sábado, 8 de dezembro de 2012

João vs Sinópticos II - Apóstolos





Apóstolos



Em João não existe a distinção entre apóstolos e outros discípulos, todos os seguidores são chamados discípulos. A palavra “apóstolo” nunca ocorre mas existe a menção tímida da expressão “os doze” por quatro vezes:
-          no capítulo 6, em três versículos quase consecutivos (João 6:67, 70, 71) sobre Judas;
-          quando se refere a Tomé (João 20:24) como sendo um dos doze.

O autor nunca enumera quem são “os doze”. Não faz muito sentido que o autor mencione esta expressão sem enumerar quem são esses doze a não ser que a intenção do autor fosse escrever um livro que complementasse outro ou outros; um livro que contasse o que os outros ainda não contaram. Ou, então, o mais importante para o autor seria transmitir que Jesus estava rodeado por doze apóstolos, embora a maior parte destes fossem irrelevantes para a história, conferindo-lhe uma configuração zodiacal, como se rodeado pelos doze signos do Zodíaco.

Nem todas as personagens que nos evangelhos sinópticos são identificadas como apóstolos são sequer referidas em João. Apenas as seguintes personagens foram contempladas na composição de “João”:
-          Simão Pedro é referido em muitas situações;
-          André, irmão de Simão Pedro, é referido como sendo inicialmente discípulo de João Baptista;
-          Filipe também recebe muita atenção na redacção de João;
-          Tomé, é chamado de Gémeo (gr. Didymus, mas em aramaico Tomé significa “Gémeo” também), aparece como céptico sobre a aparição de Jesus;
-          Judas Iscariotes, como nos outros evangelhos, é referido no episódio da traição mas também em passagens anteriores (João 6:71; 12:4; 13:2) constantemente referido como “aquele que o iria traír”; para além disso Judas aqui é tesoureiro do grupo;
-          não há referências directas a Tiago e seu irmão João, sendo apenas referidos como “os filhos de Zebedeu” apenas num versículo que faz parte de uma provável inserção posterior (João 21:2).


Nas passagens onde estes discípulos são referidos, também surgem os seguintes, desconhecidos nos sinópticos mas aparentemente com a mesma importância:
-          Natanael de Caná;
-          um anónimo referido como “o discípulo que Jesus amava”;


Para defender a coerência entre João e os sinópticos, a tradição defende que Natanael é o apóstolo Bartolomeu, sintetizando o nome Natanael bar Tolomeu (filho de Tolomeu), e que o “discípulo que Jesus amava” é o apóstolo João filho de Zebedeu.

“João” conta de uma maneira muito diferente como é que André e Pedro foram recrutados. Diz que André e outro (anónimo) eram inicialmente discípulos de João Baptista e que se juntaram a Jesus. Depois, André foi buscar o seu irmão Pedro. Tudo isto passa-se em Betânia “além do Jordão” (na margem oriental do Jordão) e não na Galiléia. Nunca se menciona que alguns discípulos eram pescadores, a não ser no capítulo 21 (que pensa-se ser, todo o capítulo, uma inserção tardia no Evangelho de João) em que Pedro diz “Vou pescar”.
João 1:28-43 Estas coisas aconteceram em Betânia, além do Jordão, onde João estava batizando. No dia seguinte João viu Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. ...No dia seguinte João estava outra vez ali, com dois dos seus discípulos ... Aqueles dois discípulos ouviram-no dizer isto, e seguiram a Jesus.  ... André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João falar, e que seguiram a Jesus. Ele achou primeiro a seu irmão Simão, e disse-lhe: Havemos achado o Messias (que, traduzido, quer dizer Cristo). E o levou a Jesus. Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João, tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro). No dia seguinte Jesus resolveu partir para a Galiléia, e achando a Filipe disse-lhe: Segue-me. ...

Para além disso, estes discípulos reconhecem instantaneamente Jesus como sendo o Messias, Filho de Deus e Rei de Israel. Não são nada semelhantes àqueles cépticos apáticos que aparecem nos primeiros capítulos de Marcos.

