sábado, 5 de janeiro de 2013

Paixão III - O Julgamento






Os autores dos evangelhos fizeram todas as diligências, que a sua arte de escrita permitiu, para culpar os judeus e dar uma imagem positiva dos romanos - em particular de Pilatos - no que toca à sentença e morte de Jesus. Esta posição não é nada consistente com os dados históricos, que mostram um Pilatos cruel e impiedoso, mas permitiu que o cristianismo pudesse desenvolver-se no seio do Império Romano.

Os diversos relatos sobre o julgamento de Jesus têm algumas inconsistências que, em conjunto, põem em dúvida todo este episódio.


Sumo-sacerdote

Ao compararmos o texto de João com o dos sinópticos, ficamos sem saber se Jesus foi levado directamente ao sumo-sacerdote ou não:

Marcos 14:53
Mateus 26:57
Lucas 22:54
João 18:13,24
Foi levado directamente ao sumo-sacerdote (que chama-se Caifás, em Mateus)
Foi levado primeiro a Anás, sogro de Caifás, e depois a Caifás o sumo-sacerdote


No Evangelho de João, é introduzida uma novidade: Jesus foi primeiro levado a Anás, alegadamente o sogro de Caifás. Anás é também referido em Lucas numa lista de personagens com o objectivo de enquadrar historicamente a data em que João Baptista começou a aparecer em público (Lucas 3:1-2). “Lucas” diz que Anás e Caifás eram sumo-sacerdotes na data em que ocorreram os acontecimentos que relata. Esta é uma das provas da influência que Lucas teve na redacção de João:
Lucas 3:1-2 No décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judeia, ... sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio a palavra de Deus a João, filho de Zacarias, no deserto.

Mas em termos de enquadramento histórico, registos indicam que Anás (ou Ananias ben Seth) foi sumo-sacerdote de 6 a 15 EC e que Caifás foi sumo-sacerdote de 18 a 36 EC. Os apologistas da igreja costumam afirmar que, naquela data, haviam dois sumo-sacerdotes em simultâneo em Jerusalém: Anás e Caifás. Ora isso seria o mesmo que haver simultaneamente dois Papas em Roma.


Sacerdotes e escribas

Vejamos, agora, quando é que os sacerdotes e escribas se reuniram para interrogar Jesus:

Marcos 14:53
Mateus 26:57
Lucas 22:66
João
Na noite da detenção, depois de ser levado ao sumo-sacerdote
Na noite da detenção, antes de ser levado ao sumo-sacerdote
Na manhã seguinte à detenção
Só menciona que o sumo-sacerdote interrogou Jesus


Em Marcos e Mateus, os sacerdotes e escribas reunem-se de emergência e à noite para interrogar Jesus. Isto põe em causa se estes homens teriam direito a uma vida privada, principalmente na época das maiores festividades judaicas em que os sacerdotes teriam tanto trabalho.

Outra característica das versões de Marcos e Mateus é que os sacerdotes formularam, naquela mesma noite, a condenação de Jesus à morte (Marcos 14:64; Mateus 26:66).


Barrabás

Os evangelhos mencionam que Pilatos invocou o costume de se libertar um preso na Páscoa, por isso oferece a escolha aos judeus entre Barrabás e Jesus, um deles seria libertado. Mas de onde vinha esse costume do qual não se encontram provas históricas?

Marcos 15:6
Mateus 27:15
Lucas 23:17
João 18:39
Era costume do próprio Pilatos
Era uma obrigação de Pilatos (o versículo é uma reconhecida inserção)
Era um costume dos próprios judeus.


Pilatos, perante a multidão, coloca Jesus lado a lado com um criminoso chamado Barrabás. Não fica claro qual era a acusação que pendia sobre Barrabás, isto é, de que crimes era acusado:

Marcos 15:7
Mateus 27:16
Lucas 23:19
João 18:40
Agitador e assassino
Um preso notório
Agitador e assassino
Ladrão


No fim os judeus acabam por escolher libertar Barrabás. No caso do relato de João, até poderia ser possível, pois Barrabás é declarado como um simples ladrão. No caso de Marcos e Lucas, não seria nada provável o governador romano libertar um agitador e assassino. O autor de Mateus provavelmente apercebeu-se disso e, portanto, omite que Barrabás seria um agitador e assassino, qualificando-o apenas como um “preso notório”.

Este é mais um episódio que os autores dos evangelhos escreveram para convencer o leitores do quão magnânimo Pilatos foi no julgamento de Jesus e o quão culpados foram os judeus de não terem aproveitado a oportunidade que Pilatos lhes ofereceu para absolver Jesus.

Mas agora estamos em condições para avançar para a explicação do porquê desta personagem ter aparecido no texto de Marcos e depois propagado para os outros evangelhos.

Em alguns textos fora do Novo Testamento, Barrabás é chamado de Jesus Barrabás, mas nos evangelhos canónicos ficou apenas o nome Barrabás. Ora, Barrabás em aramaico significa “Filho do Pai” (bar-Abbas) e o objectivo era escolher quem é que ficaria livre e quem é que seria morto:
-          Jesus Filho do Pai, ou
-          Jesus Filho do Homem, Rei dos Judeus.

