sábado, 27 de janeiro de 2018

Yahveh é um Dragão - Fumo nas Narinas





Um Monstro Colérico

No Antigo Testamento, Yahveh é muitas vezes retratado como um deus irado que executa vingança contra os seus inimigos. Alguns desses textos empregam a imagem de Yahveh como um monstro semelhante a um dragão que deita fumo pelas narinas e o fogo pela boca.

Para erradicar esta imagética mitológica de Yahveh, alguns textos foram claramente emendados ainda nas versões da antiguidade, já numa época de monoteísmo avançado. Outros foram emendados pelos tradutores da época moderna (a partir do século XVI EC).

Por exemplo, em vez de "acenderam-se as narinas de Yahveh" os redactores/tradutores do Antigo Testamento escreveram "acendeu-se a ira de Yahveh".


Acendeu-se a ira? ou Acenderam-se as narinas?

Em Isaías 3:27, apesar de se traduzir por "ira" percebe-se que a palavra adequada seria "narinas".
Isaías 30:27 (http://biblehub.com/interlinear/isaiah/30-27.htm
27 Eis que o nome de Yahveh vem de longe ardendo na sua ira (narinas) e lançando espessa fumaça; os seus lábios estão cheios de indignação, e a sua língua é como um fogo consumidor; 


Em Isaías 42:25, a substituição não é tão óbvia, mas a palavra "narinas" encaixa bem no cenário em que o dragão Yahveh deita fogo aos seus inimigos.
Isaías 42:25 (http://biblehub.com/interlinear/isaiah/42-25.htm
25 Pelo que derramou sobre eles a indignação da sua ira (narinas) e a força da guerra e lhes pôs labaredas em redor, mas nisso não atentaram; e os queimou, mas não puseram nisso o coração.


O texto de Deuteronómio 32:22, contém também um cenário de fogo e fumo associado à "ira", de modo que umas narinas fumegantes combinariam bem numa tradução honesta.
Deuteronómio 32:22 (http://biblehub.com/interlinear/deuteronomy/32-22.htm
22 Porque um fogo se acendeu na minha ira (narinas), e arderá até ao mais profundo do inferno, e consumirá a terra com a sua novidade, e abrasará os fundamentos dos montes.


Em Números 11:1, mais um episódio de Deus zangado e a fumegar pelas narinas...
Números 11:1 (http://biblehub.com/interlinear/numbers/11-1.htm
1 E aconteceu que, queixando-se o povo, era mal aos ouvidos de Yahveh; porque o Senhor ouviu-o, e a sua ira (narinas) se acendeu, e o fogo do Senhor ardeu entre eles e consumiu os que estavam na última parte do arraial.


No livro Lamentações, subentende-se que Deus até forma nuvens a partir do fumo das suas narinas. 
Lamentações 2:1 (http://biblehub.com/interlinear/lamentations/2-1.htm)
1 Como cobriu o Senhor de nuvens, na sua ira (narinas), a filha de Sião! Derribou do céu à terra a glória de Israel e não se lembrou do escabelo de seus pés, no dia da sua ira.



Finalmente... algumas traduções correctas!

Em Salmos e Samuel, é feita a correcta tradução para a palavra "narinas"
Salmos 18:7-9 (http://biblehub.com/interlinear/psalms/18-8.htm)
7 Então, a terra se abalou e tremeu; e os fundamentos dos montes também se moveram e se abalaram, porquanto se indignou. 8 Do seu nariz subiu fumaça, e da sua boca saiu fogo que consumia; carvões se acenderam dele. 9 Abaixou os céus e desceu, e a escuridão estava debaixo de seus pés. 10 E montou num querubim e voou; sim, voou sobre as asas do vento....

