segunda-feira, 26 de junho de 2017

Zoroastro - Revelação de Ahura Mazda




Ahura Mazda, ou Spenta Mainyu

Ahura Mazda, cujo nome significa "Senhor Sábio", era um deus importante na antiga mitologia persa, originalmente chamado Spenta Mainyu.

Existem evidências do culto generalizado a Ahura Mazda por volta de 600 a.C.. Os persas consideraram que ele era o criador da terra, dos céus e da humanidade, bem como a fonte de toda bondade e felicidade na terra.

A religião conhecida como zoroastrismo na Pérsia adoptou Ahura Mazda como o deus supremo. Esta foi, provavelmente, uma época de consolidação de crenças e religiões. A consolidação de várias religiões persas levou à crença num deus supremo. Foi a criação do monoteísmo.

Ahura Mazda aparece em arte e textos persas como um homem com barba vestindo um manto coberto de estrelas. Habitando lá alto no céu, ele tinha o sol como o seu olho. Na religião zoroastriana, Ahura Mazda estava associado à luz e ao fogo, aos símbolos da verdade, do bem e da sabedoria. Ele criou seis seres divinos, ou anjos, para ajudá-lo a espalhar o bem e governar o universo. Um dos anjos mais importantes foi Ahsa Vahishta ("Excelente Ordem" ou "Verdade"), patrono do fogo e espírito de justiça. Vohu Manah ("Boa Mente") era um símbolo de amor e sabedoria sagrada que acolhia almas para o paraíso.

A criação de um Deus todo-poderoso e benevolente deixa de lado uma importante questão: qual é a fonte do mal e do sofrimento? Este é um grande problema dos monoteísmos, designado por teodiceia.

Os zoroastrianos tinham, inicialmente, um sistema dualista de crença em que duas forças opostas e iguais - boas e más - lutavam pelo controle do mundo. Ahura Mazda representava a luz, a verdade e o bem. O seu grande inimigo era Ahriman, o deus das trevas, da ira e da morte. Ao consolidar o monoteísmo, os zoroastrianos consideraram Ahura Mazda como a força mais poderosa, que inevitavelmente triunfaria sobre Ahriman.

Ahriman, ou Angra Mainyu

Ahriman era o deus do mal e da escuridão na mitologia persa e no zoroastrismo. Muitas vezes chamado de Druj ("a Mentira"), Ahriman era a força por trás da raiva, ganância, inveja e outras emoções negativas e prejudiciais. Ele também trouxe o caos, a morte, a doença e outros males no mundo. Na religião islâmica, ele é identificado com Iblis, o diabo.

Originalmente, Ahriman era o deus persa Angra Mainyu, um espírito destrutivo cujo irmão gémeo, Spenta Mainyu, era um espírito benevolente. Os seres humanos e os deuses tinham que escolher qual espírito deveriam servir. À medida que a religião zoroastrista se desenvolveu, Angra Mainyu tornou-se Ahriman, e Spenta Mainyu transformou-se em Ahura Mazda, o "Senhor Sábio". A história do mundo foi vista como uma luta entre essas duas forças. Ahura Mazda teve o apoio dos yazatas (anjos), enquanto Ahriman criou uma série de demónios chamados daevas para espalhar sua influência do mal, atraindo a inveja, ganância e desejo de poder dos seres humanos.

O combate entre o Bem e o Mal

A mitologia declara um período de 12.000 anos de combate.

Ahriman, em dado momento terá decidido atacar, mas Ahura Mazda consegue detê-lo durante 3.000 anos, simplesmente cantando uns hinos (Gâthas) semelhantes ao Pai Nosso do cristianismo.

Durante o tempo em que Ahriman se encontrava preso, Ahura Mazda desenvolve um plano para vencer. Cria sete arcanjos e, com estes, cria uns espíritos inferiores como sendo protótipos celestiais dos seres humanos. A estes últimos ele pergunta: "Tenho um grande conflito a começar, vocês podem ajudar-me assumindo uma forma carnal no mundo material?". Eles concordam e assim nasce a humanidade no mundo material cujo objectivo é ajudar Ahura Mazda no combate a Ahriman.

Quando Ahriman acorda, ele foge do subterrâneo e cria a Casa da Mentira, uma espécie de inferno.

Zoroastro, ou Zaratustra

Pouco se sabe sobre a vida de Zaratustra. Por exemplo, é incerto quando ele viveu. Os gregos antigos especularam que ele viveu seis mil anos antes do filósofo Platão e vários académicos dataram-no no início do século VI a.C. Outros académicos aceitam que Zaratustra é o autor dos Gâthas (uma parte do livro sagrado dos zoroastrianos, Avesta), que eles datam, em termos linguísticos, no século XIV ou XIII a.C.

Também não é claro onde Zaratustra nasceu e onde passou a primeira metade de sua vida. Todas as tribos que se converteram ao zoroastrismo inventaram lendas sobre a vida do profeta, e quase todos alegaram que o grande mestre era "um deles". Por motivos linguísticos, podemos argumentar que o autor dos Gâthas pertencia a uma tribo que vivia na parte oriental do Irão, no Afeganistão ou no Turquemenistão.

Os textos dos Gâthas não são de grande ajuda na busca pela biografia de Zaratruta. Contêm algumas informações sobre Zaratustra, mas dificilmente são dados biográficos, enquadrando-se no campo da mitologia. O Denkard, um texto em lingua Avéstica, mas muito tardio (século IX d.C.), contém um resumo de uma biografia supostamente mais antiga. Contém muitas lendas e a confiabilidade não parece muito grande. Combinando algumas narrativas obtemos o seguinte:

Zaratustra nasceu na Bactria (ou qualquer outro território ariano) como filho de um nobre não muito poderoso chamado Purushaspa e uma mulher chamada Dughdhova. Zaratustra foi o terceiro de cinco irmãos. Ele se tornou um sacerdote e parece ter demonstrado uma dedicação notável a humanos e gado. A família é chamada de Spitama, que é um título honorário que significa "mais benéfico". 
Ao nascer, Zaratustra não chorou, pelo contrário, riu sonoramente. As parteiras, vendo aquilo, admiraram-se, pois nunca tinham visto um bebé rir ao nascer.
Na vila havia um sacerdote que percebeu que aquele menino viria a ser um revolucionário do pensamento humano e que enfraqueceria o poder dos "donos" das religiões. Ele então decidiu tomar providências e procurou Pourushaspa, o pai de Zaratustra, com a seguinte conversa: "Pourushaspa Spitama, vim avisá-lo. O seu filho é um mau sinal para a nossa vila porque riu ao nascer. Ele tem um demónio. Mate-o ou os deuses destruirão os seus cavalos e plantações. Onde já se viu rir ao nascer nesse mundo triste e escuro! Os deuses estão furiosos!". 
Pourushaspa não queria matar o seu filho, mas o sacerdote insistiu. 
Na manhã seguinte Pourushaspa fez uma grande fogueira, e à frente de todos colocou Zaratustra no meio do fogo, mas ele não sofreu dano algum. O sacerdote ficou confuso. 
Zaratustra foi levado então para um vale estreito e colocado no caminho de uma boiada de mil cabeças de gado, para ser pisoteado. O primeiro boi da boiada percebeu o menino e ficou parado sobre ele, protegendo-o, enquanto o resto passava ao lado e o bebé não sofreu um só arranhão. 
O sacerdote logo arquitectou outro plano. O menino Zaratustra foi colocado na toca de uma loba que, ao invés de devorá-lo, cuidou dele até que Dughdhova, sua mãe, o veio buscar. 
Diante de tantos prodígios o sacerdote ficou envergonhado e mudou-se da vila. 
Ao crescer, Zaratustra peramburalava pelas estepes indagando-se: "Quem fez o sol e as estrelas do céu? Quem criou as águas e as plantas? E quem faz a lua crescer e minguar? Quem implantou nas pessoas a sua natural bondade e justiça?". 
Zaratustra viveu, até aos trinta anos, quase sempre isolado, habitando no alto de uma montanha, em cavernas sagradas. Não ingeria nenhum alimento de origem animal. 
Um dia, quando tinha trinta anos, Zaratustra meditava nas margens de um rio quando um ser estranho lhe apareceu. Ele era indescritível, tal a sua beleza e brilho. Zaratustra perguntou-lhe quem era ele, ao que teve como resposta: "Sou Vohu Mano, a Boa Mente. Vim buscar-te". E tomou-lhe a mão, e o levou para um lugar muito bonito, onde sete outros seres os esperavam. 
A Boa Mente disse-lhe então: "Zaratustra, se tu quiseres podes encontrar em ti mesmo todas as respostas que tanto buscas, e também questões mais interessantes ainda. Ahura Mazda, Deus que tudo cria e sustenta, assim escolheu partilhar a sua divindade com os seres que cria. Agora, sabendo disso, tu podes anunciar essa mensagem libertadora a todas as pessoas.” 
Zaratustra contestou: "Por que eu? Não sou poderoso e nem tenho recursos!". Os outros seres responderam em coro: "Tu tens tudo o que precisas, o que todos igualmente têm: Bons pensamentos, boas palavras e boas ações".
Entretanto, aparece-lhe um demónio de Ahriman que o tenta demover.  
Zaratustra voltou para casa e contou a todos o que lhe acontecera, e começou a pregar que havia um deus supremo, o "sábio senhor" Ahura Mazda, que criou o mundo, a humanidade e todas as coisas boas nele através de seu espírito sagrado, Spenta Mainyu. O resto do universo foi criado por outros seis espíritos, os Amesha Spentas ("imortais sagrados"). No entanto, a ordem desta criação sete vezes foi ameaçada pela mentira; Os espíritos bons e malignos estavam lutando e a humanidade teve que suportar os bons espíritos, a fim de acelerar a inevitável vitória do bem.
A sua família aceitou o que ele havia descoberto. Mas os sacerdotes o rejeitaram argumentando: "Se é assim nada há de especial em nosso serviço. De nada valem os nossos sacrifícios e perderemos o poder que nos dão os deuses ciumentos e caprichosos que servimos. Ficamos sem trabalho e passaremos fome!". Decidiram, então, dar cabo da vida de Zaratustra. 
Com sua boa mente ele entendeu que tinha que sair dali por uns tempos. Chamou seus vinte e dois companheiros e companheiras de primeira hora e fugiram com tudo o que tinham. Eles viajaram durante várias semanas até chegarem a um lugar cujo governante chamava-se Histaspes. Zaratustra procurou Histaspes e partilhou com ele a sua descoberta. 
Histaspes respondeu ao seu apelo com uma recusa: "Por que haveria de crer nesse estranho? Meus deuses são, com certeza, mais poderosos que esse Ahura Mazda!".
Após dois anos tentando convencer Histaspes, e enfrentando a mais cruel oposição, passando, inclusive, um tempo preso, um acidente com o cavalo de Histaspes ajudou a resolver a favor de Zaratustra esse impasse. À beira de morte, o cavalo tornou-se o centro de todas as atenções. Histaspes chamou sacerdotes, feiticeiros, médicos e sábios para salvar o seu cavalo. Juntos eles tentaram de tudo, inclusive oferecendo aos deuses dezenas de sacrifícios de outros cavalos. Além disso, brigaram entre si, fizeram intrigas, mas nada aconteceu, o cavalo de Histaspes só piorava. Zaratustra, que fora criado num ambiente rural, logo percebeu que ele fora envenenado. Procurando Histaspes ele sugeriu um remédio muito usado nesses casos na sua terra. Sem alternativas, embora descrente, Histaspes aceitou a ideia de Zaratustra e em dois dias seu cavalo estava de pé, sem sinal da doença. 
Todos ficaram pasmados e acharam que Zaratustra tinha operado um milagre. Ele respondeu que havia apenas usado a sua boa mente e os conhecimentos que tinha adquirido em casa. Histaspes e sua família ficaram encantados com a honestidade e simplicidade de Zaratustra, e dispuseram-se a ouvi-lo de novo, dessa vez com coração e mentes desarmados. Em pouco tempo não só Histaspes e sua família haviam sido iniciados, como também grande parte de seu povo. 
Embora Zaratustra pudesse ter usado a ocasião da cura do cavalo de Histaspes para arrogar-se poderes sobrenaturais, ele preferiu ser sincero, e foi isso o que de facto mostrou a Histaspes a sublime beleza e profundidade da mensagem.
Muitos nobres seguiram o exemplo de Histaspes para se converterem à nova religião de Zaratustra. 
Zaratustra morou na corte de Histaspes, até ser morto aos setenta e sete anos por invasores nómadas. Alguns localizam sua morte em Bactra (Afeganistão).