Barrabás era o alter-ego de Jesus, ou seja, o Filho do Pai que ficaria livre e Jesus, o Filho do Homem, o Rei do Judeus, seria morto. Os autores dos evangelhos, particularmente “Marcos”, ou não entenderam esta mensagem oculta e optaram por dar outro sentido à personagem de Barrabás, descrevendo-o como um vulgar fora-da-lei, ou então deturparam deliberadamente para que a reconstrução da verdadeira história se tornasse um desafio difícil (lembremo-nos da doutrina de Marcos e da mensagem enigmática de Jesus, e também que naquele tempo não haviam passatempos como o Trivial Pursuit...).


Pilatos é bom, Herodes nem por isso

Apenas “Lucas” menciona que Pilatos, depois de saber que Jesus era galileu o enviou a Herodes Antipas, que estava em Jerusalém a festejar a Páscoa, justificando que este é que era o responsável pela Galiléia e pelos galileus. Os outros evangelhos não mencionam nenhuma intervenção de Herodes no julgamento de Jesus.

Marcos
Mateus
Lucas 23:7-11
João
Não menciona Herodes
Pilatos enviou Jesus a Herodes, que o interrogou e depois devolveu a Pilatos.
Não menciona Herodes


Uma vez que “Lucas” é o único autor que diz que Jesus foi interrogado por Herodes, também entra em inconsistência sobre quem escarneceu de Jesus e colocou-lhe o manto púrpura:

Marcos 15
Mateus 27
Lucas 23
João 19
Pilatos manda espancar Jesus.
Soldados de Pilatos colocam um manto púrpura e uma coroa de espinhos e escarnecem de Jesus.
Guardas de Herodes escarnecem de Jesus e colocam-lhe um manto púrpura.
Pilatos diz que pode castigar Jesus mas não executar. Pilatos não manda espancar Jesus.
Pilatos manda espancar Jesus.
Soldados de Pilatos colocam um manto púrpura e uma coroa de espinhos e escarnecem de Jesus.


Nesta passagem, “Lucas” vai mais além que os outros escritores do evangelho na absolvição da culpa de Pilatos e dos soldados romanos, ao transferir para Herodes e sua guarda o episódio em que Jesus é escarnecido e desacreditado. O Pilatos de Lucas é uma pessoa realmente impecável, pois nem sequer manda açoitar Jesus antes da crucificação.


Reconstrução a partir dos quatro evangelhos

Segundo Marcos, Jesus foi preso, julgado e crucificado em muito poucas horas, pois foi preso de noite, algum tempo após a ceia de Páscoa, e crucificado às 9h da manhã do dia seguinte.
Combinando as informações dos quatro evangelhos, façamos a reconstrução de todo o processo desde a detenção de Jesus até à sua crucificação:

Secção
Descrição
João 18:12,13
De noite, Jesus é detido e levado para a casa de Anás, sogro de Caifás, para ser interrogado
João 18:24
Jesus é levado à casa do sumo sacerdote (Caifás)
Marcos 14:53
Na casa de Caifás reunem-se todos os principais dos sacerdotes, e os anciãos, e os escribas
Marcos 14:55-59
Tentam encontrar testemunhas de acusação, sem sucesso, porque estas contradiziam-se
Lucas 22:63-65
Jesus é mantido preso durante o resto da noite, esperando pelo julgamento no Sinédrio (tribunal) pela manhã
Marcos 15:1
Ao amanhecer, mais um julgamento com todo o Sinédrio: decidem levar Jesus a Pilatos
Lucas 23:4-5
Interrogado por Pilatos, Jesus declara-se inocente; judeus fazem mais acusações
Lucas 23:7
Pilatos resolve enviar Jesus a Herodes Antipas, porque Jesus era da Galiléia
Lucas 23:9
Jesus é interrogado por Herodes Ântipas
Lucas 23:11
Jesus é humilhado e vestido com um manto real; Herodes devolve Jesus a Pilatos
Lucas 23:13
Pilatos reúne, mais uma vez, os sacerdotes, os magistrados e o povo
Lucas 23:14-24
Pilatos, contra a opinião dos judeus, defende a inocência de Jesus, mas aqueles exigem a crucificação
Mateus 27:15-26
Pilatos pede para o povo escolher, entre Jesus e Barrabás, quem deve ser solto;o povo escolhe o criminoso Barrabás
João 19:1-13
Pilatos insiste na libertação de Jesus
Mateus 27:26
Jesus é açoitado
Mateus 27:27-31
Jesus é despido, vestido com um manto e uma coroa de espinhos, é humilhado e, depois, vestido novamente com suas roupas
Marcos 15:25
Jesus é crucificado às 9h da manhã (terceira hora do dia, considerando que a primeira é às 7h da manhã)

Tudo isso numa só noite e até às nove horas da manhã do dia seguinte!
Numa altura em que toda a gente estava ocupada com a Páscoa, a mais importante festividade judaica! Os sacerdotes, principalmente, teriam muito trabalho para preparar e conduzir as festividades!




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