domingo, 20 de outubro de 2013

Século II - Papias de Hierápolis




Papias

Papias (? - 160?), de Hierapolis (Frígia, actual Turquia), escreveu Interpretações dos Dizeres do Senhor, hoje inexistente mas citado por Ireneu e Eusébio. Este último, apesar de o citar, declara-o como “mentecapto”. Possivelmente Papias teria o Evangelho Q como fonte dos “dizeres do Senhor”

Segundo o que é citado, Papias afirmou ter conhecido as filhas do apóstolo Filipe e um tal João, o Idoso. Também afirmou dar mais valor às palavras que ouviu directamente dos “anciãos” ou dos seus seguidores do que aos escritos.

Eusébio cita Papias (200 anos depois) de um modo evidentemente depreciativo (História da Igreja, III, 39).


Outra versão da morte de Judas

Papias de Hierápolis, dá uma terceira versão sobre a morte de Judas, a acrescentar às duas existentes no Novo Testamento. Apolinário de Laodiceia, referindo-se a Judas Iscariotes, cita Papias da seguinte forma:
Judas não morreu enforcado, mas continuou vivo, pois a corda foi partida antes de ele sufocar. E isto está claro nos Actos dos Apóstolos, que ele caíu de cabeça e as suas entranhas derramaram-se. E Papias, o discípulo de João, recorda isto de modo ainda mais claro, dizendo no seu quarto livro das Interpretações dos Dizeres do Senhor:
Judas caminhou neste mundo como um terrível exemplo de impiedade. Ficou tão inchado na carne que nem sequer cabia onde uma carroça facilmente passava
[- nem sequer a sua cabeça passava sozinha. As suas pálpebras eram tão inchadas que ele não conseguia ver a luz e os seus olhos não podiam ser vistos nem sequer por um médico com instrumentos, tal era a profundidade em que estavam.
E os seus genitais pareciam disfigurados e nauseantes. Quando defecava, vermes saíam do seu corpo através das suas partes privadas, devido aos seus pecados. Depois de muitas agonias e punições, ele morreu no seu próprio lugar. Esse lugar está desabitado e desolado, e até hoje ninguém o pode visitar sem tapar as narinas tal foi a quantidade de imundície libertada pelo seu corpo que ficou espalhada no solo.] 
[Tendo sido esmagado por uma carroça, as suas entranhas derramaram-se.] 

Relembrando as duas versões que existem no Novo Testamento (que pode ser lida aqui), vemos que Papias deu preferência à versão de Actos e criou um episódio repugnante para a história do fim da vida de Judas:

Mateus
Actos
Judas mostra-se arrependido da traição
Judas não se arrepende
Judas devolveu o dinheiro da traição e os sacerdotes compraram um terreno (de um oleiro, como se fosse relevante...) com esse dinheiro;
Judas comprou um terreno com o dinheiro da traição;
Judas cometeu suicídio enforcando-se;
Judas caiu (presumivelmente de um local alto - entendendo-se uma queda acidental) e, quando caiu, as suas entranhas espalharam-se pelo solo;
o Campo de Sangue chama-se assim porque foi comprado com o “preço de sangue”;
o Campo de Sangue chama-se assim por causa das entranhas derramadas;

  

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Século II - Inácio de Antioquia




Inácio de Antioquia


Inácio de Antioquia (50 - 117 EC), na sua carta aos Esmirniotas, por volta de 110 EC, revela preocupação com os docetistas (gr. dokein, aparência) – cristãos que não acreditavam que o Filho de Deus tinha encarnado em Jesus da Nazaré.

Carta de Inácio aos Esmirniotas
(Cap 2)
Pois ele sofreu todas estas coisas por nossa causa. E ele verdadeiramente sofreu, tanto quanto verdadeiramente ressuscitou; não como certos infiéis dizem, que sofreu apenas na aparência; eles é que existem apenas na aparência, sem corpo, como demónios. 
...
(Cap 7)
Os docetistas abstêm-se da Eucaristia e da oração, pois eles não confessam que ali está a carne do nosso salvador, Jesus Cristo, que sofreu por nossos pecados, e que o Pai, em sua bondade, ressuscitou. Eles que negam o presente de Deus morrem nas suas disputas."


Repare-se que os docetistas eram cristãos, tal como Inácio. A diferença é defendiam outra doutrina sobre Cristo. A contenda era que Inácio defendia o Cristo-Homem como Jesus da Nazaré, enquanto os docetistas criam num Cristo que apenas apareceu e revelou-se com aparência humana.

Se no tempo de Inácio, havia cristãos que não criam que o Cristo se tinha tornado homem, é difícil crer que a figura de Jesus da Nazaré tenha dado origem ao Cristo. A hipótese mais plausível é que o Cristo deu origem à figura de Jesus da Nazaré.


Docetismo

Docetismo é amplamente definido como qualquer ensinamento que afirma que o corpo de Jesus era ausente ou ilusório.

Na terminologia cristã, docetismo (gr. dokein (parecer) / dókēsis (aparição, fantasma)), pode ser definido como a doutrina segundo a qual o fenómeno de Cristo, sua existência histórica e corporal, e, portanto, acima de tudo, a forma humana de Jesus, era totalmente mera aparência, sem qualquer verdadeira realidade.

