quinta-feira, 13 de abril de 2017

Século I - Evangelho de Pedro




O Evangelho de Pedro, ou Evangelho segundo Pedro, é um dos evangelhos não-canónicos rejeitados como apócrifos pelos que estabeleceram o cânon do Novo Testamento.

Foi descoberto em 1886 por um arqueólogo francês no Egipto, em Akhmim (100 km a norte de Nag Hammadi). Um fragmento de um manuscrito do século VIII ou IX, que fora enterrado com um monge egípcio, foi identificado como pertencente a uma cópia do evangelho de Pedro, um texto ainda mais antigo. Foi o primeiro evangelho não-canónico a ser redescoberto, preservado na areia seca do Egipto.

O fragmento encontrado contém uma sequência da narrativa da Paixão, da Ressureição e da Ascensão de Cristo. É provável que o texto original completo tivesse mais conteúdo.

A parte inicial do texto estará perdida. Assim, a Paixão começa abruptamente com o julgamento de Jesus diante de Pilatos, depois de Pilatos lavar as mãos, e fecha com sua versão incomum e detalhada da vigília colocada sobre o túmulo e a ressurreição. O Evangelho de Pedro é mais detalhado na narrativa após a Crucificação do que qualquer dos evangelhos canónicos, e difere dos relatos canónicos em numerosos detalhes:
 - Herodes dá a ordem para a execução - não Pilatos, que é exonerado;
 - José (de Arimatéia?) conhecia Pilatos;
 - na escuridão sobrenatural que acompanhou a crucificação, "muitos andavam com tochas, supondo que era noite e caíram".
 - o narrador não é anónimo mas escreve algumas frases na primeira pessoa e identifica-se com o nome Simão Pedro;
 - o narrador e outros discípulos esconderam-se porque eram procurados sob suspeita de conspirar para incendiar o templo;
 - o centurião que vigiava o túmulo tem nome: Petrónio;
 - os detalhes do selamento do túmulo, solicitado por Pilatos aos anciãos da comunidade judaica, são muito mais elaborados do que em Mateus 27:66.

O texto é incomum ao descrever a própria cruz como objecto falante, e até flutuando fora do túmulo. No túmulo de Jesus - que tinha sido selado e estava vigiado por uma patrulha - aparecem dois homens tão altos que as suas cabeças chegavam aos céus e que conduziam um terceiro homem tão alto que sua cabeça ultrapassava os céus.

O texto segue, então, a mesma trajectória que o Evangelho de Marcos, terminando no respectivo final curto (onde as mulheres fogem do túmulo vazio com medo).


Tom docético

Mais importante ainda, a Ressurreição e a Ascensão, que são descritas em detalhe, não são tratadas como eventos separados, mas ocorrem no mesmo dia.

Além disso, este evangelho nega a morte de Jesus na cruz, o que contradiz a crença do cristianismo corrente, mas tem semelhanças com o Docetismo.

O grito de Cristo da cruz, em Marcos dado como "Eli, Eli, lama sabachthani?", explicado como significando "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?", é relatado em Pedro como "Minha força, minha força, tu me abandonaste!".

Imediatamente depois, o narrador afirma que "quando ele disse isso, foi tomado para cima", sugerindo que Jesus não morreu mas foi transferido para o céu sem morrer. Isto, juntamente com a afirmação de que Jesus "permaneceu silencioso na cruz, como se não sentisse dor", leva a caracterizar este evangelho como explicitamente docético.

O docetismo é amplamente definido como qualquer ensinamento que afirma que o corpo de Jesus era ausente ou ilusório.

Na terminologia cristã, docetismo (gr. dokein (parecer) / dókēsis (aparição, fantasma)), pode ser definido como a doutrina segundo a qual o fenómeno de Cristo, sua existência histórica e corporal, e, portanto, acima de tudo, a forma humana de Jesus, era totalmente mera aparência, sem qualquer verdadeira realidade.

A Igreja Católica combateu o docetismo, porque preferiu a versão de que Jesus surgiu como uma criança humana nascida de uma mulher virgem tendo se tornado, em adulto, um pregador famoso na Galiléia. Jesus, portanto, sofrera e morrera na cruz tal como qualquer outro humano que fosse crucificado.



Autoria

Ao contrário dos evangelhos canónicos, que são textos de autoria anónima, o Evangelho de Pedro alega explicitamente ser a obra do Apóstolo Pedro:

"E eu, com os meus companheiros, ficámos entristecidos e, sendo feridos em mente, nos escondemos".
"Mas eu, Simão Pedro, e André, meu irmão, pegámos nossas redes e fomos para o mar."

Entretanto, existe concordância em que o evangelho de Pedro é pseudepigráfico (texto ao qual é atribuído falsa autoria).