Conclusões

Quanto à dualidade Ahura Mazda / Ahriman, encontramos a mesma situação no judaísmo e cristianismo com a dualidade Deus / Satanás.

Quanto a paralelos entre Zoroastro e Jesus Cristo:
 - Foi ameaçado com a morte quando era bebé (Mateus 2:16-18)
 - Tornou-se uma figura pública aos trinta anos (Lucas 3:23)
 - Um espírito aparece-lhe quando se encontrava num rio (Marcos 1:9-11)
 - Foi tentado por um demónio (Marcos 1:12-13)
 - Tinha quatro irmãos (Marcos 6:3)


Ver também:
 - Ciro da Pérsia - O Direito das Nações
 - Os persas devolvem autonomia aos judeus


Referências:
 - http://www.livius.org/articles/person/zarathustra/
 - https://pt.wikipedia.org/wiki/Zaratustra
 - http://www.ancient.eu/zoroaster/
 - http://www.avesta.org/denkard/denkard.htm


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Século II - Celsus - Contra o Cristianismo




De acordo com Orígenes (considerado um dos pais fundadores da Igreja), Celsus era um filósofo grego do século II (do tempo do imperador Adriano e posterior) e oponente do cristianismo primitivo. Celsus seria bastante conhecido pela sua obra literária, "A Verdadeira Palavra" (ou "Verdadeiro Discurso"), que sobreviveu exclusivamente nas citações de Orígenes dele em "Contra Celsum".

Como filósofo grego anti-cristão, Celsus montou um ataque ao cristianismo. O seu trabalho escrito, que pode ser datado de cerca de 178 EC, é o primeiro ataque abrangente conhecido ao cristianismo.

Orígenes escreveu a sua refutação ou apologia cristã por volta de 248 EC, portanto cerca de 70 anos depois de Celsus. O facto de Orígenes ter investido num extenso texto (muitos volumes) para refutar o trabalho de Celsus, revela que este ainda seria muito importante no tempo de Orígenes.

Recapitulando:
 - por volta de 178 EC, Celsus escreveu "A Verdadeira Palavra" para combater ou denunciar o cristianismo
 - por volta de 248 EC, Orígenes escreveu "Contra Celsus" para refutar o trabalho de Celsus

Entretanto o trabalho de Celsus foi perdido (muito provavelmente por ser uma obra anti-cristianismo), mas pode ser reconstituido a partir do texto de Orígenes. A refutação "Contra Celsus" contém o texto original de Celsus, entrelaçado com as respostas apologéticas de Orígenes. O trabalho de Orígenes sobreviveu e, assim, preservou o texto de Celsus com ele.

O que Celsus sabia sobre o cristianismo seria através de literatura cristã - provavelmente versões primitivas dos evangelhos, principalmente do "Evangelho de Mateus" - e através de literatura judaica que satirizaria os evangelhos, provavelmente o "Sepher Toldoth Yeshu" (a história de Jesus ben Pandera).

Celsus começaria assim o seu ataque ao cristianismo:
Celsus, "A Verdadeira Palavra", reconstrução a partir de Orígenes
As associações, algumas são públicas e de acordo com as leis. Outras, porém, são secretas e ilegais. Deste último tipo é o cristianismo. Os cristãos ensinam e praticam suas doutrinas favoritas em segredo. Eles fazem isso com algum propósito, procurando escapar da pena da morte que é iminente. Perigos semelhantes foram encontrados por homens como Sócrates por causa da filosofia. Suas "festas de amor" tiveram sua origem no perigo comum, e são mais vinculativas do que qualquer juramento. 
O sistema de doutrina, a saber, o judaísmo, do qual o cristianismo depende, era bárbaro na sua origem. Neste caso, como nos outros, os gregos são mais habilidosos do que qualquer outro povo em julgar, estabelecer e tornar práticas as descobertas de nações bárbaras. 
Seu sistema de moral é comum a outros filósofos, sem nada de novo ou venerável na sua instrução, embora eles achem que as suas regulamentações a respeito da idolatria sejam peculiares. Os cristãos não consideram os deuses que são feitos com as mãos, com o argumento de que não é razoável supor que as imagens, formadas pelos mais inúteis e depravados operários, em muitos casos pagos por homens perversos, possam ser consideradas deuses. Esta é uma opinião comum que não é original no cristianismo, pois já Heráclito teria dito para este efeito: "Aqueles que se aproximam de imagens sem vida, como se fossem deuses, agem de maneira semelhante àqueles que conversam com casas". Os persas também eram da mesma opinião, segundo Heródoto.


Celsus mostra-se familiarizado com o judaísmo. Utiliza um artifício literário em que elabora um diálogo fictício entre um judeu anónimo e Jesus:
Celsus, "A Verdadeira Palavra", reconstrução a partir de Orígenes
[O Discurso do Judeu a Jesus]
"Tu, senhor, inventaste o teu nascimento de uma virgem! Tu, Jesus, nasceste numa certa aldeia judaica, de uma pobre mulher do país, que ganhava a sua subsistência na fiação. Quando ela estava grávida, foi expulsa pelo carpinteiro a quem tinha sido desposada, como condenada de adultério, e ela carregou uma criança de um certo soldado chamado Panthera. Depois de ter sido repudiada pelo marido, e vagando por um tempo, ela desgraçadamente deu à luz Jesus, que, criado como filho ilegítimo, se fez servo no Egipto por causa da sua pobreza, e tendo adquirido o conhecimento de certos poderes milagrosos, sobre os quais os egípcios se orgulham muito, retornou ao seu próprio país, exaltado por causa deles, e por meio desses poderes se proclamou um deus. 
"Como é que a ficção de seu nascimento de uma virgem difere das fábulas gregas sobre Danae, Melanippe, Auge e Antiope? Se a mãe de Jesus fosse bela, o deus cuja natureza não ama um corpo corruptível, teve relações sexuais com ela porque era bela. Era improvável que o deus tivesse uma paixão por ela, porque ela não era nem rica nem de posição real, pois nem mesmo os seus vizinhos a conheciam. Quando odiada pelo seu marido, e expulsa, não foi salva pelo poder divino, nem era a sua história credível. Tais coisas não têm conexão com o reino dos céus. A predição de que nosso Senhor deveria vir ao mundo, e o relato da estrela e dos sábios que vieram do Oriente para adorar a criança são ficções [Mateus 2:1]. 
"Quando tu, Jesus, te banhavas ao lado de João, disseste que o que tinha a aparência de um pássaro desceu sobre ti [Mateus 3:16]. Que testemunha credível viu essa aparição? Ou quem ouviu uma voz do céu declarando que eras o filho de Deus? Que prova há, salvo tua própria afirmação ou a afirmação de outra pessoa que foi punida junto contigo? Este é o teu próprio testemunho, apenas apoiado pelos que compartilhavam a tua punição, a quem tu adotas.


Orígenes teria escrito assim sobre o caso do soldado Panthera:
Orígenes, "Contra Celsus", Livro I 
CAP. XXVIII 
E, imitando um retórico treinando um aluno, ele [Celsus] apresenta um judeu, que entra numa discussão pessoal com Jesus e que fala de uma maneira muito infantil, completamente indigno dos cabelos grisalhos de um filósofo. Deixe-me tentar o melhor da minha capacidade para examinar as suas afirmações e mostrar que ele não mantém, durante a discussão, a consistência do carácter de um judeu. Pois ele o representa disputando com Jesus, e confundindo-o, como ele pensa, em muitos pontos.  
Em primeiro lugar, ele o acusa de ter "inventado seu nascimento de uma virgem" e o reprova de "nascer numa certa aldeia judaica, de uma pobre mulher do país, que ganhou sua subsistência na fiação e que foi repudiada pelo seu marido, um carpinteiro de profissão, porque ela foi condenada por adultério, que, depois de ser expulsa pelo marido, e vagando por um tempo, ela desgraçadamente deu à luz Jesus, um filho ilegítimo, que se tornou servo no Egipto por causa de sua pobreza, e tendo adquirido alguns poderes milagrosos, dos quais os egípcios se orgulham muito, voltou para o seu próprio país, muito entusiasmado por causa deles, e por isso se proclamou um deus".
Agora, como não posso permitir que nada que seja dito pelos incrédulos permaneça não examinado, mas deve-se investigar tudo desde o início, dou como minha opinião que todas essas coisas se harmonizam dignamente com as previsões de que Jesus é o Filho de Deus.
... 
CAP. XXXII 
Mas voltemos agora para quando o judeu é apresentado falando sobre a mãe de Jesus e dizendo que "quando ela estava grávida, ela foi repudiada pelo carpinteiro a quem ela tinha sido desposada, como culpada de adultério, e que ela carregou o filho de um soldado chamado Panthera". 
E deixe-nos ver se aqueles que têm cegamente inventado essas fábulas sobre o adultério da Virgem com Panthera e sua rejeição pelo carpinteiro, não inventaram essas histórias para depreciar sua milagrosa concepção pelo Espírito Santo: pois eles poderiam ter falsificado a história de uma maneira diferente, por causa de seu caráter extremamente milagroso, e não admitiram, por assim dizer, contra sua vontade, que Jesus não nasceu de nenhum casamento humano comum. Era de esperar, de facto, que aqueles que não acreditassem no nascimento milagroso de Jesus inventariam alguma falsidade. 
E eles não fazem isso de maneira credível, mas preservam o facto de que não foi por José que a Virgem concebeu Jesus, tornando a falsidade muito palpável para aqueles que podem entender e detectar tais invenções. 
É de todo razoável raciocinar, que aquele que ousou fazer tanto pela raça humana, para que, tanto gregos como bárbaros, que procuravam a condenação divina, poderiam afastar-se do mal, regulando toda a sua conduta de uma maneira agradável ao Criador do mundo, não deveria ter tido um nascimento milagroso, mas um mais vil e mais vergonhoso de todos?  
E eu perguntarei a eles como gregos, e particularmente a Celsus, se mantém ou não os sentimentos de Platão, ja que os cita, se Aquele que envia almas para dentro dos corpos dos homens [no nascimento], degradou assim aquele que ousou assim actos poderosos de ensinar tantos homens, e livrar tantos da maldade no mundo, até um nascimento mais vergonhoso do que qualquer outro, e não o apresentou ao mundo através de um casamento legal?  
Ou não está mais em conformidade com a razão, que toda alma que, por certas razões misteriosas (eu falo agora de acordo com a opinião de Pitágoras, Platão e Empédocles, a quem Celsus frequentemente cita), é introduzida num corpo e introduzida de acordo com os seus desejos e acções anteriores?  
É provável, portanto, que esta alma, também, que conferiu mais benefícios pela sua residência na carne do que a de muitos homens (para evitar alguma depreciação, não digo "todos"), precisava de um corpo não apenas superior a outros, mas investiram com todas as excelentes qualidades.