Em termos gerais é tomado como a crença de que Jesus só parecia ser humano, e que a sua forma humana era uma ilusão. A palavra Dokētaí (ilusionistas) referindo-se a grupos que negavam a humanidade de Jesus, ocorreu pela primeira vez numa carta do Bispo Serapião de Antioquia (197-203 EC), que descobriu a doutrina do Evangelho de Pedro, durante uma visita pastoral a uma comunidade cristã, e mais tarde a condenou como uma falsificação. Esta contenda parece ter surgido sobre disputas teológicas a respeito do significado, figurativo ou literal, de uma frase do Evangelho de João: "o Verbo se fez carne"

Duas variedades foram amplamente conhecidas:
-          numa versão (como, por exemplo, no Marcionismo) Cristo era tão divino que não poderia ter sido humano, uma vez que Deus não tinha um corpo material, e, portanto, não poderia sofrer fisicamente. Jesus só aparentava ser um homem de carne e osso; seu corpo era um fantasma;

-          outros grupos que foram acusados de docetismo declaravam que Jesus era um homem na carne, mas o Cristo era uma entidade separada que entrou no corpo de Jesus na forma de uma pomba no seu baptismo, lhe deu o poder de realizar milagres, e abandonou-o após a sua morte na cruz.

Numa crítica sobre a teologia de Clemente de Alexandria, o patriarca de Constantinopla, Photius (810 - 893 EC), na sua obra Myriobiblon ("10 mil livros") considerou que as opiniões de Clemente refletiam uma visão quase-docética da natureza de Cristo, escrevendo que "[Clemente] alucina que a Palavra não era carne, mas apenas parecia ser."

O Docetismo foi inequivocamente rejeitado pelo primeiro Concílio de Nicéia, em 325 e é considerada como herética pela Igreja Católica, Igreja Ortodoxa e Igreja Copta. No entanto resistiu como doutrina durante uma boa parte do primeiro milênio EC.

sábado, 12 de outubro de 2013

Século II - O Triunfo dos Evangelhos



O triunfo dos evangelhos

A história do Jesus Nazareno foi crescendo em detalhe e versões até existirem numerosas obras escritas; o Cristo mítico das cartas de Paulo é ultrapassado pelo Jesus dos evangelhos.
Foram, no entanto, necessários muitos anos para os evangelhos encontrarem consenso entre os cristãos:

-          110 EC – Inácio De Antioquia na sua carta aos Esmirniotas, por volta de 110 EC, revela preocupação com os docetistas – cristãos que não acreditavam que o Filho de Deus tinha encarnado em Jesus da Nazaré.

-          135 EC – Justino Mártir escreveu no Diálogo com Trifon: "[Trifon disse:] ‘mas Cristo, se realmente nasceu e existe, é desconhecido, não se conhece a ele próprio, não tem poder até que Elias venha e faça a sua unção e o mostre a todos. E vocês [cristãos], aceitando um relato insustentável, inventam Cristo e morrem em sua defesa’”. É de presumir que este Trifon combatia o cristianismo e Justino escreveu uma apologia contra os ataques de Trifon. Nesta apologia Justino afirma que o Diabo antecipou-se a Jesus e criou os mitos de Dionisos, Hercules e Esculápio (Diálogo com Trifon, capítulo LXIX).

-          142 EC – Marcion de Sínope produziu um evangelho (semelhante ao de Lucas) e propôs este e apenas dez cartas de Paulo para formar um cânon de escrituras cristãs.

-          150 EC – Papias (segundo Eusébio, 200 anos depois, porque as obras de Papias não sobreviveram) escreveu Interpretações dos Dizeres do Senhor, possivelmente baseado no Evangelho Q, onde também afirma ter conhecido as filhas do apóstolo Filipe e um tal João, o Idoso. Papias afirmou dar mais valor às palavras que ouviu directamente dos “anciãos” ou dos seus seguidores do que aos escritos. Eusébio cita Papias de um modo evidentemente depreciativo (História da Igreja, III, 39).

-          160 EC – Justino menciona alguns episódios da Paixão e outros episódios encontrados nos evangelhos, a que se refere como “o Evangelho”, sem especificar nenhum por nome nem o número de versões conhecidas.

-          172 EC – Tatiano refere-se a quatro evangelhos (sem os nomear) que obteve de Justino (que foi morto em 168 EC pelo prefeito de Roma) e harmonizou-os numa obra única, o Diatessaron, onde omitiu as genealogias e tudo o que indicasse que Jesus provinha da linhagem de David.

-          178 EC – Celsus escreveu na Verdadeira Palavra: "Obviamente os cristãos utilizaram... mitos... ao fabricarem a história do nascimento de Jesus... É claro que os escritos cristãos são uma mentira e as suas fábulas não são suficientes para esconder esta monstruosa ficção". As obras de Celsus, por serem demasiado danosas para os cristãos, foram todas destruídas mas algumas frases sobreviveram em obras de apologistas cristãos como, por exemplo, Orígenes em Contra Celsus. Na sua obra, Celsus terá referido que Jesus Nazareno era filho de um soldado romano chamado Panthera (ou Pandera).

-          185 EC - Ireneu em Contra Heresias explica a “razão” para haver apenas quatro evangelhos verdadeiros: “... porque existem quatro direcções no mundo, quatro ventos, quatro criaturas (referindo-se a Revelação 4:7) ...” (Contra Heresias III, 11). Ireneu é o primeiro a dar o nome aos quatro evangelhos canónicos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Afirmou que a vida pública de Jesus durou desde os 30 anos até, pelo menos, aos 40 anos.



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Século II - Tácito, Suetónio e Plínio o Jovem




Século II - Tácito, Suetónio e Plínio o Jovem

Os apologistas cristãos, para além do Testemonium Flavianum, uma passagem alegadamente escrita por Flávio Josefo, referem-se habitualmente a três passagens de autores do início do segundo século – Tácito, Suetónio e Plínio o Jovem – em defesa da tese de um Jesus Histórico.