A verdadeira autoria deste evangelho permanece um mistério - tal como a autoria de todos os evangelhos, incluindo os do Novo Testamento (os canónicos). O texto encontra paralelos com os evangelhos canónicos.


Data

É provável que o Evangelho Segundo Pedro seja posterior à composição dos quatro evangelhos canónicos. Pode remontar ao fim do século I ou ao início do século II.

O texto "Segunda Epístola de Clemente" (escrito entre 95 a 140 EC) refere-se a uma passagem que se pensa ser do Evangelho de Pedro (porque o autor cita algo que não se encontra em nenhuma passagem dos evangelhos canónicos):
2 Clem 5: 2-4 Porque o Senhor disse: Serás como cordeiros no meio dos lobos. Respondeu-lhe Pedro, e disse-lhe: E se os lobos rasgarem os cordeiros? Disse Jesus a Pedro: Não deixeis os cordeiros temerem os lobos depois de morrerem; E também vós, não temais os que vos matam e não podem fazer-vos coisa alguma; Mas temei-lhe que, depois de morto, tenha poder sobre a alma eo corpo, para lançá-los na Gehenna do fogo.


Também existe uma tradição preservada pelo historiador Eusébio (História da Igreja 6.12.2-6; 6.13.1a) de que existiu um evangelho que circulou sob o nome de Pedro, o qual foi condenado pelo Bispo Serapião de Antioquia numa inspecção à comunidade cristã de Rhossus (hoje Arsuz, no sul da Turquia) por volta de 190 EC.
Eusébio, História da Igreja, Livro 6.XII.2-6; 6.13.1a  
[De Serapion e das obras que dele se conservam]

Quanto ao fruto do afã literário de Serapion, ... e outro tratado que compôs acerca do chamado "Evangelho de Pedro"; escreveu-o refutando as falsidades que neste se dizem, por causa de alguns da igreja de Rhossus que, com o pretexto da dita Escritura, haviam-se desviado para ensinamentos heterodoxos. Será bom oferecer deste livro algumas sentenças nas quais apresenta sua opinião sobre aquele livro; escreve assim:
"Porque também nós, irmãos, aceitamos Pedro e os demais apóstolos como a Cristo, mas como homens de experiência que somos, rechaçamos os falsos escritos que levam seus nomes, pois sabemos que não nos transmitiram semelhantes escritos.
Porque eu mesmo, achando-me entre vós, supunha que todos vos ativésseis à fé reta, e sem ter lido o Evangelho que eles me apresentavam com o nome de Pedro, disse: 'se é apenas isto que parece preocupar-vos, que se leia'. Mas agora que me inteirei, pelo que me disseram, de que seu pensamento se ocultava em certa heresia, terei pressa para estar novamente entre vós; de maneira que, irmãos, esperai-me em breve.
Quanto a nós, irmãos, compreendemos a que heresia pertencia Marciano, o qual se contradizia e não sabia o que falava (isto aprendereis pelo que vos escrevi).
Efetivamente, graças a outros que praticaram este mesmo Evangelho, ou seja, graças aos sucessores dos que o iniciaram, aos quais chamaremos docetas (porque a maior parte de seu pensamento pertence a este ensino), por terem-no emprestado eles, pudemos lê-lo cuidadosamente, e achamos a maior parte conforme a reta doutrina do Salvador, mas também algumas coisas que se distinguem e que vos submetemos." 
Isto sobre Serapion.

Orígenes, por volta de 253 EC, ao comentar sobre Mateus 13:55-56, disse que o "Evangelho de Pedro", juntamente com o "Livro de Tiago", foi a fonte da doutrina da Igreja Católica sobre a virgindade perpétua de Maria:
Orígenes, Comentário sobre Mateus, Livro X, 17 
E, depreciando tudo o que parecia serem seus parentes mais próximos, eles disseram: "Sua mãe não se chama Maria? E seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? E as suas irmãs, não estão todas connosco?"
 Eles pensaram, então, que Ele era o filho de José e Maria. Mas alguns dizem, baseando-se numa tradição do Evangelho segundo Pedro, como é intitulado, ou "O Livro de Tiago", que os irmãos de Jesus eram filhos de José por uma ex-esposa, com quem ele se casou antes de Maria. Agora, aqueles que o dizem desejam preservar a honra de Maria na virgindade até o fim, de modo que aquele corpo dela que foi nomeado para ministrar a Palavra, pelo que foi dito: "Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra", talvez não conhecesse relações sexuais com um homem depois que o Espírito Santo entrou nela e o poder do Altíssimo a cobriu.