O texto de 2 Samuel 22:7-17 é muito semelhante ao texto do Salmo 18.
2 Samuel 22:7-17 (http://biblehub.com/interlinear/2_samuel/22-9.htm
7 Estando em angústia, invoquei ao Senhor e a meu Deus clamei; do seu templo ouviu ele a minha voz, e o meu clamor chegou aos seus ouvidos. 8 Então, se abalou e tremeu a terra, os fundamentos dos céus se moveram e abalaram, porque ele se irou. 9 Subiu a fumaça de suas narinas, e, da sua boca, um fogo devorador; carvões se incenderam dele. 10 E abaixou os céus, e desceu, e uma escuridão havia debaixo de seus pés. 11 E subiu um querubim, e voou; e foi visto sobre as asas do vento. 12 E por tendas pôs as trevas ao redor de si, ajuntamento de águas, nuvens dos céus. 13 Pelo resplendor da sua presença, brasas de fogo se acendem. 14 Trovejou desde os céus o Senhor e o Altíssimo fez soar a sua voz. 15 E disparou flechas e os dissipou; raios, e os perturbou. 16 E apareceram as profundezas do mar, os fundamentos do mundo se descobriram, pela repreensão do Senhor, pelo sopro do vento dos seus narizes. 17 Desde o alto enviou e me tomou; tirou-me das muitas águas. 

domingo, 21 de janeiro de 2018

Marcos - Yom Kippur e Barrabás





Barrabás

O evangelho de Marcos alega que Pilatos, governador romano da Judeia, tinha o costume de libertar um preso na Páscoa, por isso oferece a escolha aos judeus entre Barrabás, um agitador assassino, e Jesus Nazareno, um inofensivo pregador.

Vejamos a passagem:
Marcos 15:6-15
Ora, no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles pedissem.
E havia um chamado Barrabás, que, preso com outros amotinadores, tinha num motim cometido uma morte.
E a multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre lhes tinha feito.
E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que vos solte o Rei dos judeus?
Porque ele bem sabia que, por inveja, os principais dos sacerdotes o tinham entregado. Mas os principais dos sacerdotes incitaram a multidão para que fosse solto antes Barrabás.
E Pilatos, respondendo, lhes disse outra vez: Que quereis, pois, que faça daquele a quem chamais Rei dos judeus? E eles tornaram a clamar: Crucifica-o. Mas Pilatos lhes disse: Mas que mal fez? E eles cada vez clamavam mais: Crucifica-o.
Então, Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhes Barrabás, e, açoitado Jesus, o entregou para que fosse crucificado.


Pilatos, perante a multidão, coloca Jesus lado a lado com um rebelde assassino chamado Barrabás. Um deles poderia ser libertado. Mas no fim os judeus acabam por escolher a soltar Barrabás e Pilatos concede.

O primeiro problema para uma interpretação literal desta passagem é que não existem provas de que Pilatos tivesse o costume de libertar um preso na Páscoa. Os evangelhos Lucas e João nem concordam que esse era um costume de Pilatos.

O segundo problema é que não seria nada provável um governador romano libertar um rebelde assassino. Muito menos Pilatos, que tinha a reputação de ser inflexível e cruel com rebeldes.


Yom Kippur

O Yom Kippur, também conhecido como o Dia da Expiação (ou do Perdão), é o dia mais sagrado do ano no judaísmo. Seus temas centrais são a expiação (redenção) e o arrependimento. Os seguidores da fé judaica tradicionalmente observam este dia sagrado com um período aproximado de 25 horas de jejum e oração intensiva, muitas vezes passando a maior parte do dia em serviços religiosos.

O texto de Levítico 16, no Antigo Testamento, descreve como é que deveriam ser as celebrações do Yom Kippur:

Levitico 16
... E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para expiação do pecado e um carneiro para holocausto.
... E Arão lançará sortes sobre os dois bodes: uma sorte por Yahveh e a outra sorte pelo bode emissário. Então, Arão fará chegar o bode sobre o qual cair a sorte por Yahveh e o oferecerá para expiação do pecado. Mas o bode sobre que cair a sorte para ser bode emissário apresentar-se-á vivo perante Yahveh, para fazer expiação com ele, para enviá-lo ao deserto como bode emissário.
...
Depois, degolará o bode da oferta pela expiação, que será para o povo ...
...
Havendo, pois, acabado de expiar o santuário, e a tenda da congregação, e o altar, então, fará chegar o bode vivo. E Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel e todas as suas transgressões, segundo todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso. Assim, aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra solitária; e o homem enviará o bode ao deserto.


O livro do Levítico descreve que no Yom Kippur (Dia do Perdão), a população deveria entregar dois bodes ao sumo-sacerdote. Um dos bodes seria sacrificado, o outro seria liberto e levado vivo para longe.

O bode que ficaria vivo seria usado para "carregar" simbolicamente os pecados de toda a comunidade para longe. O outro bode seria sacrificado no altar.