Tácito

O autor Tácito (c. 56 a 117 EC) escreveu sobre os imperadores romanos desde Augusto até Domiciano, cobrindo mais de cem anos de história do Império Romano. Numa das suas obras, escrita por volta de 116 EC, aparece a seguinte passagem (acerca do incêndio de Roma do ano 64 EC):
Anais, XV, 44 
... Nenhum esforço humano, nem os gestos de generosidade do imperador [Nero], nem os ritos destinados a aplacar [a ira] dos deuses, faziam cessar o boato infame de que o incêndio havia sido planeado nas altas esferas. Assim, para tentar abafar esse boato, Nero acusou, culpou e entregou às torturas mais deprimentes um grupo de pessoas que eram detestadas pelo seu comportamento, popularmente chamados "cristãos".
Este nome provém de Cristo, que no tempo de Tibério foi condenado à morte pelo procurador Pôncio Pilatos. Reprimida por pouco tempo, essa abominável superstição surgiu novamente, não apenas na Judeia, o seu lugar de origem, mas também em Roma, onde tudo aquilo que há de mau e vergonhoso no mundo chega e se espalha.


Esta passagem é apresentada como defesa de um Jesus histórico. Mas vejamos os problemas:
-          Tácito escreveu cerca de oitenta anos depois da suposta crucificação de Jesus; nesta época já os cristãos (e os não-cristãos) possuíam as narrativas evangélicas;

-          este autor não menciona um homem com um nome próprio Jesus, mas um homem que era conhecido pelo título de Cristo; e no primeiro século haviam muitos a reclamar o título de Cristo (Messias);

-          refere-se a Pilatos como procurador e não como prefeito (para um historiador romano seria uma grande diferença); um procurador respondia directamente perante o Senado ou ao Imperador, enquanto um prefeito respondia a um procurador;

-          a passagem não é citada por nenhum dos grandes apologistas cristãos dos primeiros séculos, incluindo Eusébio (século IV);


Suetónio

O historiador Suetónio (c. 69 a 140 EC) escreveu, por volta 112 EC, sobre o imperador Cláudio:
Vidas dos Doze Césares, Livro V, Vida de Cláudio, 25, 4
... Porque os judeus faziam constantes distúrbios por instigação de Crestus, ele [Cláudio] expulsou-os de Roma.


Aqui os problemas são:
-          tal como Tácito, Suetónio escreveu cerca de oitenta anos depois da suposta crucificação de Jesus;

-          não menciona cristãos, mas judeus; mas mesmo que falasse de cristãos, não constituiria prova da existência do Jesus Nazareno dos evangelhos;

-          não fala de Jesus nem de Cristo mas de Crestus, um nome latino vulgar, principalmente entre escravos;

-          o texto presume que este Crestus residia em Roma, um local sobre o qual nunca é dito que Jesus tenha visitado.


Esta passagem é, para mais, atractiva para os apologistas cristãos, porque confirma um texto de Actos:
Actos 18:1-2 Depois disto Paulo partiu para Atenas e chegou a Corinto. E encontrando um judeu por nome Áqüila, natural do Ponto, que pouco antes viera da Itália, e Priscila, sua mulher (porque Cláudio tinha decretado que todos os judeus saíssem de Roma), foi ter com eles,


Plínio o Jovem

Plínio o Jovem (c. 61 a 114 EC), na qualidade de governador da Bitínia e de Ponto, escreveu uma carta ao imperador Trajano, por volta 112 EC, inquirindo-lhe sobre o que fazer aos cristãos locais: 
Carta de Plínio a Trajano (carta 97) 
As acusações avolumaram-se, como costume, por causa dos procedimentos envolvidos, e ocorreram vários incidentes. Foi publicado um documento anónimo contendo nomes de muitas pessoas. Absolvi aqueles que negaram ser ou ter sido cristãos, quando invocaram os deuses por palavras ditadas por mim e rezaram com incenso e vinho perante a tua imagem ... e as dos Deuses e, mais importante, amaldiçoaram Cristo – o que, segundo se diz, nenhum verdadeiro cristão faria. Outros, nomeados pelo informador [anónimo], declararam ser cristãos, mas depois negaram, ... Todos adoraram a tua imagem e as dos Deuses e amaldiçoaram Cristo.
No entanto asseguraram-me que o que precipitou a acusação foi o costume de reunirem-se num dia fixo, antes do nascer do sol, para rezarem a Cristo como se este fosse um deus; e fazerem um juramento, de não cometer qualquer crime, nem cometer roubo ou saque, ou adultério, nem quebrar a palavra, e nem negar devolver uma quantia emprestada quando exigida. Após fazerem isto, despediam-se e encontravam-se novamente para a refeição...


A informação mais importante nesta passagem é que Plínio menciona os cristãos como veneradores de Cristo mas nunca fala de um Jesus.



Ver também:
  - Vespasiano, Messias e Milagreiro


Referências web:
  - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Tacitus/Annals/15B*.html
  - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Suetonius/12Caesars/Claudius*.html
  - http://www.earlychristianwritings.com/text/pliny.html


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Século I - Vespasiano Messias e Milagreiro




Vespasiano Messias, segundo Flávio Josefo

O autor judeo-romano Flávio Josefo, originalmente Yussef ben Matatias, nasceu em Jerusalém por volta de 37 EC e era de uma família da aristocracia sacerdotal judaica. Aos 30 anos participou na Grande Revolta Judaica contra os Romanos de 66 a 67 EC, como líder militar na Galileia.