Texto do fragmento identificado como Evangelho de Pedro

[Condenação e escárnio de Jesus] 
Mas dos judeus nenhum lavou as mãos, nem Herodes, nem qualquer de seus juízes. Uma vez que se recusaram a lavar as mãos, Pilatos levantou-se. Mandou, então, o rei Herodes que o Senhor fosse levado, dizendo-lhes: “Fazei tudo o que vos ordenei que fizésseis”. 
Encontrava-se ali José, amigo de Pilatos e do Senhor. Quando soube que o crucificariam, dirigiu-se a Pilatos e lhe pediu o corpo do Senhor para ser sepultado. Pilatos, de sua parte, o mandou a Herodes para que lhe pedisse o corpo. Disse Herodes: “Irmão Pilatos, ainda que ninguém o tivesse pedido, nós o teríamos sepultado, pois se aproxima o Sabbath. E está escrito na lei: ‘Não se ponha o sol sobre o supliciado’”. 
E o entregou ao povo no dia antes dos Pães Ázimos, a festa deles. Apoderando-se do Senhor, eles o empurravam e diziam: “Arrastemos o filho de Deus, pois finalmente caiu em nossas mãos”. Vestiram-no com um manto de púrpura, fizeram-no sentar-se numa cadeira do tribunal, dizendo: “Julga com justiça, ó rei de Israel!” Um deles trouxe uma coroa de espinhos e a colocou na cabeça do Senhor. Outros que ali se encontravam e cuspiram-lhe no rosto; outros lhe batiam nas faces, outros o fustigavam com uma vara; alguns o flagelavam, dizendo: “Esta é a honra que prestamos ao Filho de Deus”.
Levaram para lá dois malfeitores e crucificaram o Senhor no meio deles. Mas ele se calava como se não sentisse qualquer dor. Quando ergueram a cruz, escreveram no alto: “Este é o rei de Israel”. Colocaram as vestes diante dele, dividiam-nas e lançaram sortes sobre elas. Mas um dos malfeitores o repreendeu, dizendo: “Nós sofremos assim por causa de ações más que praticamos. Este, porém, que se tornou salvador dos homens, que mal vos fez?” Indignados contra ele, ordenaram que não lhe fossem quebradas as pernas e assim morresse entre os tormentos. 
Era meio-dia, quando as trevas cobriram toda a Judéia. Eles se agitavam e se angustiavam, supondo que o sol já se tivesse posto, pois ele ainda estava vivo. E está escrito para eles: “Não se ponha o sol sobre o supliciado”. E um deles disse: “Dai-lhe de beber fel com vinagre”. Fizeram um mistura e lhe deram para beber. E cumpriram tudo, enchendo desse modo a medida de seus pecados sobre suas cabeças. Muitos andavam com tochas e, pensando que fosse noite, retiraram-se para repousar [ou cairam ao chão]. E o Senhor gritou, dizendo: “Minha força, minha força, tu me abandonaste!” Enquanto assim falava, foi tomado para cima. 
Na mesma hora o véu do templo de Jerusalém se rasgou em duas partes. Tiraram os pregos das mãos do Senhor e o depuseram no chão. Tremeu toda a terra e houve grande medo. Brilhou, então, o sol e reconheceram que era a nona hora (três horas da tarde). Alegraram-se os judeus e deram seu corpo a José para que o sepultasse. José tinha visto todo o bem quem Jesus fizera. Tomando o Senhor, levou-o, envolvendo-o em um lençol e o depositou em seu próprio sepulcro, chamado Jardim de José. 
Os judeus, os anciãos e os sacerdotes compreenderam, então, o grande mal que tinham feito a si mesmos e começaram a lamentar-se, dizendo:
 - "Ai de nós, por causa de nossos pecados! O juízo e fim de Jerusalém estão agora próximos!".
 Eu e meus companheiros estávamos tristes; de ânimo abatido nos escondíamos. Estávamos sendo procurados por eles como malfeitores e como aqueles que queriam incendiar o templo.
 Por causa de tudo isto, jejuámos e nos assentámos, lamentando-nos e chorando noite e dia, até o Sabbath. 
[A guarda do sepulcro]
 Os escribas, os fariseus e os anciãos se reuniram, pois ficaram sabendo que todo o povo murmurava e se lamentava, batendo no peito e dizendo:
 - “Se por ocasião de sua morte se realizaram sinais tão grandes, vede quanto ele era justo!”
 Tiveram medo e foram a Pilatos, pedindo-lhe:
 - “Dá-nos soldados para que seu túmulo seja vigiado por três dias. Que não aconteça que seus discípulos venham roubá-lo e o povo acredite que ele tenha ressuscitado dos mortos e nos faça mal”.