Podemos verificar a pobreza das respostas de Orígenes aos argumentos de Celsus em todo o texto de "Contra Celsus"...


Referências:
 - http://trisagionseraph.tripod.com/Texts/Celsus.html
 - http://www.earlychristianwritings.com/origen.html


domingo, 30 de abril de 2017

Século II - Actos de João



Introdução

O livro "Actos de João" não entrou no Novo Testamento, pois foi preterido em relação à obra "Actos dos Apóstolos" a qual estaria mais de acordo com a doutrina escolhida pela Igreja.

Embora o começo do livro esteja perdido, existem algumas porções largas no original grego, e uma versão latina de alguns episódios perdidos, além de alguns fragmentos dispersos.

Como com as outras obras dentro do género "Actos de Apóstolos", a narrativa segue o contexto dos anos seguintes à suposta crucificação e ressurreição de Jesus conforme tradições cristãs primitivas. A narrativa tem como fio condutor duas viagens do Apóstolo João a Éfeso, cheias de eventos dramáticos, milagres e ensinamentos.

Resumo

O texto existente começa com João e um pequeno grupo em viagem de Mileto para Éfeso.

Morre por fé insuficiente

Em Éfeso, João é esperado por um aristocrata local, Lycomedes. Este confessa que teve uma revelação do Deus de João, que o avisou de que um homem de Mileto iria curar a sua esposa que se encontrava paralisada, há sete dias, por doença. À chegada, Lycomedes lamenta-se, amaldiçoa a sua situação e, apesar dos apelos de João para ter fé em que sua esposa seria curada pelo poder de Deus, cai morto de sofrimento. Toda a cidade de Éfeso é agitada pela sua morte e o povo chega a sua casa para ver o seu corpo. João reza para que se levantem os dois para provar o próprio poder de Cristo. Tanto Lycomedes como a sua mulher levantam-se, deixando o povo de Éfeso maravilhado com o milagre.

Dress-code obrigatório

Mais tarde, durante um festival que celebra o aniversário da Deusa grega Ártemis, o povo de Éfeso tenta matar João porque foi ao templo vestido de preto, em vez de branco. João os repreende, ameaçando que o seu Deus os mataria se eles não conseguissem convencer sua Deusa a fazê-lo morrer no local. Sabendo que João tinha realizado muitos milagres na sua cidade, as pessoas que estavam no templo imploram a João para que não as mate. João então muda de ideias, usando o poder de Deus para quebrar o altar de Artemis, danificar as ofertas e ídolos dentro do templo, e colapsar metade da estrutura. O sacerdote do templo acaba por morrer esmagado pelo tecto. Ao ver essa destruição, o povo rende-se imediatamente ao Deus de João.

Insectos irritantes, mas obedientes

Num outro episódio, João, o narrador e os seus companheiros passam a noite numa estalagem infestada de percevejos. Imediatamente depois de se deitar, o autor e os outros homens com ele veem João irritado pelos insectos na cama e ouvem-no dizer: "Eu vos digo, bichos, prestem atenção: deixem vossa casa por esta noite, vão para longe dos servos de Deus!" Na manhã seguinte, o narrador, acompanhado por dois de seus companheiros de viagem, Verus e Andrónicus, encontram os insectos reunidos na entrada, esperando para voltar ao colchão da cama de João. Os três homens acordam João, que permite que as criaturas retornem à cama.

Necrofilia

Imediatamente após o encontro de João com os percevejos, o grupo viaja até à casa de Andrónicus em Éfeso. Andrónicus é casado com Drusiana, uma devota crente em Deus, que permaneceu casta até mesmo no casamento (negou sexo ao seu marido até este converter-se à mesma fé). No entanto, o seu celibato não impede os avanços de Calímacus, um membro proeminente da comunidade de Éfeso. Após as investidas deste, Drusiana adoece e morre porque acredita ter contribuído para a perversão de Calímacus. Enquanto João consola Andrónicus e muitos dos outros habitantes de Éfeso por causa da perda de Drusiana, Calímacus, determinado a ter Drusiana como sua, suborna o mordomo de Andrónicus, Fortunatus, para que possa ter acesso ao seu túmulo e violar o seu cadáver. No entanto, Calímacus descobre que o túmulo é guardado por uma serpente venenosa que morde e mata Fortunatus. Calímacus ainda tenta violar o cadáver de Druisiana, mas depara-se com um belo jovem que protege o corpo de Druisiana. O jovem faz Calímacus "morrer, para que possa viver."

Recompensa-se o criminoso

No dia seguinte, João e Andrónicus entram no túmulo de Drusiana e são cumprimentados pelo belo jovem, identificado mais tarde como Cristo, que diz que é suposto João levantar Drusiana de volta à vida antes de ascender ao céu. João faz isso, mas não antes de ressuscitar Calímacus, a fim de saber o que tinha ocorrido na noite anterior. Calímacus relata os acontecimentos da noite e mostra-se arrependido. A seguir, Drusiana é ressuscitada. Ela sente pena do outro agressor e João concede-lhe a capacidade de ressuscitar Fortunatus, com a oposição de Calímacus. Fortunatus, como não queria aceitar Cristo, foge do túmulo mas morre devido ao envenenamento causado pela mordida inicial da cobra.

Tom Docético

Quase na finalização (versículos 87 a 102), João narra a sua versão sobre a crucificação de Cristo, explicando que todos os acontecimentos foram forjados pelo próprio "Senhor" como uma encenação. João diz: "Mas no fundo eu sabia que o Senhor tinha inventado todas estas coisas simbolicamente com vista a um perdão para com os homens, para sua conversão e salvação."
João explica mesmo que o Cristo é um conjunto de conceitos e que já lhe aparecera sob em inúmeras formas (como criança, como velho, como gigante, etc).

Na terminologia cristã, docetismo (gr. dokein (parecer) / dókēsis (aparição, fantasma)), pode ser definido como a doutrina segundo a qual o fenómeno de Cristo, sua existência histórica e corporal, e, portanto, acima de tudo, a forma humana de Jesus, é apenas mera aparência, sem qualquer verdadeira realidade.

A Igreja Católica combateu o docetismo, porque preferiu a versão de que Jesus surgiu como uma criança humana nascida de uma mulher virgem tendo se tornado, em adulto, um pregador famoso na Galiléia. Jesus, portanto, sofrera e morrera na cruz tal como qualquer outro humano que fosse crucificado.



Texto (excertos)