Nesta guerra, os romanos foram liderados, inicialmente, por Vespasiano que conseguiu conter a revolta em toda a Galileia.

Quando a vitória dos romanos se tornou evidente, Josefo preferiu ser capturado pelas tropas romanas, do que participar num pacto suicida entre os seus companheiros de guerra. De prisioneiro rapidamente passou a protegido do general (depois imperador) romano Flávio Vespasiano e do filho Flávio Tito e, devido a isso, adotou o nome destes. Pouco depois da queda de Jerusalém, seguiu Tito até Roma e lá recebeu a cidadania romana, uma pensão, assim como o livre acesso à corte de Tito e de Domiciano.

Data
Acontecimentos
66 EC
Início da Grande Revolta dos Judeus contra os romanos. Josefo é comandante militar na Galiléia. Vespasiano é comissionado por Nero para conter a revolta.
67 EC
Josefo rende-se a Vespasiano, na Galiléia, em Jotapata.
68 EC
Em Roma, Nero suicida-se. 
69 EC
O império romano ameaça desmoronar-se: três imperadores governam e são assassinados (Galba, Oto e Vitélio). Vespasiano retorna da Judeia e torna-se imperador em Roma. 
70 EC
Tito, filho de Vespasiano, derrota os judeus em Jerusalém. O Templo é destruido. 
73 EC
A última bolsa de resistência judaica é derrotada em Masada.
75 EC
Josefo escreve Guerras dos Judeus.
79 EC
Tito sucede ao seu pai como imperador.
81 EC
Domiciano sucede ao seu irmão, Tito, como imperador.
94 EC
Josefo escreve Antiguidades Judaicas.


Josefo via esta revolta dos judeus mais como uma guerra fratricida do que de libertação nacional. Descreveu muitos confrontos entre facções rivais de judeus e parece que estes matavam mais compatriotas do que romanos. Obteve os favores da família Flaviana, porque predisse que o rei do mundo inteiro, aquele que as profecias antigas diziam que viria de Israel, seria o próprio Vespasiano que, realmente, tornou-se imperador quando chegou a Roma vindo... da Judeia! Vespasiano seria um Messias até para os próprios judeus, porque trouxe-lhes ordem e salvou-os da autoaniquilação. Assim, Josefo imitou Isaías que, no seu tempo, também profetizou que um estrangeiro, Ciro da Pérsia, seria o Messias, rei do mundo.

Josefo, A Guerra dos Judeus, livro VI, capítulo 5, secção 4
... Mas o que mais os incitou à guerra foi um oráculo ambíguo, também registado nas suas escrituras, afirmando que naquela época um dos seus se tornaria senhor do mundo. Interpretaram-no como alguém da sua própria raça, e muitos dos seus sábios enganaram-se na sua interpretação. Todavia, o verdadeiro significado do oráculo era a soberania de Vespasiano, que foi proclamado imperador em solo judaico. Tudo isto quer dizer que os homens não conseguem escapar ao seu destino, mesmo quando o preveem. Os Judeus interpretaram alguns dos portentos conforme lhes convinha e desprezaram outros, até que a ruina do seu país e a sua própria destruição os condenou pela loucura.


Vespasiano Messias, segundo Tacito e Suetónio

O cronista romano Tácito escreveu, cerca de 100 a 110 d.C., a obra História (lat. Historiae). Apenas os quatro primeiros livros e vinte e seis capítulos do quinto livro desta obra sobreviveram, cobrindo os acontecimentos do ano 69 e 70. A obra completa provavelmente cobria desde o período das guerras civis do Ano dos Quatro Imperadores (ano 69: Galba, Oto, Vitélio e Vespasiano) até ao período dos Flavianos (Vespasiano e os filhos Tito e Domiciano).

O autor romano Suetónio escreveu, por volta de 121 d.C., a obra Vidas dos Césares (lat. De vitis Caesarum), conhecido como Vidas dos Doze Césares, é o conjunto de doze biografias que inclui a de Júlio César e os onze primeiros imperadores do Império Romano: Augusto, Tibério, Calígula, Cláudio, Nero, Galba, Oto, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano.

À semelhança de Josefo, Tácito e Suetónio escreveram também sobre Vespasiano cumprir a profecia do Messias que viria da Judeia.

No entanto, como escreveram depois de Josefo, é possível que se tenham baseado nos escritos deste.

Tácito, História, livro I, capitulo 10
É possível que as misteriosas profecias já circulassem, e que portentos e oráculos prometessem a púrpura a Vespasiano e aos seus filhos; mas foi só depois da ascensão dos Flavianos que nós os Romanos acreditámos nessas histórias.

Tácito, História, livro V, capitulo 13
A maioria estava convencida que as antigas escrituras dos seus sacerdotes referiam-se ao presente precisamente o tempo em que o Oriente triunfaria e da Judeia surgiriam homens destinados a governar o mundo. Esta misteriosa profecia referia-se a Vespasiano e Tito, mas o povo comum, fiel às egoístas ambições da humanidade, pensaram que este alto destino estava reservado para eles, e nem as suas calamidades lhes abriram os olhos para a verdade.

Suetónio, Vidas dos Doze Césares, livro X, Vida de Vespasiano, IV
Uma antiga superstição era comum no Oriente: que da Judeia viriam os governantes do mundo. Esta previsão, como mais tarde se provou, dizia respeito aos dois imperadores romanos, Vespasiano e Tito, mas os rebeldes Judeus, que a leram como se referindo a eles próprios, assassinaram o Procurador, eliminaram o legado consular da Síria, que veio para ajudá-lo, e arrebataram uma águia.

