domingo, 15 de março de 2015

O Bezerro de Ouro que Dominou o Mundo





O Bezerro de Ouro que Dominou o Mundo

O homem primitivo sentia-se apavorado com os fenómenos da natureza — tempestades e tantos outros — que julgava serem a manifestação de Seres Poderosos. Então, na sua impotência para controlar a natureza, e não encontrando explicações razoáveis para os acontecimentos, volta-se para aqueles Seres Poderosos que imagina comandarem o mundo. Submisso e suplicante, implora-lhes perdão pelas faltas cometidas, simula preces e oferendas. Com isso, supõe aplacar a ira dos deuses e ganhar-lhes o seu favor.

Foi, assim, lançada a semente da religião que no decorrer do tempo foi ganhando novas formas, de acordo com as necessidades e aspirações do Homem.

O deus cristão começou a sua carreira no panteão cananeu. Nesse panteão dominava El–Elyon (o Altíssimo) com os filhos: Baal (deus das tempestades, da fertilidade e das colheitas), Yam (deus do mar) e muitos outros. El era imaginado como um touro e a sua adoração tinha predominância no norte, no Reino de Israel. A sul, no reino de Judá, a adoração de Yahveh terá começado como um deus da guerra antropomórfico, mas não todo-poderoso. Yahveh chegou mesmo a ter uma esposa.


Yahveh e o bezerro de ouro

Israel tornou-se independente de Judá (cuja capital era Jerusalém) por volta de 900 AEC. O primeiro rei de Israel foi Jeroboão I. Para evitar que o povo fosse a Jerusalém, no reino de Judá, prestar culto e sacrifícios, Jeroboão construiu dois bezerros de ouro e colocou-os em dois locais para que o povo do novo reino de Israel tivesse um local próprio para o culto.
1 Reis 12:27-30 Se este povo subir para fazer sacrifícios na casa de Yahveh, em Jerusalém, o seu coração se tornará para o seu senhor, Roboão, rei de Judá; e, matando-me, voltarão para Roboão, rei de Judá. Pelo que o rei, tendo tomado conselho, fez dois bezerros de ouro; e disse ao povo: Basta de subires a Jerusalém; eis aqui teus deuses, ó Israel, que te fizeram subir da terra do Egipto. E pôs um em Betel, e o outro em Dã. Ora, isto se tornou em pecado; pois que o povo ia até Dã para adorar o ídolo

Segundo o Primeiro Livro dos Reis, Jeroboão receava que o seu povo fosse a Jerusalém, no Reino de Judá, fazer sacrifícios, porque assim poderia perder o poder. Por isso construiu os bezerros como alternativa à adoração prestada em Jerusalém. Isto leva a pensar que neste tempo ainda não havia o culto de Yahveh – o qual seria adverso ao uso de imagens esculpidas –, em Jerusalém. Todos relatos que mostram a ligação prévia dos israelitas com Yahveh poderão ser pura ficção, porque:
-          se em Jerusalém já fosse praticado o culto a Yahveh, os bezerros de ouro não seriam uma alternativa, porque o culto de Yahveh é adverso ao uso de ídolos;
-          se Jeroboão tivesse em mente uma alternativa para que o povo não se deslocasse a Jerusalém, teria construido um templo para esse mesmo culto de Yahveh no território do norte de Israel;

Ou, então, Yahveh seria, nesse tempo, adorado sob a forma de um bezerro de ouro e a proibição da adoração de imagens esculpidas ainda não fazia sentido.

Parece que este episódio terá inspirado os autores do livro de Êxodo, segundo o qual Moisés subiu ao monte Sinai para receber instruções de Yahveh e ausentou-se durante quarenta dias e noites (Êxodo, capítulos 24 a 31). O povo, quando se viu sem o seu líder, insistiu com Arão, o irmão de Moisés, para que fizesse um ídolo de ouro de modo a terem um deus para adorar. Arão pediu ao povo para recolher brincos e outros adornos de ouro de modo a poder fabricar um ídolo com a forma de um bezerro. Quando o bezerro de ouro ficou pronto fizeram uma grande festa gritando “Eis aqui, ó Israel, o teu deus, que te tirou da terra do Egipto” (Êxodo 32:1-4).


O livro de Job

Eventualmente Yahveh, um deus da guerra, dos habitantes do deserto, foi adicionado ao panteão israelita. Yahveh pode ter sido, eventualmente, representado pelo bezerro dourado, mas seria não poucas vezes substituído pelo antropomorfo Baal dos Fenícios (cananeus) sendo finalmente promovido ao deus-supremo El.

O livro de Job, no início, descreve uma espécia de assembleia (concílio) dos deuses. O início do livro de Job poderia bem ter sido, no original, do seguinte modo:
Job 1:6
E os filhos dos Elohim vieram apresentar-se e Yahveh e Satan também se apresentaram…

Poderia ser que no original, os Elohim fossem os deuses principais, liderados por El-Elyon, e Yahveh e Satan fossem os deuses descendentes e regionais.

Isto pode ser corroborado por outro texto do Antigo Testamento:
Deuteronómio 32:8–9
Quando El-Elyon (o Altíssimo) dividiu o mundo pelas nações, deu Israel como a porção para Yahveh

Yahveh é promovido a El-Elyon

Yahveh foi – durante o domínio babilónico — equiparado ao Altíssimo El-Elyon (ou o equivalente babilónico, Marduk), o Todo-Poderoso El-Shaddai, terminando a sua saga judaica como um ser invisível, transcendente, que já não mostra feitos espetaculares mas apenas murmura aos profetas.

Foi então transferido para a cultura greco-romana por Paulo de Tarso, empacotado como o Pai do Cristo, depois feito trindade para uma igreja universal (grego: katholikos) por Constantino.


Alá é El

Muito mais tarde, no século VII EC, Maomé aparece como profeta de Alá, o único deus - dando mais uma vida ao nome do deus cananeu El.


Referências (hebraico interlineado com inglês)
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