Actos de João 
[De Mileto a Éfeso] 
18 João viaja, com um grupo, de Mileto para Éfeso e ouve uma voz dos céus que lhe diz que ele iria "dar glória ao Senhor em Éfeso".
19 Lycomedes, o pretor dos efésios, aproxima-se dos viajantes, caindo aos pés de João, dizendo:
 - "Teu nome é João? O Deus que tu pregaste te enviou para bem da minha mulher, Cleópatra, que tem paralisia incurável, desde há sete dias. Glorifica o teu Deus, curando-a e mostrando compaixão por nós.... Fui avisado que virias em salvação da minha mulher que, agora, não é nada senão o seu fôlego."
20 Quando Lycomedes entrou com João na casa onde estava sua mulher, agarrou-se aos pés de João e lamentou-se:
 - "Senhor, vê o desvanecimento da beleza, da jovem, da prestigiosa flor da minha pobre esposa Cleópatra; ...".
21 E, com muito mais palavras, aproximando-se do leito de Cleópatra, Lycomedes lamentou a sua esposa, mas João o afastou e disse:
 - "Pára com estas lamentações[...]. Não desobedeças ao que te apareceu pois sabes que receberás novamente a tua consorte. Permanece, portanto, connosco, reza ao Deus que viste, manifestando-se em sonhos. O que é, então, Lycomedes? Desperta tu também! Rejeita o sono pesado de ti: suplica ao Senhor, suplica-o por tua mulher, e ele a levantará."
Mas, para surpresa de João, Lycomedes caiu ao chão inanimado.
João, portanto, disse em lágrimas:
 - "O que é isto que aconteceu? Parece que fui traído pela voz do céu que me trouxe aqui! Que dirá esta multidão de cidadãos sobre o que sucedeu agora com Lycomedes? O homem está sem fôlego, e sei bem que não me deixarão sair vivo da casa. Por que te demoras, Senhor? Por que não cumpres a tua boa promessa? ... Levanta estes dois mortos cuja morte está contra mim."
22 E, equanto João ainda clamava, toda a cidade dos efésios correu para a casa de Lycomedes, ouvindo que ele estava morto. E João, vendo a grande multidão que havia chegado, disse ao Senhor:
 - "Agora é o tempo de reforçar a confiança em ti, ó Cristo; Agora é o tempo para nós, que estamos doentes, termos a tua ajuda, ó médico que curas livremente; Guarda-me do escárnio, entrando aqui. Peço-te, ó Jesus, ... pois tu disseste, ó Cristo, 'Pede, e te será dado'. ..."
23 E, aproximando-se de Cleópatra, tocou-lhe no rosto e disse mais umas palavras. E logo Cléopatra clamou com grande voz:
 - "Levanto-me, Senhor, salva tua serva!"
Agora, quando ela surgiu após sete dias, a cidade de Éfeso se moveu surpreendida. E Cleópatra perguntou a respeito de seu marido Lycomedes, mas João lhe disse:
 - "Cleópatra, se tu mantiveres a tua alma firme, tu terás imediatamente Lycomedes, teu marido, de volta... Vem, pois, comigo ao teu outro quarto, e tu o verás, um cadáver de verdade, mas ressuscitado pelo poder do meu Deus."
24 E Cleópatra indo com João para o seu quarto e, vendo Lycomedes morto por causa dela, ficou muda, rangeu os dentes, mordeu a língua e fechou os olhos em lágrimas. A sua calma chamou a atenção do apóstolo. João teve compaixão de Cleópatra quando viu que ela não se enfurecia nem estava fora de si, e invocou Jesus numa oração.
E o apóstolo foi para o sofá onde estava Lycomedes e, tomando a mão de Cleópatra, disse:
 - "Cleópatra [...] diz ao teu marido para se levantar e glorifica o Nome de Deus, pois ele devolve os mortos aos mortos."
E ela foi ter com seu marido e falou-lhe em conformidade, e imediatamente o levantou. E, levantando-se, ele prostrou-se imediatamente no chão beijando os pés de João.
Mas João o levantou, dizendo:
 - "Ó homem, não beijes os meus pés, mas os pés de Deus, pelo poder de quem fostes ambos ressuscitados."
25 Lycomedes e Cleópatra insistem para que João e os seus companeiros permaneçam com eles.
E Cleobius com Aristodemus e Damonicus, tocados na alma, e disseram a João: "Permaneçamos com eles." Então ele continuou ali com os companheiros.
26 Reuniram-se, pois, grandes multidões, por causa de João. E, enquanto João discursava aos que estavam ali, Lycomedes chamou um amigo que era um pintor habilidoso, pedindo-lhe que pintasse o retrato de João.
27 O pintor acabou o quadro e entregou-o. E Lycomedes pendurou-o no seu próprio quarto, com uma coroa de flores. Mais tarde, João, quando o percebeu, disse-lhe: "Meu amado filho, o que é que tu sempre fazes a sós no teu quarto quando vens do banho? Não oro contigo e com os outros irmãos? Ou há algo que nos escondes?"
E João entrou no quarto de Lycomedes e viu o retrato de um ancião decorado com uma coroa de flores, lamparinas e altares colocados diante dele. E chamou-o e disse: "Lycomedes, que significa este retrato? É algum dos teus deuses? Pelo que vejo tu ainda vives de modo pagão".
E Lycomedes respondeu-lhe: "O meu único Deus é aquele que me ressuscitou da morte com a minha mulher; mas se, junto a esse Deus, é justo que os homens que nos beneficiaram sejam chamados deuses; Tenho, pintado naquele retrato, aquele que reverencio como meu bom guia."
28 E João, que nunca tinha visto o seu próprio rosto, disse-lhe: "Por acaso troças de mim, filho? Sou assim? Como podes me provar que o retrato é o meu?" E Lycomedes trouxe-lhe um espelho. E, vendo-se no espelho e olhando atentamente para o retrato, disse: "Cristo! O retrato é como eu; mas não como eu, filho, mas como a minha imagem carnal; Pois se este pintor, que imitou o meu rosto, desejou desenhar-me num retrato, perdeu algo; As cores, os materiais, a posição das formas, a velhice, a juventude são coisas que são vistas com o olho."
29 "Mas torna-te para mim um bom pintor, Lycomedes. ...[referência a pintura metafórica]".
[...] 
30 E ordenou a Verus, o irmão que o serviu, que ajuntasse as mulheres idosas de Éfeso, e preparou, ele e Cleópatra e Lycomedes, todas as coisas para cuidar delas. Verus, então, veio a João, dizendo:
 - "Das mulheres idosas que estão aqui com mais de sessenta anos eu encontrei apenas quatro sã no corpo, e do resto [...] algumas paralizadas e outras doentes."
E quando ouviu isso, João ficou em silêncio por um longo tempo, e esfregou o rosto e orou "[...]"
31 Ora, quando toda a multidão se reuniu com Lycomedes, este dispersou-os em nome de João, dizendo:
 - "Amanhã, venham ao teatro, todos quantos quiserem ver o poder de Deus".
E a multidão, no dia seguinte, enquanto ainda estava escuro, veio ao teatro - também o procônsul ouviu-o e enviou um seu delegado com todo o povo. E um certo pretor, Andromeus, que era príncipe dos efésios naquele tempo, questionou sobre as coisas impossíveis e incríveis que João prometeu:
 - "Mas se ele diz que é capaz de fazer as coisas que eu ouvi, deixe-o entrar no teatro público, aberto, e que venha nu, sem nada nas mãos, sem dizer o nome mágico que ouvi."
32 João, sendo movido por estas palavras, ordenou que as mulheres idosas fossem levadas para o teatro. E, quando todas foram trazidas para o meio, algumas delas sobre camas e outras deitadas em sono profundo, e toda a cidade tinha corrido junta, e um grande silêncio foi João abriu a boca e começou a dizer:
33  - "Vós, homens de Éfeso, aprendam primeiro de tudo o que estou a fazer na vossa cidade, ou que grande confiança tenho para convosco, para que se manifeste a esta assembleia geral e a todos vós ..."
37 E, havendo dito isto, João, pelo poder de Deus, curou todas as doenças. 
[...] 
Ora, os irmãos de Mileto disseram a João:
 - "Permanecemos já há muito tempo em Éfeso. Se te parecer bem, vamos também a Esmirna pois já ouvimos que as obras poderosas de Deus também a alcançaram".
Andrónicus disse-lhes:
 - "Quando o mestre quiser, vamos".
Mas João disse:
 - "Vamos primeiro ao templo de Artemisa, porque também ali, se nos mostrarmos, novos servos do Senhor serão achados."
38 Dois dias depois era o aniversário do templo dos ídolos. João, pois, quando todos se vestiram de branco, vestiu-se de vestes negras e subiu ao templo. E eles o tomaram e tentaram matá-lo. João, porém, disse:
 - "Vós sois loucos para se virarem contra mim, um servo do único Deus."
E, levantando-o sobre um alto pedestal, disse-lhes:
39 - "Vós correis perigo, homens de Éfeso, [...]. Pois agora é tempo: ou vos converteis ao meu Deus, ou eu mesmo morro pela vossa deusa. Orarei na vossa presença e suplicarei ao meu Deus que vos seja dada misericórdia."
41 E, tendo assim dito, orou: "[... oração contra a idolatria ...]"
42 E como João falou estas coisas, imediatamente o altar de Ártemis foi dividido em muitos pedaços, e todas as coisas dedicadas no templo cairam, e foi rasgado em pedaços, e também mais de sete das imagens dos deuses. E a metade do templo caiu, de modo que o sacerdote foi morto pela queda do tecto. A multidão de Éfeso clamava:
 - "Único é o Deus de João; único é o Deus que tem piedade de nós, pois tu és um Deus; agora nos voltarmos para ti, contemplando as tuas maravilhas! Tem piedade de nós, ó Deus, segundo a tua vontade, e salva-nos do nosso grande erro!".
E alguns deles, deitados sobre os seus rostos, suplicaram, e alguns se ajoelharam e rogaram, e alguns rasgaram suas roupas e choraram, e outros tentaram escapar.
43 Mas João estendeu as mãos e, levantando-se em sua alma, disse ao Senhor:
 - "Glória a ti, meu Jesus, o único Deus da verdade, para que ganhes os teus servos por diversos meios".
E, tendo dito isto, disse ao povo:
 - "Levantai-vos do chão, homens de Éfeso, e orai ao meu Deus, e reconhece o poder invisível que vem à manifestação, e as obras maravilhosas que são feitas diante dos vossos olhos. Artemis deveria ter-se socorrido: seu servo deveria ter sido ajudado por ela e não ter morrido.[...]"
44 Mas o povo, levantando-se do chão, apressadamente derrubou o restante do templo do ídolo, clamando preces ao "Deus de João". E, quando João desceu do templo, muita gente o tomou, pedindo-lhe ajuda e rendendo-se a ele.
45 E João disse-lhes que ficaria em Éfeso.
46 João, pois, prosseguiu com eles, recebendo-os na casa de Andromeus. E um dos que estavam reunidos colocou o cadáver do sacerdote de Artemisa diante da porta, porque era seu parente, e entrou depressa com os demais, sem dizer nada. [...] João ressuscitou o sacerdote.
47 E [...]. O sacerdote imediatamente acreditou no Senhor Jesus e depois disso se apegou a João. 
[...] 
48 No dia seguinte, João, tendo sonhado que deveria ir para fora dos portões da cidade, levantou-se cedo e partiu para o caminho, juntamente com os irmãos.
E um certo jovem, ao ser advertido por seu pai para não tomar para si a esposa de um colega, irou-se com o seu pai. Este jovem não suportou a admoestação do seu pai e, assim, o pontapeou e o deixou morto. [...]
49 O jovem, vendo a violência da morte, e esperando ser detido, tirou a foice que estava no seu cinto e começou a correr para a sua casa. E João encontrou-se com ele e disse:
 - "Pára, ó diabo sem vergonha, e diz-me para onde vais com essa foice que tem sede de sangue".
E o jovem, perturbado, lançou o ferro no chão e disse-lhe:
 - "Fiz um acto miserável e bárbaro, eu sei, e assim decidi fazer um mal ainda pior e mais cruel, e, no fim, até mesmo morrer. Pois meu pai sempre instou para que eu vivesse em sobriedade, sem adultério e castamente, e eu não poderia suportá-lo na sua reprovação, e eu o matei. E quando vi o que estava feito, apressei-me para a mulher por quem me tornei o assassino de meu pai, com a intenção de matá-la e ao seu marido, e matar-me no fim. Pois não podia suportar sofrer o julgamento da morte."
50 Disse-lhe, pois, João:
 - "... Mostra-me onde está o teu pai. E, se eu o ressuscitar, abster-te-eis depois da mulher que se tornou um laço para ti?"
E o jovem disse:
 - "Se tu levantares o meu pai, abster-me-ei dela".
51 Quando chegaram ao lugar onde o velho estava morto, muitos transeuntes estavam ali perto. E disse João ao jovem:
 - "Miserável, não poupaste a velhice de teu pai?"
E ele, chorando e arrancando os seus cabelos, disse que estava arrependido. E João rogou ao Senhor:
 - "Tu me mostraste que eu devia partir para este lugar, tu sabias que isso aconteceria, de quem nada pode ser escondido das coisas feitas na vida, [...] agora dá vida a este velho, pois vês que o seu assassino se tornou seu próprio juiz [...]".
52 E, com estas palavras, aproximou-se do ancião e disse:
 - "[...] levanta-te, pois, e dá glória a Deus".
E o ancião, levantando-se, disse:
 - "Fui libertado de uma vida terrível e tive de suportar os muitos e terríveis insultos de meu filho e a sua falta de afecto. Para que fim me chamaste de volta, ó homem do Deus vivo?"
E João respondeu-lhe:
 - "Se tu fosses levantado apenas para o mesmo fim, era melhor para ti continuar morto. Mas levanta-te para coisas melhores".
E tomou-o e levou-o para a cidade, pregando-lhe a graça de Deus, de modo que, antes de entrar nos portões, o velho teve fé.
53 Mas o jovem, vendo o inesperado levantamento de seu pai e a sua própria salvação, tomou uma foice e se mutilou [cortou o seu pénis?], e correu para a casa em que teve a sua adúltera, e a censurou: "Por tua causa, eu me tornei o assassino de meu pai e de você dois e de mim. Tens igualmente culpa. Mas Deus teve misericórdia de mim, para que eu conheça o seu poder."
54 E voltou e disse a João, na presença dos irmãos, o que tinha feito. Mas João lhe disse:
 - "Aquele que te pôs no teu coração, jovem, para matares teu pai e tornares-te adúltero da mulher de outro homem, o mesmo também te fez pensar que era uma acção correcta mutilares o teu membro. Mas tu deverias ter acabado, não com a parte física do pecado, mas o pensamento que tornou esse membro nocivo: porque não foi isso que te prejudicou, mas as fontes invisíveis pelas quais toda emoção vergonhosa é agitada e vem à luz. Arrepende-te, pois, meu filho, desta falha, e tendo aprendido as ciladas de Satanás, terás Deus para te ajudar em todas as necessidades da tua alma". E o jovem arrependeu-se[...].
55 Quando, pois, estas coisas tinham sido feitas por ele na cidade de Éfeso, enviaram-lhe uma mensagem de Esmirna, dizendo que João não deveria permanecer apenas em Éfeso mas deveria ir a outras cidades e, em particular, ir a Esmirna.
[...] 
[De Laodicca a Éfeso] 
58 [João diz que tem de voltar a Éfeso]
59 E tendo assim dito, e despedindo-se deles, e deixando muito dinheiro com os irmãos para distribuição, ele saiu para Éfeso, enquanto todos os irmãos se lamentavam e gemiam. E lá o acompanharam, de Éfeso, Andrónicus e Drusiana e Lycomedes e Cleobius e suas famílias. E lá o seguiu Aristóbula também, que ouvira dizer que seu marido Tertullus morrera no caminho, e Aristipo com Xenofonte, e a prostituta que era casta, e muitos outros, a quem exortou em todo tempo a se unirem ao Senhor, e eles Não mais se separaria dele.
60 No primeiro dia chegámos a uma pousada deserta e, quando vimos que não havia uma cama para o João, aconteceu algo engraçado. Havia uma cama ali, mas sem cobertores, onde espalhamos os mantos que estávamos usando, e rogámos para que ele se deitasse e descansasse, enquanto nós dormíamos no chão. Mas, quando se deitou, ele incomodou-se com os percevejos da cama e, irritando-se ainda mais a meio da noite, nós ouvimos João dizer:
 - "Eu digo-vos, bichos, comportai-vos, todos vós, e deixai o vosso ninho por esta noite, e ficai quietos num só lugar, e mantenham-vos afastados dos servos de Deus".
< br /> E, enquanto nós rimos, e continuámos a conversar por algum tempo, João adormeceu. Nós, falando baixinho, não o perturbámos.
61 Mas quando o dia amanheceu, eu me levantei primeiro, e comigo Verus e Andrónicus e vimos, à porta da casa em que tínhamos ficado, um grande número de insectos ali reunidos e, enquanto nos espantámos com o cenário, João continuou dormindo. E quando despertou, declarámos-lhe o que vimos. E ele se sentou na cama e olhou para os bichos e disse: "Como vocês portaram-se bem e escutaram a minha repreensão, podem regressar ao vosso lugar". E quando ele disse isso e levantou-se da cama, os insectos correndo da porta precipitaram-se para a cama e subiram pelas suas pernas e desapareceram nas juntas. E João disse: "Estas criaturas ouviram a voz de um homem e ficaram caladas e obedeceram, mas nós que ouvimos a voz e os mandamentos de Deus desobedecemos e somos ligeiros, mas por quanto tempo?" 
62 Depois destas coisas viemos a Éfeso; e ali os irmãos, que haviam sabido durante muito tempo que João estava vindo, correram juntos [...] e muitos foram curados tocando as suas roupas.
63 E considerando que havia um grande amor e alegria inigualável entre os irmãos, um certo indivíduo, mensageiro de Satanás, enamorou-se de Drusiana, embora soubesse que ela era esposa de Andrónicus. A esse indivíduo muitos advertiram: "Não é possível para ti obter essa mulher, apesar de ela ter-se afastado do seu marido por causa da devoção. Tu ignoras que Andrónicus encerrou-a num túmulo, dizendo-lhe: 'ou és a esposa que eu tinha antes, ou morres'. E ela preferia morrer do que ficar em impureza. Se, então, ela não consentiu, por devoção, deitar-se com o seu marido, mas até mesmo persuadiu-o a ser da mesma fé que ela, achas que ela consentirá ser seduzida por ti? Afasta-te desta loucura que não tem descanso em ti: abandona esse acto que não podes realizar."