Conclusão: verificamos que a procura por Salvadores não era um exclusivo dos judeus. Não só Josefo mas também os autores romanos Tácito e Suetónio fizeram questão de enquadrar o Imperador romano na classe de Salvador (Messias).



Vespasiano milagreiro, segundo Tácito e Suetónio

Tácito escreveu na sua obra História, que Vespasiano praticou curas milagrosas: restaurou a visão a um cego e curou um homem com uma mão doente. A cura do cego é semelhante a um episódio atribuido a Jesus em Marcos (ver aqui)

Tácito, História, livro IV, capitulo 81
Nos meses em que Vespasiano esperava, em Alexandria, os dias dos ventos de Verão e mar estável, muitas maravilhas aconteceram, as quais mostraram o favor do céu e a inclinação das divindades por Vespasiano. 
Um dos plebeus de Alexandria, conhecido por ser cego, prostrou-se de joelhos e implorou, soluçando, por uma cura para a sua enfermidade - a conselho do deus Serápis, a quem o povo cultivava entregando-se-lhe com superstição mais do que a qualquer outro - suplicou a Vespasiano que se dignasse molhar os seus olhos e rosto com cuspo. Outro, com uma mão doente, por conselho do mesmo deus, pediu que o César lha calcasse com a planta do pé. 
Primeiro, Vespasiano riu e recusou. Eles insistiam de modo que ele, por um lado, receava o escândalo de uma tentativa frustrada, mas por outro lado a teimosia deles e as vozes dos aduladores induziram-no em esperança. Por fim, solicitou que os médicos estimassem se tal cegueira e debilidade estavam acima de ajuda humana. Os médicos discutiram diversos pontos: num deles a força da visão não fora consumida e poderia voltar se se removesse o obstáculo; no outro, a sua mão doente, se aplicada força curativa, poderia restaurar-se. 
Talvez os deuses o quisessem e o divino ministério tivesse escolhido o imperador; por fim, o sucesso do remédio seria a glória do César, enquanto o ridículo em caso de insucesso cairia sobre os desafortunados. Assim, Vespasiano, acreditando que tudo era possível à sua sorte e que nada mais seria inacreditável, com o seu semblante alegre, entre a multidão em expectativa, acedeu aos pedidos. Imediatamente, a mão voltou ao uso, e o dia brilhou para o cego. Os que estiveram presentes ainda hoje o relembram quando nada ganhariam com a mentira....


Também Suetónio mencionou um episódio semelhante, mas em vez de curar uma mão doente, Vespasiano curou um homem coxo (agradeço a contribuição de Edson "Sky" Kunde).
Suetónio, Vidas dos Doze Césares, livro X, Vida de Vespasiano, VII, 2 e 3
Vespasiano ainda não tinha prestígio nem uma certa divindade, por assim dizer, uma vez que ele foi um inesperado e ainda recém-feito imperador; mas estes feitos também foram-lhe atribuidos: um homem do povo que era cego, e outro que era coxo, aproximaram-se dele juntos, quando ele sentou-se no tribunal, pedindo a ajuda para os seus problemas que Serapis tinha prometido num sonho; pois o deus declarou que Vespasiano restauraria os olhos, se ele cuspisse em cima deles, e daria força à perna, se ele se dignasse tocá-la com o calcanhar. Ainda que ele duvidasse que isso poderia ter sucesso e, portanto, negasse mesmo tentar, ele foi finalmente convencido pelos seus amigos e tentou as duas coisas em público diante de uma grande multidão; e com sucesso. ...


O autor romano Dio Cassius (viveu de 155 a 235 d.C.) também referiu os milagres de Vespasiano em Alexandria, no Egipto. Mas este autor já é de um tempo muito posterior, pelo que terá usado Tácito e Suetónio, entre outros, como fonte para os seus textos.
Dio publicou a obra História Romana em 80 volumes, após 22 anos de trabalho.
Cassius Dio, História Romana, livro LXV, capítulo 8
Depois da entrada de Vespasiano em Alexandria, o Nilo transbordou, ficando, um dia, um palmo acima do normal; tal ocorrência, disse-se, só tinha ocorrido uma vez antes. O próprio Vespasiano curou duas pessoas, uma com a mão murcha, a outra cega, que veio a ele por causa de uma revelação em sonhos. Ele curou uma pisando a sua mão e a outra cuspindo nos seus olhos. Contudo, embora o Céu o engrandecesse assim, os alexandrinos, longe de deleitarem-se com a sua presença, detestavam-no de tal maneira que estavam sempre a zombá-lo e a injuriá-lo. Pois eles esperavam receber dele alguma grande recompensa, porque tinham sido os primeiros a fazê-lo imperador, mas em vez de ganharem algo, foi-lhes cobrado impostos adicionais.



Referências web:
 - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Tacitus/Histories/4D*.html
 - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Suetonius/12Caesars/Vespasian*.html
 - http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Cassius_Dio/65*.html



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Seculo I - Quem era o Jesus do ano 62 ?