Os seguintes personagens, identificados como apóstolos nos sinópticos, são completamente ignorados por “João”:
-          Mateus (que no Evangelho Segundo Mateus é o cobrador de impostos);
-          Bartolomeu (sem considerar a tradicional identificação com Natanael);
-          Tiago, filho de Alfeu;
-          Tadeu; mas é mencionado um Judas “não Iscariotes” que aparece fazendo apenas uma pergunta a Jesus (João 14:22); este é, por tradição, o mesmo que o Judas filho de Tiago que aparece em Lucas no lugar de um Tadeu conforme os livros de Marcos e Mateus; estes dois nomes são sintetizados num só: Judas Tadeu;
-          Simão, o zelote (ou cananita);


Como atenuante para “João”, nesta lista de personagens omitidas, se exceptuarmos Mateus, estas têm pouca relevância nos sinópticos. Vejamos, em sinopse, uma comparação dos nomes dos apóstolos nos quatro evangelhos:

Marcos 3:16-19
Mateus 10:2-4
Lucas 6:14-16
João
(*) Simão Pedro 
(*) Simão Pedro
(*) Simão Pedro
(*) Simão Pedro, Cefas
(*) André, irmão de Pedro
André, irmão de Pedro
(*) André, irmão de Pedro
(*) André, irmão de Pedro
(*) Tiago, filho de Zebedeu
(*) Tiago, filho de Zebedeu
(*) Tiago, filho de Zebedeu
Os filhos de Zebedeu (só no capítulo 21)
(*) João, irmão de Tiago
(*) João, irmão de Tiago
(*) João, irmão de Tiago
Filipe
Filipe
Filipe
(*) Filipe
Bartolomeu
Bartolomeu
Bartolomeu
-
Mateus (o cobrador de impostos chama-se Levi, filho de Alfeu)
(*) Mateus, o cobrador de impostos
Mateus (o cobrador de impostos chama-se Levi)
-
Tomé
Tomé
Tomé
(*) Tomé, o Gémeo
Tiago, filho de Alfeu
Tiago, filho de Alfeu
Tiago, filho de Alfeu
-
Tadeu
Tadeu
Judas, filho de Tiago
(*) Judas “não Iscariotes”
Simão, o cananeu
Simão Cananeu
Simão, o zelote
-
(*) Judas Iscariotes
(*) Judas Iscariotes
(*) Judas Iscariotes
(*) Judas Iscariotes


Neste quadro  estão assinaladas, com um asterisco (*), as personagens com importância na narrativa, isto é, aquelas que intervêm na acção ou no diálogo de cada evangelho e não aquelas que simplesmente são nomeadas. Podemos ver que, em João, as personagens Filipe e Tomé ganham profundidade e os filhos de Zebedeu (supostamente Tiago e João, embora não sejam referidos por nome) perdem notoriedade. E, para mais, os filhos de Zebedeu só são referidos no capítulo final, o capítulo 21 que, certamente, foi adicionado mais tarde.

A diferença mais flagrante é a “despromoção” de Tiago e João, que, juntamente com Pedro, eram os companheiros da máxima confiança de Jesus nos evangelhos sinópticos. Para compensar esta perda de notoriedade, a tradição tratou de afirmar que João foi escrito pelo próprio apóstolo João, filho de Zebedeu, o qual não quis chamar muita atenção para o seu próprio papel no evangelho, escondendo-se no anonimato de “o discípulo amado”.

Completamente obscuros permanecem Tiago filho de Alfeu e Simão Cananeu (ou “o zelote”), no que toca às descrições encontradas no Novo Testamento. No entanto, a elasticidade das narrativas evangélicas, permite uma reconstrução interessante: partindo da lista de irmãos de Jesus, conforme descrita em Marcos, podemos facilmente associá-la à lista de apóstolos, conforme a enumeração de Lucas.


Irmãos de Jesus (Marcos 6:3)
Apóstolos (Lucas 6:14-16)
José
Tomé (aramaico Tôm, gémeo) não era um nome próprio, seria um irmão gémeo de Jesus; portanto, José seria Tomé;
Tiago
Tiago, filho de Alfeu (Alfeu incluido talvez por manipulação da narrativa);
Judas
Judas filho de Tiago, pode ter sido, numa versão anterior de Lucas, “Judas irmão de Tiago”;
Simão
Simão, o zelote


Será que houve, algures no processo de construção das narrativas evangélicas, o desejo de incluir os “irmãos de Jesus” na lista de “apóstolos”? Será que houve, posteriormente, uma tentativa de mascarar esse intuito?




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