64 Os seus amigos e familiares, dizendo-lhe estas coisas, não o convenceram pois ele a cortejou descaradamente com mensagens; e ela devolvia insultos a estas mensagens e considerava o cortejo como desgraça, passou a viver sua vida em melancolia. E, após dois dias, em que Drusiana ficou na cama com depressão e com febre, ela disse que estava para "partir da vida". E na presença de João, que nada sabia de tal assunto, Drusiana partiu da vida não totalmente feliz, sim, até perturbada por causa do dano espiritual causado pelo homem.
65 Mas Andrónicus, entristecido secretamente, lamentou-se em sua alma e chorou abertamente, de modo que João o via com freqüência e lhe disse: "Com uma melhor esperança, Drusiana saíu desta vida iníqua". E Andrónicus respondeu-lhe:
 - "Sim, estou convencido disto, ó João, e não duvido em absoluto em relação à confiança no meu Deus; mas isso mesmo eu mantenho firme, que ela partiu da vida pura."
66 E quando ela foi levada, João tomou conta de Andrónicus, e agora que ele sabia a causa, ele chorou mais do que Andrónicus. E ele manteve silêncio, considerando a provocação do adversário, procurando um espaço sossegado. Então, estando os irmãos reunidos ali para ouvir a palavra para aquela que havia partido, começou a dizer:
67 - "[...longo discurso...]"
[...]
70 E, enquanto João falava ainda mais aos irmãos que desprezassem as coisas temporais em favor das coisas eternas, aquele que estava apaixonado por Drusiana, inflamado por uma terrível luxúria e possessão de Satanás de muitas formas, subornou o mordomo de Andrónicus, que era um amante do dinheiro, com uma grande soma: e ele abriu o túmulo e deu-lhe oportunidade de fazer a coisa proibida sobre o corpo morto dela. Não tendo conseguido com ela quando estava viva, ele quis ser importuno para o seu corpo morto, dizendo: "Se tu não querias ter comigo enquanto vivias, ultrajarei teu cadáver, agora que estás morta". Com este desígnio, e tendo conseguido a colaboração do abominável mordomo, pois os dois foram ao sepulcro, abriram a porta, tiraram as roupas do cadáver, dizendo:
 - "De que te serviu, pobre Drusiana? Não poderias ter feito isso na vida, o que porventura não te teria afligido, se o fizesses de boa vontade?"
71 E enquanto estes homens estavam falando assim, um espetáculo estranho foi visto, com eles merecendo o sofrimento por tais ações. Uma serpente apareceu de algum local e matou o mordomo com uma mordida. Não atacou o jovem mas enrolou-se em torno dos seus pés, sibilando terrivelmente, e quando ele caiu a serpente sentou-se sobre ele.
72 No dia seguinte veio João, acompanhado de Andrónicus e dos irmãos, ao sepulcro ao amanhecer, sendo agora o terceiro dia da morte de Drusiana, para que ali pudéssemos repartir o pão [eucaristia]. E, antes de partirem, procuraram as chaves do túmulo mas não as encontravam. João disse a Andrónicus:
 - "Pois se as chaves se perderam, Drusiana não estará no sepulcro. Mas, vamos, e as portas se abrirão por si mesmas, pois o Senhor nos ajudará."
73 E quando estávamos no lugar, por ordem do mestre, as portas se abriram e vimos, por volta do túmulo de Drusiana, um belo jovem, sorrindo. João, ao vê-lo, clamou e disse:
 - "Juntas-te a nós, Belo? Porquê?"
E ouvimos uma voz que lhe dizia:
 - "Por causa de Drusiana, a quem tu vais levantar, pois eu vinha ao encontro dela. E por causa do que morreu ao lado do seu túmulo".
E quando o belo jovem disse isto a João, subiu aos céus à vista de todos nós. E João, virando-se para o outro lado do sepulcro, viu um jovem - era Calímacus, um dos príncipes dos efésios - e uma enorme serpente dormindo sobre ele, e o mordomo de Andrónicus, que se chamava Fortunatus, morto. E ao ver os dois, João ficou perplexo, dizendo aos irmãos:
 - "Que significa tal visão? Ou por que o Senhor, que nunca me negligenciou, não me declarou o que foi feito aqui?"
74 Andrónicus, vendo esses cadáveres, correu para o túmulo de Drusiana, e vendo-a deitada, disse a João:
 - "Eu entendo o que aconteceu, bendito servo de Deus, João. Este Calímacus estava apaixonado pela minha esposa. E porque ele nunca a conquistou, embora o tenha tentado muitas vezes, subornou este mordomo maldito com uma grande soma, talvez projectando, como agora podemos ver, conseguir por seus meios a tragédia de sua conspiração, porque de facto Calímacus confessou isto a muitos, dizendo: 'Se ela não consentir em mim quando viva, ela será ultrajada quando morta'. E pode ser, mestre, que o Belo sabia e evitou que o corpo dela fosse insultado, e, portanto, fez estes dois morrerem enquanto tentavam. E pode ser que a voz que te disse: 'Levanta Drusiana', previu isso? Porque ela saiu desta vida em tristeza de espírito. Eu creio que este é um homem que se desviou. Poderei pedir para o ressuscitar, apesar de, como o outro, ser indigno de salvação. Mas uma só coisa te peço: levanta primeiro Callimaco, e ele nos confessará o que aconteceu."
75 E João, olhando para o corpo, disse ao animal venenoso:
 - "Retira-te daquele que será servo de Jesus Cristo".
E orou para que o jovem fosse ressuscitado. E logo o jovem levantou-se, e durante uma hora ficou em silêncio.
76 Mas, quando ele recuperou os sentidos, João perguntou-lhe porque entrara no sepulcro e ele respondeu, como Andrónicus lhe dissera, que se apaixonara por Drusiana. João inquiriu-lhe o que seria se ele tivesse cumprido sua intenção de profanar um corpo cheio de santidade. E ele respondeu-lhe:
 - "Como poderia eu conseguir isto quando esta besta temível golpeou Fortunatus à minha frente e, justamente, pois ele encorajou o meu delírio, quando eu já estava curado dessa loucura irracional e horrível. Mas parou-me com aquela situação em que me viste antes de me levantares. E outra coisa ainda mais maravilhosa eu vou te dizer, que eu ainda estava muito perto de matar e matar-me. Quando a minha alma estava agitada com loucura e a doença incontrolável me perturbava, eu arranquei as roupas da defunta. E vi um belo jovem cobrindo-a com o seu manto, e dos seus olhos saíram faíscas de luz em direcção aos olhos dela. E ele me proferiu: 'Callimaco, morre para que vivas'. Ora, quem era ele, não sei, servo de Deus. Mas, agora que tu aqui apareceste, eu reconheço que ele seria um anjo de Deus. [...] Por isso, rogo-te ajuda, [...], eu que serei fiel, temente a Deus, conhecendo a verdade, a qual te suplico que me seja mostrada por ti."
77 E João, cheio de grande alegria e percebendo todo o espectáculo da salvação do homem, rogou a Deus, em oração, para que o homem fosse salvo
78 E, havendo feito a súplica, João tomou Callimaco e o saudou, dizendo:
 - "Glória ao nosso Deus, meu filho, que teve misericórdia de ti, e me fez digno de glorificar o seu poder, para que te afastes da tua abominável loucura e embriaguez, e te chamou para o seu descanso e renovação da vida."
79 Mas Andrónicus, vendo Calímacus ressuscitado, suplicou a João, com os irmãos, que também levantassem Drusiana, dizendo:
 - "João, deixa que Drusiana se levante e viva a vida da qual ela desistiu por causa de Calímacus, quando ela pensou que se tinha tornado um tropeço para ele. Quando o Senhor quiser, pode tomá-la novamente para si mesmo".
E João, sem demora, foi até o seu sepulcro, e pegou-lhe na mão, e disse umas palavras.
80 E depois destas palavras João disse:
 - "Drusiana, levanta-te".
E ela se levantou e saiu do sepulcro e ficou perplexa mas, quando soube tudo o que sucedera, alegrou-se com Calímacus e glorificaram juntos.
81 E quando ela se vestiu, virou-se e viu Fortunatus deitado, e disse a João:
 - "Pai, que este homem também se levante, ainda que se tenha tornado meu traidor".
Mas Calímacus, quando a ouviu dizer isso, disse:
 - "Não, Drusiana, pois a voz que ouvi não pensou nele, mas apenas a respeito de ti, e eu vi e acreditei, pois se ele tivesse sido bom, Deus teria tido misericórdia dele também e o teria ressuscitado por meio de João. Ele julga digno de morrer quem não é digno de ressuscitar".
E disse-lhe João:
 - "Não aprendemos, filho meu, a fazer o mal pelo mal, porque Deus, embora tenhamos feito muito mal e nenhum bem para com Ele, não nos deu retribuição, mas oportunidade de arrependimento, [...], como ele a ti, também, meu filho Calímacus, perdoando o teu antigo mal te fez servo, dando-te fé na sua misericórdia. Portanto, se não queres que eu levante Fortunatus, Drusiana o fará."
82 E ela, dirindo-se para o corpo de Fortunatus, disse:
 - "Jesus Cristo, Deus dos séculos, Deus da verdade, que me concedes ver maravilhas e sinais, [...] Que eu tenho amado e afeiçoado: peço-te, ó Cristo, não recusas a tua Drusiana que te pede para levantar Fortunatus, embora ele tenha ensaiado ser meu traidor."
83 E, tomando a mão do morto, disse:
 - "Levanta-te, Fortunatus, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo".
E Fortunatus levantou-se, e quando viu João no sepulcro, e Andrónicus, e Drusiana ressuscitada, e Calímacus como crente, e o resto dos irmãos glorificando a Deus, disse:
 - "Ó, que poderes estes inteligentes homens obtiveram! Eu não queria ser levantado, pois prefiro morrer, para não vê-los".
E com estas palavras fugiu e saiu do sepulcro.
84 E João, quando percebeu que Fortunatus não tinha mudado de carácter, disse:
 - "Ó natureza que não é mudada para melhor! Ó fonte da alma que permanece em impureza! [...] Que Jesus Cristo, nosso Deus, te faça perecer bem como a todos com o teu carácter".
85 E, havendo dito isto, orou João, e tomou o pão e o partiu no sepulcro e orou.
86 E tendo assim orado e dado glória a Deus, saiu do sepulcro depois de dar a todos os irmãos da eucaristia do Senhor. E quando chegou à casa de Andrónicus, disse:
 - "Irmãos, um espírito dentro de mim adivinhou que Fortunatus está prestes a morrer de envenenamento do sangue da mordida da serpente, mas que alguém vá e certifique-se se realmente sucederá".
E um dos jovens correu e o encontrou morto e veio e disse a João que ele estava morto há três horas. E João disse:
 - "Recebe o teu filho, Satanás". 
87 Havia algo que Drusiana tinha dito, que gerou perplexidade aos que estavam presentes. Drusiana tinha dito: "O Senhor apareceu-me no sepulcro na forma de João e na forma de um jovem". Porquanto, como estavam confusos e como, de certo modo, ainda não estavam firmes na fé, João disse: 
88 "Homens e irmãos, não sofreis nada estranho ou incrível no que diz respeito à vossa percepção, porquanto nós, a quem Ele escolheu como apóstolos, fomos julgados de muitas maneiras. Eu, de facto, não sou capaz de descrever as coisas que tanto vi como ouvi. Agora é necessário que eu vos explique: 
Pois, quando ele escolheu Pedro e André, que eram irmãos, veio a mim e a Tiago, meu irmão, dizendo: 'Preciso de vós, venham a mim'. E meu irmão ouvindo isso, disse:
 - 'João, por que essa criança à beira-mar nos chamou?'
E eu disse:
 - 'Que criança?'
E ele me disse novamente:
 - 'Aquela que nos convida'.
E eu respondi:
 - 'Por causa das longas horas da noite que ficámos no mar, não estás a ver bem, meu irmão Tiago. Não vês o homem que está ali, bonito, justo e de rosto alegre?'
Mas ele me disse:
 - 'A ele não vejo, irmão, mas vamos sair e veremos o que ele trará'. 
89 E assim, quando levámos o navio à terra, vimos que Ele nos ajudava a atracar o barco. E quando saímos daquele lugar, pensando em segui-lo, novamente eu vi-o como um homem calvo, com barba espessa e comprida, mas Tiago viu-o como um jovem de barba recente. Ficámos, portanto, perplexos, ambos, quanto ao que aquilo que vimos deveria significar. E depois disso, enquanto o seguíamos, nós dois ficámos a pouco e pouco ainda mais confusos quando considerámos o assunto. No entanto, a mim aconteceram coisas mais maravilhosas: quando tentava mirá-lo em privado, nunca vi seus olhos piscarem, mas permanentemente abertos; uma vezes ele me apareceu como um homem pequeno e desagradável, outras vezes como alguém tão alto que alcançava o céu; quando eu me sentava à mesa, eu me deitava sobre o Seu peito - umas vezes sentia seu peito como suave e terno, outras vezes duro como as pedras. De modo que eu pensave: 'Como é possível?' [...]. 
90 E em outra ocasião ele levou-me consigo e Tiago e Pedro, até o monte onde costumava orar, e vimos nele uma luz indescritível para um mortal. Novamente nos chamou aos três para o monte. E nós fomos outra vez, e O vimos a uma distância orando. Eu, portanto, porque ele me amou, aproximei-me Dele suavemente, como se ele não pudesse me ver, e fiquei olhando-O de trás: e vi que ele não estava vestindo roupas, mas estava nu, não como um homem, porque seus pés eram mais brancos do que a neve, de modo que a terra estava iluminada pelos seus pés, e a sua cabeça tocou o céu. De modo que eu tive medo e clamei; e ele, virando-se, apareceu como um homem pequeno, e segurou minha barba e puxou-a e disse-me:
 - 'João, não sejas céptico, mas crente, e não curioso'.
Disse-lhe eu:
 - 'Mas que fiz eu, Senhor?'
E eu vos digo, irmãos, que sofri uma grande dor onde ele agarrou a minha barba por trinta dias, [...].
91 Mas Pedro e Tiago se iraram porque eu falei com o Senhor, e acenaram para que eu viesse a eles e deixasse o Senhor em paz. E eu fui, e ambos me disseram:
 - 'Quem era aquele que estava falando com o Senhor sobre o cume do monte? Pois ouvimos os dois falarem'.
E eu, tendo em vista a sua grande graça, e a sua unidade que tem muitos rostos, e a sua sabedoria que sem cessar nos olha, disse:
 - 'Aprendereis, se pedirdes dele.'
92 Uma vez mais, quando todos nós, seus discípulos, estávamos em Genesaret dormindo numa casa, eu, sozinho, me envolvi no meu manto, observei o que ele devia fazer. Primeiro ouvi ele dizer:
 - 'João, dorme!'
E eu, fingindo dormir, vi outro semelhante a ele [dormindo], a quem também o ouvi dizer ao meu Senhor:
 - 'Jesus, aqueles que tu escolheste, ainda não crêem em ti.'
E o meu Senhor lhe disse:
 - 'Tu dizes bem, porque são homens.' 
93 Outra glória também vos digo, irmãos. Por vezes, quando eu O tocava, sentia um corpo material e sólido, e outras vezes, parecia-me imaterial e como se Ele não existisse de modo nenhum. [...] Muitas vezes, quando eu caminhava com ele, nunca via as suas pegadas. [...].
94 Antes de ser levado pelos judeus sem lei, que também eram governados pela sua serpente sem lei, Ele reuniu-nos todos e disse:
 - 'Antes que eu seja entregue a eles, cantemos um hino ao Pai'
E assim sai para o que está diante de nós.
Ele nos ordenou, pois, que formássemos um círculo, segurando as mãos uns dos outros, e ele próprio, em pé no meio [...]. Começou então a cantar um hino:
 - 'Glória a ti, Pai [...]'
95 Por isso, enquanto damos graças, eu digo:
 - 'Eu seria salvo, e eu salvaria. Amen.
    Eu seria solto, e eu iria solto. Amen.
     [...]
    Glória a ti, Pai. Amen. 
97 Assim, tendo dançado connosco, o Senhor saiu. E nós, como homens desviados ou atordoados com o sono, fugimos dessa maneira e daquilo. Eu, então, quando o vi sofrer, nem mesmo segui o seu sofrimento, mas fugi para o Monte das Oliveiras, chorando pelo que tinha acontecido. E quando ele foi crucificado na sexta-feira, à sexta hora do dia, a escuridão veio sobre toda a terra. E o meu Senhor, que estava no meio da caverna e a iluminava, dizendo:
 - 'João, a multidão lá em baixo, em Jerusalém, pensa que eu estou a ser crucificado e perfurado com lanças e juncos, e que são-me dados fel e vinagre para beber. Mas a ti falo, e o que eu digo, ouve. Coloco-te na tua mente subir a este monte, para que possas ouvir as coisas que um discípulo deve aprender do seu mestre e um homem do seu Deus.' 
98 E assim falando, mostrou-me uma cruz de luz fixa, e sobre a cruz uma grande multidão sem forma; e nela havia uma forma e uma semelhança. E eu vi o próprio Senhor acima da cruz, não tendo qualquer forma, mas apenas uma voz, e uma voz não tão familiar para nós, mas doce e bondosa e verdadeiramente de Deus, dizendo-me: 
 - 'João, é necessário que se ouça estas coisas de mim. Às vezes Jesus, às vezes Cristo, às vezes Porta, às vezes O Caminho, às vezes Pão, Semente, Ressurreição, Filho, Pai, Espírito, Vida, Verdade, Fé, Graça. E por estes nomes é chamado como para os homens: mas o que é na verdade, tal como concebido em si e como falado connosco, é a marcação de todas as coisas [...]
101 Nada, pois, das coisas que disserem de mim, eu sofri. Sim, esse sofrimento também que eu mostrei a ti e ao resto na dança, eu o chamarei de mistério. [...] Tu ouvis que eu sofri, mas não sofri; Que eu não sofri, mas sofri; Que fui traspassado, mas não fui ferido; Que fui enforcado, mas eu não fui enforcado; Que sangrei, mas não sangrei.' 
[...] 
102 Quando ele me falou estas coisas, e outras que eu não sei como dizer, ele foi levado, e ninguém da multidão o viu. E quando desci, ri de todos com desprezo, porquanto me tinha dito as coisas que disseram a seu respeito; Mas no fundo eu sabia que o Senhor inventou todas estas coisas simbolicamente com vista a um perdão para com os homens, para sua conversão e salvação.
[...] 
105 E, havendo entregado estas coisas aos irmãos, partiu João com Andrónicus para andar. E Drusiana também seguiu distante com todos os irmãos, para que eles pudessem contemplar os actos que foram feitos por ele, e ouvir o seu discurso em todos os momentos no Senhor.