Josefo menciona, numa passagem, um outro Jesus num episódio ocorrido no ano 62 (“quatro anos antes da guerra”). Esta personagem tem muitas semelhanças com o Jesus dos evangelhos mas, neste tempo, o Jesus dos evangelhos já deveria estar morto por quase 30 anos... se é que existiu. Vejamos a passagem:
A Guerra dos Judeus, VI, 5, 3 
Mas um outro portento foi ainda mais assustador. Quatro anos antes da guerra, quando a cidade desfrutava de grande paz e prosperidade, um tal Jesus, filho de Ananias, um rude camponês, veio à festa na qual todos os Judeus costumam erguer tabernáculos a Deus. Entrando no Templo, pôs-se subitamente a gritar, «Uma voz do oriente, uma voz do ocidente, uma voz dos quatro ventos. Uma voz contra Jerusalém e o santuário, uma voz contra o noivo e a noiva, uma voz contra todo o povo». Depois, percorreu todas as ruelas, dia e noite, com este grito nos lábios. Alguns dos principais cidadãos, furiosos com estas palavras de mau agoiro, prenderam-no e castigaram-no duramente. Mas ele, sem uma única palavra em sua defesa ou para os ouvidos dos que lhe batiam, continuou com os seus gritos. Os magistrados, convictos de que o homem se encontrava sob um impulso sobrenatural – o que era verdade -, levaram-no ao governador romano. Apesar de flagelado até aos ossosnão implorou misericórdia nem derramou uma lágrima, gemendo entre cada chicotada, «Ai de Jerusalém!». Sempre que Albino, o governador, lhe perguntou quem era, donde vinha e porque dava aqueles gritos, ele nunca lhe respondeu, reiterando incessantemente as suas lamentações pela cidade, até que Albino o declarou louco e o deixou ir embora.
...
E assim continuou as suas lamentações, durante sete anos e cinco meses... até que, durante o cerco, depois de ver comprovado o seu augúrio, morreu... foi atingido por uma pedra atirada por uma balista e morreu instantaneamente... 


Josefo escreveu este texto muito pouco tempo depois dos acontecimentos que relata. A Guerras dos Judeus, escrita cerca de 75 EC, é a história dos Judeus desde o tempo da revolta dos Macabeus, em 165 AEC, até à destruição de Jerusalém em 70 EC. Vamos relembrar as datas dos acontecimentos durante e após a Guerra dos Judeus:

Data
Acontecimentos
66 EC
Início da Grande Revolta dos Judeus contra os romanos. Josefo é comandante militar na Galiléia. Vespasiano é comissionado por Nero para conter a revolta.
67 EC
Josefo rende-se a Vespasiano, na Galiléia, em Jotapata.
69 EC
O império romano ameaça desmoronar-se: três imperadores num ano.
70 EC
Tito derrota os judeus em Jerusalém. O Templo é destruido. Vespasiano torna-se imperador de Roma.
73 EC
A última bolsa de resistência judaica é derrotada em Masada.
75 EC
Josefo escreve Guerras dos Judeus.
94 EC
Josefo escreve Antiguidades Judaicas.


Quem eram as personalidades políticas deste tempo e local (ver mais...):

Data
Judeia (Jerusalém)
Galileia
60 EC
Festus, prefeito (60 - 62 EC) 
Agrippa II, rei (52 - 93 EC)
62
Albinus, prefeito (62 - 64 EC)
64
Florus, prefeito (64 - 66 EC)
66
Grande Revolta (66 - 73 EC)
68
70


Vamos agora comparar o Jesus dos evangelhos com o Jesus, filho de Ananias, desta passagem de Josefo:


Jesus dos evangelhos
Jesus, filho de Ananias
Enquadramento
Prefeitura de Pilatus (26 a 36 EC)
Prefeitura de Albinus (62 a 64 EC)
Nome
Jesus
Jesus
Gritou no Templo
Sim
Profetizou a destruição de Jerusalém
Sim
Sim
Foi detido
Sim
Foi açoitado
Sim
Sim
Foi julgado pela autoridade romana
Sim
Foi condenado pela autoridade romana
Não
Não
Data da morte
69 EC
Causa da morte
Pedra de balista



Conclusão: não podem ser coincidências as semelhanças entre as duas personagens: Jesus dos evangelhos e Jesus, filho de Ananias. É possível que a personagem Jesus, filho de Ananias, tenha tido influência na construção da personagem de Jesus dos evangelhos.



Referência web: http://www.ccel.org/j/josephus/works/war-6.htm


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Século I - Tito Lívio e Plutarco - deificação de Rómulus





A des­cri­ção da morte de Rómu­lus, segundo dois his­to­ri­a­do­res roma­nos do século I — Tito Lívio e Plu­tarco — pode reve­lar algu­mas pis­tas sobre as influên­cias que esti­ve­ram na ori­gem das nar­ra­ti­vas sobre a morte, res­su­rei­ção, ascen­são e apa­ri­ções de Jesus.

  • Rómu­lus desa­pa­rece, dei­xando o trono vago
  • Exis­tem sus­pei­tas que os pode­ro­sos de Roma mata­ram Rómu­lus por este ser incómodo
  • O povo alega que Rómu­lus subiu ao céu e tornou-se Deus (Quirinius)
  • Um homem alega ter visto Rómu­lus e rece­bido reve­la­ções dele sobre o futuro

Ape­sar de Rómu­lus ser uma personagem mítica que ale­ga­da­mente teria vivido uns 700 anos antes, era assim que a sua morte era retra­tada no século I — o século em que come­ça­ram a ser escri­tos os evan­ge­lhos sobre Jesus.

Tito Lívio (59 a.C. — 17 d.C.)

Tito Lívio foi o autor da obra histórica intitulada Ab urbe condita ("Desde a fundação da cidade"), onde tenta relatar a história de Roma desde o momento tradicional da sua fundação em 753 a.C. até ao início do século I d.C., referindo desde os primeiros reis de Roma.

Tito Lívio descreve a morte de Rómulus — o mítico funda­dor de Roma e seu primeiro rei — e a sua ascensão aos céus.