Solução para a passagem sobre Barrabás

Em alguns textos fora do Novo Testamento, Barrabás é chamado de Jesus Barrabás, mas nos evangelhos canónicos ficou apenas o nome Barrabás. Ora, Barrabás em aramaico significa “Filho do Pai” (bar-Abbas) e o objectivo era escolher quem é que ficaria livre e quem é que seria morto:
-          Jesus, Filho do Pai (bar-Abbas), ou
-          Jesus, Filho do Homem, Rei dos Judeus.

Barrabás era o alter-ego de Jesus, ou seja, o Filho do Pai que ficaria livre e Jesus, o Filho do Homem, o Rei do Judeus, seria morto. Tal como os dois bodes referidos no Levítico: um seria libertado e outro seria sacrificado!

Em conclusão, esta passagem de Marcos é uma sátira ao Yom Kippur.


Referências:
 - On the Historicity of Jesus - Richard Carrier


domingo, 14 de janeiro de 2018

Clemente de Roma - Aos Coríntios




Clemente de Roma

Sobre Clemente de Roma (35 a 99 EC) é dito que ocupou o cargo de bispo de Roma no primeiro século (de 88 a 99 EC). Poucos detalhes são conhecidos sobre a vida de Clemente para além da sua Carta aos Coríntios.

Na qualidade de bispo de Roma é referido, pela Igreja Católica, como Papa Clemente I, mas a lista oficial dos primeiros Papas (ou bispos de Roma) não é nada credível.


Carta aos Coríntios

Epístola de Clemente aos Coríntios (gr. Klēmentos pros Korinthious) é uma carta endereçada aos cristãos de Corinto, de autoria atribuída a Clemente de Roma.

Esta carta terá sido escrita em resposta a uma disputa que resultou na destituição de certos líderes (gr. presbyteros) da igreja de Corinto. Ele afirmou a autoridade dos presbíteros como governantes da igreja com base no facto destes terem sido designados pelos apóstolos. É um dos documentos cristãos existentes mais antigos fora do Novo Testamento.

Sobre esta carta é tradicionalmente estabelecido que terá sido escrita entre 80 e 140 EC. Isto levanta alguns problemas:
 - se a carta foi escrita depois de 99 EC, então não foi Clemente de Roma que a escreveu, pois está estabelecido que Clemente morreu nesta data. Isto deixaria o intervalo de 80 a 99 EC como possíveis datas de escrita;
 - se a carta foi escrita depois de 80 EC, como é que o autor menciona o Templo de Jerusalém como estando em pleno funcionamento, se este templo foi destruído em 70 EC?

Primeira Epístola de Clemente de Roma aos Coríntios, capítulo 41 
Que cada um de vocês, irmãos, dê graças a Deus, seguindo a sua própria ordem, vivendo em toda boa consciência, tornando-se gravidade e não excedendo o domínio do ministério prescrito a ele. Não é em qualquer lugar, irmãos, que são oferecidos os sacrifícios diários, ou as ofertas pacíficas, ou as ofertas de pecado ou as ofertas de transgressão, mas somente em Jerusalém. E até mesmo aí eles não são oferecidos em qualquer local, mas apenas no altar diante do Templo, o que é oferecido sendo primeiro examinado cuidadosamente pelo sumo sacerdote e pelos ministros já mencionados. Aqueles, portanto, que fazem algo além do que é agradável à Sua vontade, são punidos com a morte. Vejam, irmãos, que quanto maior o conhecimento que nos foi concedido, maior é o perigo para o qual estamos expostos.

Portanto, se esta carta foi escrita apenas por Clemente de Roma, terá sido escrita antes de 70 EC porque o Templo de Jerusalém foi destruído nesta data.

O apóstolo Paulo também escreveu aos Coríntios por volta de 53-54 EC. E na sua carta aos Filipenses, Paulo refere um Clemente, que poderá ser este.
Filipenses 4:3
E peço-te também a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres que trabalharam comigo no evangelho, e com Clemente, e com os outros cooperadores, cujos nomes estão no livro da vida.


Referências:
 - http://www.earlychristianwritings.com/text/1clement-roberts.html
 - https://en.wikipedia.org/wiki/Pope_Clement_I
 - https://en.wikipedia.org/wiki/First_Epistle_of_Clement



Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...