[...]
106 João continuou com os irmãos, regozijando-se no Senhor. No dia seguinte, sendo o dia do Senhor, e todos os irmãos estando reunidos, ele começou a dizer-lhes: [...]
109 E ele pediu pão, deu graças assim: [...]
110 Então dividiu o pão e deu a todos nós, orando sobre cada um dos irmãos para que fosse digno da graça do Senhor e da Santíssima Eucaristia. [...]
111 Depois disse a Verus: Toma contigo dois homens, com cestos e pás, e segue-me. E Verus sem demora fez como ordenado. O bem-aventurado João, pois, saiu da casa para fora das portões, tendo se afastado. E quando chegou ao sepulcro de um certo irmão nosso, disse aos jovens: Cavem, meus filhos. E eles cavaram e ele insistia com eles ainda mais: 'Cavem mais fundo a fossa'. [...]. E, quando os jovens terminaram a fossa como ele desejava, ele atirou as suas vestes para o fundo da fossa [...] e orou.
[...]
115 e havendo-se em todas as partes, ele se levantou e disse: Tu estás comigo, Senhor Jesus Cristo: e deitou-se na fossa para onde tinha atirado suas vestes. E, havendo dito para nós: 'Paz seja convosco, irmãos', ele deixou o espírito em alegria.