Descreve tam­bém como Rómulus foi visto por Próculus e as revela­ções que este obteve sobre o futuro dos romanos. Este Próculus fica a saber, com muitos séculos de antecedência, que Roma haveria de ter grandes glórias.
Tito Lívio (59 a.C. - 17 d.C.), “Ab Urbe Con­dita” (Desde a Fun­da­ção da Cidade ou His­tó­ria Pri­mi­tiva de Roma), Livro 1, cap 16 
Romu­lus ajun­tou o seu exér­cito na Caprae Palus do Cam­pus Mar­tius. Uma violenta tempes­tade surgiu e envolveu o rei numa nuvem tão densa que ele se tor­nou invi­sí­vel aos que esta­vam pre­sen­tes. A par­tir daquela hora Romu­lus dei­xou de ser visto na Terra. 
Quan­do a juven­tude romana teve os seus temo­res afas­ta­dos pelo retorno do bri­lho do sol, veri­fi­ca­ram que o trono estava vago. Ape­sar de acre­di­ta­rem ple­na­mente nos sena­do­res, que afir­ma­ram que ele [Rómu­lus] havia sido arre­ba­tado ao céu num rede­moi­nho, fica­ram mudos por algum tempo, pois viram-se repen­ti­na­mente de luto. 
Em seguida, algu­mas vozes come­ça­ram a pro­cla­mar a divin­dade de Rómu­lus; o cla­mor foi subindo; e, final­mente, todos o sau­da­ram como um deus e filho de um deus, e reza­ram para que ele fosse sem­pre gen­til e pro­te­gesse os seus filhos. 
No entanto, mesmo nesta gran­di­osa época, havia, creio eu, alguns dis­si­den­tes que man­ti­ve­ram secre­ta­mente que o rei [Rómu­lus] tinha sido feito em peda­ços pelos sena­do­res. Esta indigna ver­são da sua morte foi pas­sando, vela­da­mente, mas não era tão impor­tante como o temor e admi­ra­ção pela gran­deza de Rómulus. 
Mas esta ver­são sobre a sua morte foi defi­ni­ti­va­mente aban­do­nada em favor da ver­são da divin­dade de Rómu­lus, pela opor­tuna acção de um deter­mi­nado homem, Julius Pró­culus, céle­bre pelos seus sábios con­se­lhos sobre gran­des questões. 
A perda do rei tinha dei­xado as pes­soas inqui­e­tas e des­con­fi­a­das dos sena­do­res. Próculus, consciente do temperamento predominante, concebeu a idéia astuta de abordar a Assembleia. 
- “Rómulus”, declarou ele, “o pai de nossa cidade desceu do céu ao ama­nhecer de hoje e apare­ceu a mim. Em respeito e reverência, por estar diante dele, pedi permissão para, sem pecado, olhar o seu rosto. «Vai», disse ele, «e diz aos romanos que, pela vontade dos céus, Roma será a capital do mundo. Deixa-os aprender a serem soldados. Deixa-os saber e ensinar os seus filhos, que nenhum poder na terra poderá vencer armas romanas».” 
Refe­rên­cia: http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0026%3Abook%3D1%3Achapter%3D16


Plu­tarco (46 — 120 d.C.)

Plutarco (Lucius Mestrius Plutarchus, nome romano) foi um historiador, biógrafo, ensaísta e filósofo grego, que se tornou cidadão romano.

Também escreveu sobre Rómulus, mas pode ter baseado a sua versão na anterior obra de Tito Lívio.

Plu­tarco (cerca 46 — 120 d.C.) — “Vida de Numa Pompilius” 
Foi o tri­gé­simo sétimo ano, contado a par­tir da fun­dação de Roma, quando Rómulus, então reinante, no quinto dia do mês de Julho, festejou os Nonae Caprütīnae, oferecendo um sacrifício público no Caprae Palus, na presença do senado e do povo de Roma. De repente, o céu escureceu, uma espessa nuvem de tempestade e chuva envolveu a terra, as pessoas fugiram em aflição, e foram dispersas, e neste turbilhão Rómulus desapareceu, e o seu corpo nunca foi encontrado vivo ou morto. 
A sus­peita recaiu sobre os patrí­cios, e os boa­tos eram cor­ren­tes entre as pes­soas como se, can­sa­dos da monar­quia e do com­por­ta­mento arro­gante de Rómu­lus em rela­ção a eles, tinham inten­tado con­tra a sua vida, de modo que eles pudes­sem assu­mir o governo nas suas pró­prias mãos. Esta sus­peita que pro­cu­ra­vam des­viar decre­tando hon­ras divi­nas para Rómu­lus, como se este não esti­vesse morto mas sim numa con­di­ção supe­rior. E Pró­cu­lus, um homem de nota, jurou que viu Rómu­lus arre­ba­tado aos céus com suas armas e para­men­tos, e ouviu-o cla­mar que eles deve­riam agora chamá-lo pelo nome de Qui­ri­nus [divin­dade que repre­senta o povo de Roma]. 
Refe­rên­cia: http://classics.mit.edu/Plutarch/numa_pom.html 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Século I - Reconstruindo a História




O cristianismo do Novo Testamento resultou da fusão do conceito de Paulo sobre o Cristo com o conceito propagado pelos evangelhos.

O conceito que Paulo pregou foi o de um Cristo mítico e intemporal, enquanto os evangelhos divulgam a figura de um pregador da Galiléia, do primeiro século da era actual, que se tornou o Cristo.

Face à dimensão da componente mítica, a verdade histórica é uma parte insignificante do Novo Testamento.

