domingo, 21 de janeiro de 2018

Marcos - Yom Kippur e Barrabás





Barrabás

O evangelho de Marcos alega que Pilatos, governador romano da Judeia, tinha o costume de libertar um preso na Páscoa, por isso oferece a escolha aos judeus entre Barrabás, um agitador assassino, e Jesus Nazareno, um inofensivo pregador.

Vejamos a passagem:
Marcos 15:6-15
Ora, no dia da festa costumava soltar-lhes um preso qualquer que eles pedissem.
E havia um chamado Barrabás, que, preso com outros amotinadores, tinha num motim cometido uma morte.
E a multidão, dando gritos, começou a pedir que fizesse como sempre lhes tinha feito.
E Pilatos lhes respondeu, dizendo: Quereis que vos solte o Rei dos judeus?
Porque ele bem sabia que, por inveja, os principais dos sacerdotes o tinham entregado. Mas os principais dos sacerdotes incitaram a multidão para que fosse solto antes Barrabás.
E Pilatos, respondendo, lhes disse outra vez: Que quereis, pois, que faça daquele a quem chamais Rei dos judeus? E eles tornaram a clamar: Crucifica-o. Mas Pilatos lhes disse: Mas que mal fez? E eles cada vez clamavam mais: Crucifica-o.
Então, Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou-lhes Barrabás, e, açoitado Jesus, o entregou para que fosse crucificado.


Pilatos, perante a multidão, coloca Jesus lado a lado com um rebelde assassino chamado Barrabás. Um deles poderia ser libertado. Mas no fim os judeus acabam por escolher a soltar Barrabás e Pilatos concede.

O primeiro problema para uma interpretação literal desta passagem é que não existem provas de que Pilatos tivesse o costume de libertar um preso na Páscoa. Os evangelhos Lucas e João nem concordam que esse era um costume de Pilatos.

O segundo problema é que não seria nada provável um governador romano libertar um rebelde assassino. Muito menos Pilatos, que tinha a reputação de ser inflexível e cruel com rebeldes.


Yom Kippur

O Yom Kippur, também conhecido como o Dia da Expiação (ou do Perdão), é o dia mais sagrado do ano no judaísmo. Seus temas centrais são a expiação (redenção) e o arrependimento. Os seguidores da fé judaica tradicionalmente observam este dia sagrado com um período aproximado de 25 horas de jejum e oração intensiva, muitas vezes passando a maior parte do dia em serviços religiosos.

O texto de Levítico 16, no Antigo Testamento, descreve como é que deveriam ser as celebrações do Yom Kippur:

Levitico 16
... E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para expiação do pecado e um carneiro para holocausto.
... E Arão lançará sortes sobre os dois bodes: uma sorte por Yahveh e a outra sorte pelo bode emissário. Então, Arão fará chegar o bode sobre o qual cair a sorte por Yahveh e o oferecerá para expiação do pecado. Mas o bode sobre que cair a sorte para ser bode emissário apresentar-se-á vivo perante Yahveh, para fazer expiação com ele, para enviá-lo ao deserto como bode emissário.
...
Depois, degolará o bode da oferta pela expiação, que será para o povo ...
...
Havendo, pois, acabado de expiar o santuário, e a tenda da congregação, e o altar, então, fará chegar o bode vivo. E Arão porá ambas as mãos sobre a cabeça do bode vivo e sobre ele confessará todas as iniquidades dos filhos de Israel e todas as suas transgressões, segundo todos os seus pecados; e os porá sobre a cabeça do bode e enviá-lo-á ao deserto, pela mão de um homem designado para isso. Assim, aquele bode levará sobre si todas as iniquidades deles à terra solitária; e o homem enviará o bode ao deserto.


O livro do Levítico descreve que no Yom Kippur (Dia do Perdão), a população deveria entregar dois bodes ao sumo-sacerdote. Um dos bodes seria sacrificado, o outro seria liberto e levado vivo para longe.

O bode que ficaria vivo seria usado para "carregar" simbolicamente os pecados de toda a comunidade para longe. O outro bode seria sacrificado no altar.


Solução para a passagem sobre Barrabás

Em alguns textos fora do Novo Testamento, Barrabás é chamado de Jesus Barrabás, mas nos evangelhos canónicos ficou apenas o nome Barrabás. Ora, Barrabás em aramaico significa “Filho do Pai” (bar-Abbas) e o objectivo era escolher quem é que ficaria livre e quem é que seria morto:
-          Jesus, Filho do Pai (bar-Abbas), ou
-          Jesus, Filho do Homem, Rei dos Judeus.

Barrabás era o alter-ego de Jesus, ou seja, o Filho do Pai que ficaria livre e Jesus, o Filho do Homem, o Rei do Judeus, seria morto. Tal como os dois bodes referidos no Levítico: um seria libertado e outro seria sacrificado!

Em conclusão, esta passagem de Marcos é uma sátira ao Yom Kippur.


Referências:
 - On the Historicity of Jesus - Richard Carrier


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