Referências.
 - http://www.earlychristianwritings.com/text/actsjohn.html




sábado, 15 de abril de 2017

Século I - Profetas, Messias, Bandidos e Loucos





Os Marginais

Flávio Josefo, historiador do século I, refere uma boa quantidade de personagens marginais perseguidas pelas autoridades - quer salteadores, líderes revolucionários, profetas e pretensos messias.

Segundo o relato de Josefo parece que, no primeiro século, até à destruição do Templo, surgiu um certo número de Messias prometendo alívio do jugo romano e prontamente encontrando seguidores. Ele refere-se assim (depois do relato sobre os sicários violentos e sanguinários):
"...surgiu outro grupo de vilões, de mãos mais limpas mas de intenções mais ímpias, e que arruinaram a paz na cidade não menos do que os assassinos [os sicarii]. Burlões e impostores, promovendo mudanças revolucionárias sob o pretexto da inspiração divina, convenceram as gentes a agirem como loucas e conduziram-nas para o deserto convencidas de que Deus aí lhes mostraria sinais de libertação" (Guerra dos Judeus II.13.4; Antiguidades Judaicas XX.8.6).

Alguns líderes sectários ou marginais do século I referidos por Flávio Josefo:

-       6 EC - Judas Galileu (ou de Gamala, nos montes Golã) liderou uma revolta quando a Judeia e Samaria passaram a ser governadas directamente por Roma; o novo governador Coponius, sob o procurador Quirinius, impôs novas taxas gerando a revolta; Josefo associa este nome à filosofia ultra-nacionalista dos zelotas.

-       35 EC - João Baptista, profeta e líder religioso, considerado Messias pelos seus seguidores; morto por Herodes Antipas; é dos poucos lideres sectários elogiados por Josefo (Antiguidades Judaicas XVIII.5.2).

-       44 EC - Teudas, que alegava ser um profeta, apareceu e exortou o povo a segui-lo com seus pertences ao Jordão; prometeu que abriria caminho no rio dividindo-o em dois, imitando Moisés no mar Vermelho; o governador Cuspius Fadus enviou uma tropa de cavaleiros em busca dele e seu bando, matou muitos deles, e tomou outros cativos, decapitando Teudas (Antiguidades Judaicas XX.5.1).

-       50 EC - Eleazar, salteador que actuou na Judeia durante vinte anos, desde a década de 30 EC, foi capturado por Antónius Félix (Guerra dos Judeus II.13.3).

-       55 EC - "O Egípcio", um alegado profeta, reuniu 30.000 adeptos, convocando-os para o Monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, prometendo que, a seu comando (imitando Josué em Jericó), os muros de Jerusalém cairiam e que ele e seus seguidores se apoderariam da cidade; o governador Antónius Félix, confrontou militarmente esta multidão; o profeta escapou, mas os que estavam com ele foram mortos ou capturados, e a multidão dispersou (Antiguidades Judaicas XX.8.6; Guerra dos Judeus II.13.5).

-       60 EC - Um outro "profeta libertador", do qual Josefo não diz o nome, prometeu ao povo "independência e alívio das suas misérias" se o seguissem até o deserto; tanto o líder quanto os seguidores foram mortos pelas tropas do governador Festus (Antiguidades Judaicas XX.8.10).

-       62 EC - Jesus ben Ananias, profetizou a destruição de Jerusalém; foi açoitado por Albinus mas libertado por ser considerado um louco inofensivo (Guerra dos Judeus VI.5.3).

-       66 EC - Menahem ben Judas, filho de Judas Galileu; ao contrário dos que prometiam que a libertação fosse alcançada por intervenção divina, Menahem era um guerreiro; quando a guerra eclodiu, ele atacou a fortaleza Massada com a sua hoste e armou os seus seguidores com as armas lá armazenadas, seguindo para Jerusalem, onde capturou a fortaleza Antónia; encorajado pelo sucesso, comportou-se como um rei e reivindicou a liderança das tropas de todas as facções envolvidas na guerra contra os romanos (Guerra dos Judeus II.17.9); a revolta dos judeus foi confrontada pelos romanos comandados por Vespasiano e Tito.

-       70 EC - mesmo quando Jerusalém já estava em processo de destruição pelos romanos, um profeta anunciou ao povo que Deus lhes ordenou que viessem ao Templo, para ali receber sinais milagrosos de sua libertação; aqueles que vieram encontraram a morte nas chamas quando os romanos incendiaram o Templo (Guerra dos Judeus VI.5.2).



Mas, no fim de contas, Josefo refere que Vespasiano, general e Imperador Romano, era o verdadeiro Messias (Guerra dos Judeus VI.5.4).

O título "Messias" (em grego, "Cristo") estava reservado a alguém que conseguisse demonstrar poder militar e administrativo e, simultaneamente, fosse reconhecido pelo poder religioso. Os judeus reconheceram, no século VI a.C., Ciro da Pérsia como sendo um Cristo.
Na literatura judaica, o Cristo idealizado seria não só rei como também sumo-sacerdote.



E... sobre Jesus Nazareno...?

E sobre Jesus Nazareno, o que disse Josefo? Existem apenas uns parágrafos muito duvidosos nas suas obras...



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Século I - Evangelho de Pedro




O Evangelho de Pedro, ou Evangelho segundo Pedro, é um dos evangelhos não-canónicos rejeitados como apócrifos pelos que estabeleceram o cânon do Novo Testamento.

Foi descoberto em 1886 por um arqueólogo francês no Egipto, em Akhmim (100 km a norte de Nag Hammadi). Um fragmento de um manuscrito do século VIII ou IX, que fora enterrado com um monge egípcio, foi identificado como pertencente a uma cópia do evangelho de Pedro, um texto ainda mais antigo. Foi o primeiro evangelho não-canónico a ser redescoberto, preservado na areia seca do Egipto.

O fragmento encontrado contém uma sequência da narrativa da Paixão, da Ressureição e da Ascensão de Cristo. É provável que o texto original completo tivesse mais conteúdo.

A parte inicial do texto estará perdida. Assim, a Paixão começa abruptamente com o julgamento de Jesus diante de Pilatos, depois de Pilatos lavar as mãos, e fecha com sua versão incomum e detalhada da vigília colocada sobre o túmulo e a ressurreição. O Evangelho de Pedro é mais detalhado na narrativa após a Crucificação do que qualquer dos evangelhos canónicos, e difere dos relatos canónicos em numerosos detalhes:
 - Herodes dá a ordem para a execução - não Pilatos, que é exonerado;
 - José (de Arimatéia?) conhecia Pilatos;
 - na escuridão sobrenatural que acompanhou a crucificação, "muitos andavam com tochas, supondo que era noite e caíram".
 - o narrador não é anónimo mas escreve algumas frases na primeira pessoa e identifica-se com o nome Simão Pedro;
 - o narrador e outros discípulos esconderam-se porque eram procurados sob suspeita de conspirar para incendiar o templo;
 - o centurião que vigiava o túmulo tem nome: Petrónio;
 - os detalhes do selamento do túmulo, solicitado por Pilatos aos anciãos da comunidade judaica, são muito mais elaborados do que em Mateus 27:66.

O texto é incomum ao descrever a própria cruz como objecto falante, e até flutuando fora do túmulo. No túmulo de Jesus - que tinha sido selado e estava vigiado por uma patrulha - aparecem dois homens tão altos que as suas cabeças chegavam aos céus e que conduziam um terceiro homem tão alto que sua cabeça ultrapassava os céus.

O texto segue, então, a mesma trajectória que o Evangelho de Marcos, terminando no respectivo final curto (onde as mulheres fogem do túmulo vazio com medo).


Tom docético

Mais importante ainda, a Ressurreição e a Ascensão, que são descritas em detalhe, não são tratadas como eventos separados, mas ocorrem no mesmo dia.

Além disso, este evangelho nega a morte de Jesus na cruz, o que contradiz a crença do cristianismo corrente, mas tem semelhanças com o Docetismo.

O grito de Cristo da cruz, em Marcos dado como "Eli, Eli, lama sabachthani?", explicado como significando "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?", é relatado em Pedro como "Minha força, minha força, tu me abandonaste!".

Imediatamente depois, o narrador afirma que "quando ele disse isso, foi tomado para cima", sugerindo que Jesus não morreu mas foi transferido para o céu sem morrer. Isto, juntamente com a afirmação de que Jesus "permaneceu silencioso na cruz, como se não sentisse dor", leva a caracterizar este evangelho como explicitamente docético.

O docetismo é amplamente definido como qualquer ensinamento que afirma que o corpo de Jesus era ausente ou ilusório.

Na terminologia cristã, docetismo (gr. dokein (parecer) / dókēsis (aparição, fantasma)), pode ser definido como a doutrina segundo a qual o fenómeno de Cristo, sua existência histórica e corporal, e, portanto, acima de tudo, a forma humana de Jesus, era totalmente mera aparência, sem qualquer verdadeira realidade.

A Igreja Católica combateu o docetismo, porque preferiu a versão de que Jesus surgiu como uma criança humana nascida de uma mulher virgem tendo se tornado, em adulto, um pregador famoso na Galiléia. Jesus, portanto, sofrera e morrera na cruz tal como qualquer outro humano que fosse crucificado.



Autoria

Ao contrário dos evangelhos canónicos, que são textos de autoria anónima, o Evangelho de Pedro alega explicitamente ser a obra do Apóstolo Pedro:

"E eu, com os meus companheiros, ficámos entristecidos e, sendo feridos em mente, nos escondemos".
"Mas eu, Simão Pedro, e André, meu irmão, pegámos nossas redes e fomos para o mar."

Entretanto, existe concordância em que o evangelho de Pedro é pseudepigráfico (texto ao qual é atribuído falsa autoria).

A verdadeira autoria deste evangelho permanece um mistério - tal como a autoria de todos os evangelhos, incluindo os do Novo Testamento (os canónicos). O texto encontra paralelos com os evangelhos canónicos.


Data

É provável que o Evangelho Segundo Pedro seja posterior à composição dos quatro evangelhos canónicos. Pode remontar ao fim do século I ou ao início do século II.

O texto "Segunda Epístola de Clemente" (escrito entre 95 a 140 EC) refere-se a uma passagem que se pensa ser do Evangelho de Pedro (porque o autor cita algo que não se encontra em nenhuma passagem dos evangelhos canónicos):
2 Clem 5: 2-4 Porque o Senhor disse: Serás como cordeiros no meio dos lobos. Respondeu-lhe Pedro, e disse-lhe: E se os lobos rasgarem os cordeiros? Disse Jesus a Pedro: Não deixeis os cordeiros temerem os lobos depois de morrerem; E também vós, não temais os que vos matam e não podem fazer-vos coisa alguma; Mas temei-lhe que, depois de morto, tenha poder sobre a alma eo corpo, para lançá-los na Gehenna do fogo.


Também existe uma tradição preservada pelo historiador Eusébio (História da Igreja 6.12.2-6; 6.13.1a) de que existiu um evangelho que circulou sob o nome de Pedro, o qual foi condenado pelo Bispo Serapião de Antioquia numa inspecção à comunidade cristã de Rhossus (hoje Arsuz, no sul da Turquia) por volta de 190 EC.
Eusébio, História da Igreja, Livro 6.XII.2-6; 6.13.1a  
[De Serapion e das obras que dele se conservam]

Quanto ao fruto do afã literário de Serapion, ... e outro tratado que compôs acerca do chamado "Evangelho de Pedro"; escreveu-o refutando as falsidades que neste se dizem, por causa de alguns da igreja de Rhossus que, com o pretexto da dita Escritura, haviam-se desviado para ensinamentos heterodoxos. Será bom oferecer deste livro algumas sentenças nas quais apresenta sua opinião sobre aquele livro; escreve assim:
"Porque também nós, irmãos, aceitamos Pedro e os demais apóstolos como a Cristo, mas como homens de experiência que somos, rechaçamos os falsos escritos que levam seus nomes, pois sabemos que não nos transmitiram semelhantes escritos.
Porque eu mesmo, achando-me entre vós, supunha que todos vos ativésseis à fé reta, e sem ter lido o Evangelho que eles me apresentavam com o nome de Pedro, disse: 'se é apenas isto que parece preocupar-vos, que se leia'. Mas agora que me inteirei, pelo que me disseram, de que seu pensamento se ocultava em certa heresia, terei pressa para estar novamente entre vós; de maneira que, irmãos, esperai-me em breve.
Quanto a nós, irmãos, compreendemos a que heresia pertencia Marciano, o qual se contradizia e não sabia o que falava (isto aprendereis pelo que vos escrevi).
Efetivamente, graças a outros que praticaram este mesmo Evangelho, ou seja, graças aos sucessores dos que o iniciaram, aos quais chamaremos docetas (porque a maior parte de seu pensamento pertence a este ensino), por terem-no emprestado eles, pudemos lê-lo cuidadosamente, e achamos a maior parte conforme a reta doutrina do Salvador, mas também algumas coisas que se distinguem e que vos submetemos." 
Isto sobre Serapion.