Antes de continuar, convido o leitor deste blog a ler os seguintes artigos:


Uma possível reconstrução histórica - Século I


A sequência de acontecimentos teria sido a seguinte:

1 a 20 EC

-          Tito Lívio escreve, na sua obra sobre a História de Roma ("Ab Urbe Con­dita"), sobre a deificação de Rómulo, o lendário primeiro rei de Roma; Rómulo teria subido aos céus e teria sido visto após a sua morte;

20 a 40 EC

-          seitas judaicas desenvolvem doutrinas sobre uma salvação divina que está prestes a acontecer; algumas apregoam sobre uma salvação nacional outras sobre uma salvação individual - entre estes existiam os Notzrim (Nazarenos);

-          João Baptista baptiza no rio Jordão e reune multidões – os seus seguidores dizem que ele é o Cristo;

-          João Baptista é preso e executado por ordens de Herodes Antipas (governante da Galiléia) por este recear o poder que aquele estava a ganhar;

-          os discípulos de João Baptista, inconformados, dizem que João Baptista ressuscitou;

-          inicia-se em Jerusalém, na Judeia, um movimento apostólico liderado por pessoas que afirmam ter tido uma visão do Filho de Deus; neste movimento contam-se Cefas (e/ou Pedro), Tiago e João;

-          Paulo adere tardiamente ao movimento apostólico, mas torna-se dissidente, ao optar por captar fiéis não-judeus; Paulo nunca conheceu nenhum Jesus Nazareno;

40 a 66 EC

-          Paulo divulga o Cristo como um ser mítico ligado à humanidade por um episódio intemporal de tortura, sofrimento e morte seguido de uma ressurreição ao fim de três dias – este Cristo prometeu-lhe, em visão, que viria brevemente salvar os crentes;

-          Paulo cria uma rede multinacional de igrejas para o seu movimento religioso; escreve cartas para manter a coesão do movimento;

-          Paulo introduz características do mitraísmo - a eucaristia - no seu movimento para captar mais fiéis;

-          Paulo morre;

66 a 100 EC

-          inicia-se a Grande Revolta dos Judeus, que é esmagada pelos romanos em 70 EC;

-          alguns cristãos de segunda geração, que pouco ou nada sabiam sobre os Nazarenos, escrevem a história de um tal Jesus Nazareno (Yeshu ha-Notzri), da Galiléia, que era o Cristo, fez-se baptizar por João Baptista para anunciar a sua chegada, que morreu e foi ressuscitado; esta história serviria de ilustração, como iniciação ao estudo do Cristo mítico;

-          judeus-cristãos acrescentam os episódios da Paixão, descrevendo que Jesus teria sofrido muito nas mãos de Pilatos, mas, logo a seguir, outros cristãos simpatizantes dos romanos, branqueiam a imagem de Pilatos e acrescentam um traidor judeu;

-          muitos escritos continuam a ser desenvolvidos em torno do conceito de Cristo, sem referência a Jesus Nazareno (alguns chegam, mais tarde, ao Novo Testamento, por exemplo: Hebreus e Apocalipse).


Os silenciosos

Muitos autores do século I permaneceram, como seria de esperar, silenciosos no que respeita à vida de Jesus Nazareno. Por exemplo:
-          Filon de Alexandria (Filo Judeu) era um filósofo que viveu entre 20 AEC e 50 EC (aproximadamente). Estava ao corrente dos principais acontecimentos de Jerusalém durante a sua vida, apesar de viver em Alexandria. Um dos seus livros menciona uma embaixada de judeus que foi pedir a Calígula para desistir da ideia de colocar a sua estátua no Templo de Jerusalém (40 EC). Filo nunca menciona Jesus Nazareno (embora elabore um texto muito sugestivo em torno de uma personagem chamada Jesus)..

-          Flávio Josefo (Yussef ben Matatias) nasceu em Jerusalém por volta de 37 EC e pertencia à aristocracia judaica. Aos 30 anos de idade participou na Grande Revolta Judaica, de 66 a 67 EC, como líder militar na Galileia. Foi capturado pelos romanos, mas tornou-se amigo de Vespasiano. Escreveu obras volumosas que incluiam a descrição de muitos judeus (alguns mais notáveis outros menos) do seu tempo e do passado. Sobre Jesus, só existem dois parágrafos claramente forjados em cópias posteriores do seu trabalho.

-          Justus de Tibérias foi um escritor judeu da Galileia contemporâneo de Josefo. As suas obras estão agora perdidas mas, no século IX, o patriarca de Constantinopla, Photius, escreveu sobre estas, recordando que Justo "nunca se refere a Jesus Cristo".



As pistas do evangelho

De acordo com Marcos, as pessoas que viam Jesus pensavam que ele era João Baptista, Elias ou qualquer outro profeta antigo:
Marcos 8:27-30 ... e no caminho interrogou os discípulos, dizendo:
 - Quem dizem os homens que eu sou?
Responderam-lhe eles:
 - Uns dizem: João, o Batista; outros: Elias; e ainda outros: Algum dos profetas.
Então lhes perguntou:
 - Mas vós, quem dizeis que eu sou?
Respondendo, Pedro lhe disse:
 - Tu és o Cristo.
E ordenou-lhes Jesus que a ninguém dissessem aquilo a respeito dele.


Nesta passagem do Novo Testamento, Jesus prefere que as pessoas continuem a pensar que ele é João Baptista ou outro profeta ressuscitado, a deixá-los saber que ele é uma outra pessoa. Pedro não ajuda muito, pois simplesmente atribui-lhe um título sem o identificar como uma pessoa diferente de João Baptista.

Ou seja, Jesus não assume uma identidade própria. Jesus é uma reedição de outra pessoa, de outra identidade.

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