lhe eles: Nós não somos nascidos de prostituição; temos um Pai, que é Deus.

Ora, uma resposta deste tipo implicaria um entre os dois seguintes pressupostos:
-          Jesus teria, em primeiro lugar, chamado filhos de prostitutas aos seus interlocutores, ou pelo menos teria insinuado isso de alguma forma – mas no texto não se encontra nada disso;
-          os judeus queriam insinuar que eram melhores do que Jesus por não serem filhos de prostitutas – e esta hipótese levaria a reflexões que seriam demasiado chocantes para serem consideradas.

O que dá a entender é que a resposta está completamente fora de contexto, como se dissessem uma coisa do género “porque é que temos de estar aqui a falar com este, se nós não somos filhos de prostitutas?”, terminando abruptamente a linha de raciocínio. De qualquer modo, esta longa discussão acaba numa tentativa de apedrejamento de Jesus (João 8:59).



Não me toques, toca-me

Quando Maria Madalena viu Jesus ressuscitado, Jesus não permitiu que ela o tocasse, argumentando “ainda não subi ao Pai”:
João 20:16-17 Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, virando-se, disse-lhe em hebraico: Raboni! - que quer dizer, Mestre. Disse-lhe Jesus: Deixa de me tocar, porque ainda não subi ao Pai; mas vai a meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.

Mas, poucos versículos à frente, vemos Jesus a insistir para Tomé tocar nas cicatrizes provocadas pela crucificação:
João 20:26-27 Oito dias depois estavam os discípulos outra vez ali reunidos, e Tomé com eles. Chegou Jesus, estando as portas fechadas, pôs-se no meio deles e disse: Paz seja convosco. Depois disse a Tomé: Chega aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; chega a tua mão, e mete-a no meu lado; e não mais sejas incrédulo, mas crente.


Jesus fez muitas coisas

No 2º fecho do livro de João, o autor afirma que se todas as coisas que Jesus fez fossem registadas em livros, estes não caberiam no mundo:
João 21:25 E ainda muitas outras coisas há que Jesus fez; as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que nem ainda no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem.

No entanto, o autor do livro de Actos, diz que escreveu sobre “todas as coisas que Jesus fez”:
Actos 1:1 Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo quanto Jesus começou a fazer e ensinar, ...

Será que o autor de Actos encheu “o mundo inteiro” de livros para escrever tudo o que Jesus fez?




2 comentários:

  1. Há uns 50 anos mais ou menos,conheci em Lisboa um goês que me disse que na India havia uma Seita religiosa que afirmava que o o lendário judeu Jesus,tinha lá vivido.Talvez que se possa admitir que isto seja verdade,pois o Jesus aos 12 anos de idade com sua inteligência de menino,no Templo causou espanto aos Rabinos, mas depois não se fala mais dêste menino prodígio e só reaparece aos 30 ou 33 anos.Se êle foi numa caravana de mercadores até à India e lá permaneceu uns anos,terá «bebido»no Induísmo outra filosofia,outra doutrina e também terá aprendido malabarismo,prestidigitação,hipnotismo e outros truques de magia e depois regressou à Palestina prégando uma nova doutrina que chocava com a Lei de Moisés e os seus truques de magia eram tidos pelo Povo como se fôssem milagres.E os Rabinos denunciaram-no a Pilatos como um inimigo de Roma que arregimentava multidões.E então foi condenado à pena de morte.E depois foram judeus dissidentes e discípulos de Jesus que na diáspora e influenciados pelo helenismo deram ao Jesus o nome grego de Cristo e disseram que êle era o filho de Deus e fundaram o Cristianismo.Quer seja lenda ou não,eu que sou ateu,não creio em Deus nem nesta historieta.Simplesmente a relato como o goês me contou.

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    1. Sim, existem muitas historietas sobre um alegado Jesus (ou com outro nome...) que viveu na India.
      Mas as fontes destas informações não têm consistência - ou seja, têm ainda menos consistência que os relatos dos evangelhos.
      Cumprimentos!

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