Orígenes, por volta de 253 EC, ao comentar sobre Mateus 13:55-56, disse que o "Evangelho de Pedro", juntamente com o "Livro de Tiago", foi a fonte da doutrina da Igreja Católica sobre a virgindade perpétua de Maria:
Orígenes, Comentário sobre Mateus, Livro X, 17 
E, depreciando tudo o que parecia serem seus parentes mais próximos, eles disseram: "Sua mãe não se chama Maria? E seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs, não estão todas connosco?"
 Eles pensaram, então, que Ele era o filho de José e Maria. Mas alguns dizem, baseando-se numa tradição do Evangelho segundo Pedro, como é intitulado, ou "O Livro de Tiago", que os irmãos de Jesus eram filhos de José por uma ex-esposa, com quem ele se casou antes de Maria. Agora, aqueles que o dizem desejam preservar a honra de Maria na virgindade até o fim, de modo que aquele corpo dela que foi nomeado para ministrar a Palavra, pelo que foi dito: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra", talvez não conhecesse relações sexuais com um homem depois que o Espírito Santo entrou nela e o poder do Altíssimo a cobriu.


Texto do fragmento identificado como Evangelho de Pedro

[Condenação e escárnio de Jesus] 
Mas dos judeus nenhum lavou as mãos, nem Herodes, nem qualquer de seus juízes. Uma vez que se recusaram a lavar as mãos, Pilatos levantou-se. Mandou, então, o rei Herodes que o Senhor fosse levado, dizendo-lhes: “Fazei tudo o que vos ordenei que fizésseis”. 
Encontrava-se ali José, amigo de Pilatos e do Senhor. Quando soube que o crucificariam, dirigiu-se a Pilatos e lhe pediu o corpo do Senhor para ser sepultado. Pilatos, de sua parte, o mandou a Herodes para que lhe pedisse o corpo. Disse Herodes: “Irmão Pilatos, ainda que ninguém o tivesse pedido, nós o teríamos sepultado, pois se aproxima o Sabbath. E está escrito na lei: ‘Não se ponha o sol sobre o supliciado’”. 
E o entregou ao povo no dia antes dos Pães Ázimos, a festa deles. Apoderando-se do Senhor, eles o empurravam e diziam: “Arrastemos o filho de Deus, pois finalmente caiu em nossas mãos”. Vestiram-no com um manto de púrpura, fizeram-no sentar-se numa cadeira do tribunal, dizendo: “Julga com justiça, ó rei de Israel!” Um deles trouxe uma coroa de espinhos e a colocou na cabeça do Senhor. Outros que ali se encontravam e cuspiram-lhe no rosto; outros lhe batiam nas faces, outros o fustigavam com uma vara; alguns o flagelavam, dizendo: “Esta é a honra que prestamos ao Filho de Deus”.
Levaram para lá dois malfeitores e crucificaram o Senhor no meio deles. Mas ele se calava como se não sentisse qualquer dor. Quando ergueram a cruz, escreveram no alto: “Este é o rei de Israel”. Colocaram as vestes diante dele, dividiam-nas e lançaram sortes sobre elas. Mas um dos malfeitores o repreendeu, dizendo: “Nós sofremos assim por causa de ações más que praticamos. Este, porém, que se tornou salvador dos homens, que mal vos fez?” Indignados contra ele, ordenaram que não lhe fossem quebradas as pernas e assim morresse entre os tormentos. 
Era meio-dia, quando as trevas cobriram toda a Judéia. Eles se agitavam e se angustiavam, supondo que o sol já se tivesse posto, pois ele ainda estava vivo. E está escrito para eles: “Não se ponha o sol sobre o supliciado”. E um deles disse: “Dai-lhe de beber fel com vinagre”. Fizeram um mistura e lhe deram para beber. E cumpriram tudo, enchendo desse modo a medida de seus pecados sobre suas cabeças. Muitos andavam com tochas e, pensando que fosse noite, retiraram-se para repousar [ou cairam ao chão]. E o Senhor gritou, dizendo: “Minha força, minha força, tu me abandonaste!” Enquanto assim falava, foi tomado para cima. 
Na mesma hora o véu do templo de Jerusalém se rasgou em duas partes. Tiraram os pregos das mãos do Senhor e o depuseram no chão. Tremeu toda a terra e houve grande medo. Brilhou, então, o sol e reconheceram que era a nona hora (três horas da tarde). Alegraram-se os judeus e deram seu corpo a José para que o sepultasse. José tinha visto todo o bem quem Jesus fizera. Tomando o Senhor, levou-o, envolvendo-o em um lençol e o depositou em seu próprio sepulcro, chamado Jardim de José. 
Os judeus, os anciãos e os sacerdotes compreenderam, então, o grande mal que tinham feito a si mesmos e começaram a lamentar-se, dizendo:
 - "Ai de nós, por causa de nossos pecados! O juízo e fim de Jerusalém estão agora próximos!".
 Eu e meus companheiros estávamos tristes; de ânimo abatido nos escondíamos. Estávamos sendo procurados por eles como malfeitores e como aqueles que queriam incendiar o templo.
 Por causa de tudo isto, jejuámos e nos assentámos, lamentando-nos e chorando noite e dia, até o Sabbath. 
[A guarda do sepulcro]
 Os escribas, os fariseus e os anciãos se reuniram, pois ficaram sabendo que todo o povo murmurava e se lamentava, batendo no peito e dizendo:
 - “Se por ocasião de sua morte se realizaram sinais tão grandes, vede quanto ele era justo!”
 Tiveram medo e foram a Pilatos, pedindo-lhe:
 - “Dá-nos soldados para que seu túmulo seja vigiado por três dias. Que não aconteça que seus discípulos venham roubá-lo e o povo acredite que ele tenha ressuscitado dos mortos e nos faça mal”.
 Pilatos deu-lhes o centurião Petrónio com soldados para vigiar o sepulcro. Com eles dirigiram-se ao túmulo os anciãos e os escribas e todos os que ali estavam com o centurião. Os soldados rolaram uma grande pedra e a colocaram na entrada do túmulo. Nela imprimiram sete selos. Depois ergueram ali uma tenda e montaram guarda.
 Pela manhã, ao despontar do sábado, veio de Jerusalém e das vizinhanças uma multidão para ver o túmulo selado. 
[Ressurreição de Jesus]
 Mas durante a noite que precedeu o dia do Senhor, enquanto os soldados montavam guarda, por turno, dois a dois, ressoou no céu uma voz forte e viram abrir-se os céus e descer de lá dois homens, com grande esplendor, e aproximar-se do túmulo. A pedra que fora colocada em frente à porta rolou donde estava e se pôs de lado. Abriu-se o sepulcro e nele entraram os dois jovens. À vista disto, os soldados foram acordar o centurião e os anciãos, pois também estes estavam de guarda. E enquanto lhes contavam tudo o que tinham presenciado, viram também sair três homens do sepulcro: dois deles amparavam o terceiro e eram seguidos por uma cruz. A cabeça dos dois homens atingia o céu, enquanto a daquele que conduziam pela mão ultrapassava os céus. Ouviram do céu uma voz que dizia:
 - “Pregaste aos que dormem?”
 E da cruz se ouviu a resposta:
 - “Sim”. 
 Eles, então, deliberaram em conjunto ir relatar essas coisas a Pilatos. Enquanto ainda conversavam, abriram-se novamente os céus. Um homem desceu e entrou no túmulo. Vendo aquilo, o centurião e os que estavam com ele apressaram-se, sendo ainda noite, a procurar Pilatos, deixando o sepulcro que tinham vigiado. Extremamente abalados, expuseram tudo o que tinham visto e disseram: “Era verdadeiramente Filho de Deus”.
 Pilatos respondeu:
 - “Sou inocente do sangue do Filho de Deus, fostes vós que decidistes assim”.
 Depois todos se aproximaram, pedindo e suplicando que ordenasse ao centurião e aos soldados não contar a ninguém o que tinham visto.
 - “Para nós, diziam, é melhor ser culpado de gravíssimo pecado diante de Deus, do que cair nas mãos do povo judeu e ser lapidados”.
 Pilatos, então ordenou ao centurião e aos soldados que nada dissessem. 
[As mulheres e o sepulcro]
 Ao amanhecer do dia do Senhor, Maria Madalena, discípula do Senhor, que, por medo dos judeus ardentes de cólera, não havia feito na sepultura do Senhor tudo quanto as mulheres costumavam fazer pelos mortos que lhes eram caros, tomou consigo as amigas e dirigiu-se ao túmulo onde tinha sido posto. Elas temiam ser vistas pelos judeus e diziam:
 - “Se, no dia em que foi crucificado, não pudemos chorar e lamentar-nos, façamo-lo pelo menos agora seu túmulo. Quem, no entanto, nos há de revolver a pedra colocada na entrada do sepulcro, a fim de que possamos entrar, sentar-nos em volta dele cumprir o que lhe é devido? A pedra é grande e tememos que alguém nos veja. Se não o pudermos fazer, deponhamos, pelo menos, na porta o que trouxemos em sua memória. Choraremos e nos lamentaremos até a hora de voltarmos para casa”.
 Mas quando chegaram, encontraram o sepulcro aberto. Aproximando-se, inclinaram-se e viram ali um jovem sentado no meio do sepulcro. Era belo e estavam revestido de túnica de raro resplendor.
 Perguntaram-lhe:
  - “Por que viestes? A quem procurais? Por acaso, aquele que foi crucificado? Ressuscitou e foi-se embora. Se não o acreditais, inclinai-vos e olhai o lugar onde jazia. Não está mais. Ressuscitou, na verdade, e voltou para o lugar donde veio”.
 Então as mulheres fugiram assustadas. 
[Conclusão]
 Ora, era o último dia dos Pães Ázimos, e muitos saíam da cidade e voltavam para suas casas, à medida que a festa terminava. Nós, porém, os doze apóstolos do Senhor, chorávamos e nos entristecíamos. Depois, cada um, angustiado por tudo o que tinha acontecido, voltou para sua casa. Mas eu, Simão Pedro, e André, meu irmão, levámos nossas redes e fomos para o mar; e estava conosco Levi, filho de Alfeu, a quem o Senhor...



Referências:
 - http://www.sacred-texts.com/chr/ecf/009/0090004.htm
 - http://www.nazarenopaulista.com.br/estudos/Historia_Eclesiastica_Eusebio_de_Cesareia.pdf
 - http://oll.libertyfund.org/titles/coxe-ante-nicene-fathers-volume-9
 - http://www.sacred-texts.com/chr/ecf/009/0090368.htm

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