 Pilatos deu-lhes o centurião Petrónio com soldados para vigiar o sepulcro. Com eles dirigiram-se ao túmulo os anciãos e os escribas e todos os que ali estavam com o centurião. Os soldados rolaram uma grande pedra e a colocaram na entrada do túmulo. Nela imprimiram sete selos. Depois ergueram ali uma tenda e montaram guarda.
 Pela manhã, ao despontar do sábado, veio de Jerusalém e das vizinhanças uma multidão para ver o túmulo selado. 
[Ressurreição de Jesus]
 Mas durante a noite que precedeu o dia do Senhor, enquanto os soldados montavam guarda, por turno, dois a dois, ressoou no céu uma voz forte e viram abrir-se os céus e descer de lá dois homens, com grande esplendor, e aproximar-se do túmulo. A pedra que fora colocada em frente à porta rolou donde estava e se pôs de lado. Abriu-se o sepulcro e nele entraram os dois jovens. À vista disto, os soldados foram acordar o centurião e os anciãos, pois também estes estavam de guarda. E enquanto lhes contavam tudo o que tinham presenciado, viram também sair três homens do sepulcro: dois deles amparavam o terceiro e eram seguidos por uma cruz. A cabeça dos dois homens atingia o céu, enquanto a daquele que conduziam pela mão ultrapassava os céus. Ouviram do céu uma voz que dizia:
 - “Pregaste aos que dormem?”
 E da cruz se ouviu a resposta:
 - “Sim”. 
 Eles, então, deliberaram em conjunto ir relatar essas coisas a Pilatos. Enquanto ainda conversavam, abriram-se novamente os céus. Um homem desceu e entrou no túmulo. Vendo aquilo, o centurião e os que estavam com ele apressaram-se, sendo ainda noite, a procurar Pilatos, deixando o sepulcro que tinham vigiado. Extremamente abalados, expuseram tudo o que tinham visto e disseram: “Era verdadeiramente Filho de Deus”.
 Pilatos respondeu:
 - “Sou inocente do sangue do Filho de Deus, fostes vós que decidistes assim”.
 Depois todos se aproximaram, pedindo e suplicando que ordenasse ao centurião e aos soldados não contar a ninguém o que tinham visto.
 - “Para nós, diziam, é melhor ser culpado de gravíssimo pecado diante de Deus, do que cair nas mãos do povo judeu e ser lapidados”.
 Pilatos, então ordenou ao centurião e aos soldados que nada dissessem. 
[As mulheres e o sepulcro]
 Ao amanhecer do dia do Senhor, Maria Madalena, discípula do Senhor, que, por medo dos judeus ardentes de cólera, não havia feito na sepultura do Senhor tudo quanto as mulheres costumavam fazer pelos mortos que lhes eram caros, tomou consigo as amigas e dirigiu-se ao túmulo onde tinha sido posto. Elas temiam ser vistas pelos judeus e diziam:
 - “Se, no dia em que foi crucificado, não pudemos chorar e lamentar-nos, façamo-lo pelo menos agora seu túmulo. Quem, no entanto, nos há de revolver a pedra colocada na entrada do sepulcro, a fim de que possamos entrar, sentar-nos em volta dele cumprir o que lhe é devido? A pedra é grande e tememos que alguém nos veja. Se não o pudermos fazer, deponhamos, pelo menos, na porta o que trouxemos em sua memória. Choraremos e nos lamentaremos até a hora de voltarmos para casa”.
 Mas quando chegaram, encontraram o sepulcro aberto. Aproximando-se, inclinaram-se e viram ali um jovem sentado no meio do sepulcro. Era belo e estavam revestido de túnica de raro resplendor.
 Perguntaram-lhe:
  - “Por que viestes? A quem procurais? Por acaso, aquele que foi crucificado? Ressuscitou e foi-se embora. Se não o acreditais, inclinai-vos e olhai o lugar onde jazia. Não está mais. Ressuscitou, na verdade, e voltou para o lugar donde veio”.
 Então as mulheres fugiram assustadas. 
[Conclusão]
 Ora, era o último dia dos Pães Ázimos, e muitos saíam da cidade e voltavam para suas casas, à medida que a festa terminava. Nós, porém, os doze apóstolos do Senhor, chorávamos e nos entristecíamos. Depois, cada um, angustiado por tudo o que tinha acontecido, voltou para sua casa. Mas eu, Simão Pedro, e André, meu irmão, levámos nossas redes e fomos para o mar; e estava conosco Levi, filho de Alfeu, a quem o Senhor...



Referências:
 - http://www.sacred-texts.com/chr/ecf/009/0090004.htm
 - http://www.nazarenopaulista.com.br/estudos/Historia_Eclesiastica_Eusebio_de_Cesareia.pdf
 - http://oll.libertyfund.org/titles/coxe-ante-nicene-fathers-volume-9
 - http://www.sacred-texts.com/chr/ecf/009/0090368.htm

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